Na volta ao romance, a situação estava satisfatoriamente desordenada, isto é, se a idéia era tumultuar uma história, estava tudo ótimo. O menino insistia que tinha ouvido vozes, que toda sua vida era uma história e que eles eram personagens e deveriam ficar quietos e deixarem que o autor escrevesse em paz. Contou o sonho do tio para ele, o que fez muita diferença, pois Eurico estremeceu ao ouvir os detalhes. O pai de Eurico, avô do garoto, deu o diagnóstico: o garoto estava louco e deveria ser internado. O problema é que o menino realmente insistiu na história, não dormia de noite, não prestava atenção na aula, contava a história para todo mundo. A avó dizia: “que autor mais idiota! Se ele acha que deveríamos ficar quietos e deixar que ele escrevesse em paz, por que foi contar logo para esse menino linguarudo? E por que diabos esse menino fala feito um papagaio se está convicto de que deveria ficar quieto? Tem coisa errada aí. Além disso, como eu vou saber se estou falando e fazendo o que quero ou o que o autor quer? Não tem quem me governe não, meu filho. Está para nascer um filho duma égua que mande em mim. Se ele é autor e me fez ser deste jeito, com essas dores nas pernas, quero que ele se dane...”. A senhora me disse uns impropérios, usando palavras que me fizeram ir ao dicionário. Era uma senhora muito enraivecida e doutora em questões de esculacho, coisa surpreendente para mim. Talvez a idéia dela fosse que eu lhe retirasse as dores das pernas, única reclamação específica que fez. Fiquei de pensar no caso. A criança estava mesmo doente, pois depois que ouviu minha voz e passou a propagar essa história, a família se reuniu e achou melhor levá-lo a um psiquiatra que receitou pesadas drogas. O tio, que acreditava no sobrinho, fingia que não acreditava para não ser visto também como doido. Fez questão de estar presente na consulta e furtava comprimidos da criança, pois sabia que sofria do mesmo mal. Não exatamente do mesmo mal, pois a criança, além de ter passado, ela mesma, pela experiência de ouvir a voz do autor, era uma pessoa introvertida que se vira obrigada a agir de modo extrovertido. Enfim, ocorrera um trauma àquela criança. Ao tio nem tanto, pois ele era um pouco parecido comigo, por ser o protagonista do livro. Não se assustava muito com coisas absurdas, mas aquela revelação abriu mil possibilidades em sua cabeça. Embora passasse naquele momento por uma fase de agnosticismo, ele sempre desconfiara da existência de um “autor de tudo”. Agora, às vezes acreditava firmemente que era um mero personagem de livro e, nessas horas, furtava um dos remédios do garoto. Absorvido na história, sem ter escrito nada, pois uma hora ou outra eu esquecia que era o dono daquilo lá, meu telefone tocou. Era um primo pedindo que eu fosse cavar uma cisterna. Vocês acreditam?!
Posted by César Miranda at julho 9, 2008 10:26 AM | TrackBackWow, isso aqui está cada vez mais P.G.Wodehouse.
Posted by: Adalberto Queiroz at julho 10, 2008 12:04 PM