Para que Eurico voltasse da ceva, usei um truque (coisa que me arrependi mais tarde), inventei que aquilo lá foi um sonho. Escrevi em seguida que Eurico acordava em casa, impressionado com o sonho muito real que acabou de ter, de que tinha ido para a ceva com o pai e estava feliz tomando uma cerveja, sentado em uma pedra, como se fosse um dos sapos do lugar. Tive prazer em escrever isso, para mostrar quem mandava naquela bagunça, não obstante preservei para o restante da história a existência do pai, da mãe, da fazenda e tudo mais que tinha aparecido sem que eu tivesse criado. A idéia que tive para me comunicar com os personagens foi a seguinte. Eu fiz o sobrinho de Eurico ouvir vozes. Acho melhor transcrever o que escrevi lá. O sobrinho que falava enquanto dormia um dia acordou e ouviu uma voz. “Rafael”, era seu nome. Ele disse “o que é, tio?”. Mas não era o tio que falava. “Rafael”, agora era uma voz de mulher. “O que é, Vó?” Mas não era a vó. “Quem tá me chamando?”. “Sou eu, Rafael”, agora era voz de homem, “eu sou o escritor desta história”. “Escritor?”, quis saber o Rafa. “Sim, você é personagem de uma história que estou escrevendo. Por favor, pede para as pessoas em sua volta não fazerem nada sem minha ordem. Para convencê-los, diga a seu tio Eurico que eu o fiz acreditar que foi um sonho, mas que, de fato, ele foi à ceva com seu avô e os milharais estavam devastados por macacos e que seu avô pagou um menino para matar os macacos”. Nessa altura da história, recebi um telefonema. Era um tio meu, muito doente, que insistia que eu fosse visitá-lo, porque “a gente não vai se ver mais”, dizia meu tio, agourando a própria morte. Fechei o micro e fui visitar o velho. Chegando lá, o encontrei muito melhor do que antes, um mês atrás, quando tivera sinais de derrame. O médico lhe receitou uns remédios e fisioterapia e ele havia melhorado. Mas insistia que “desta vez ia...”. Mandei que ele parasse com aquela bobagem e percebesse que estava melhor que antes. Portanto, que história é essa de “não vamos mais nos ver?”. Essa visita que fiz a meu tio foi só para atrapalhar minha conversa com o garoto Rafael e para criar um caos na vida do coitado do garoto. Vocês não acreditam.
Continua (...)