O progresso da técnica não é o progresso do homem. A técnica apenas aumenta o conforto do homem. O conforto, não raramente, é corriqueiro instrumento de um dos esportes mais praticados pela humanidade: a auto-sabotagem. Uma dessas auto-sabotagens é o niilismo que se apossa da pessoa em seu conforto moderno. Não é à toa que o niilismo filosófico se agiganta no momento da história em que a técnica é entronizada (e a transcendência, aviltada). E assim, o progresso da técnica tira do homem a profundidade filosófica e espiritual. Poder-se-ia dizer “superficial como um cosmopolita”, “superficial como um metropolitano” etc., pois o homem moderno tem a profundidade de um rótulo. Essa superficialidade tem toda relação com o progresso tecnológico entronizado, isto é, endeusado como se ele pudesse, ou viesse para substituir o amor, por exemplo. Antigamente (nos séculos medievos) os pais eram professores dos filhos. Não havia babá, esse papel era da mãe do bebê. Hoje, a televisão é babá e professora. Imagine a diferença de profundidade entre a relação da criança com seus pais e com seu videogame. O progresso tem sido muito eficiente em matar o amor e em glorificar a superficialidade. Enquanto isso, a família anda desvalida, o amor anda miserável, a amizade é uma pobre coitada e a transcendência jaz na sarjeta. A internet nos aproxima dos distantes e nos distancia dos próximos e, assim, quanto mais aprofundamos uma amizade virtual, mais profundo fica o poço de nossa solidão.
Posted by César Miranda at junho 19, 2008 12:07 AM | TrackBack"Pode-se querer andar com quatro patas, quando lemos vossa obra."
Essa carta do Voltaire ao Rousseau me veio instantaneamente à cabeça ao ler seu post. Ora, é óbvio que o progresso da técnica não traduz necessária evolução espiritual, esclarecimento. Técnica por técnica, como já diziam os marxistas (e aqui com certa razão) só se traduz em alienação, ou, como você prefere, "auto-sabotagem". Contudo, seu texto é de um reducionismo passional, romântico. E romantismo definitivamente não combina com filosofia.
Tente enxergar "profundida filosófica" num camponês do século XVI. O máximo que vai achar é espiritualismo coxo, calcado em superstição e não em séria meditação. É verdade que certo niilismo filosófico apareceu com o avanço da ciência e principalmente a partir de crenças indevidas na onisciência dela. Mas, entenda. Você foge do real problema. E este problema já está há tempos colocado: para além da religião, da crença terrível numa espécie de super-homem nietzschiano, em utopias sociais e científicas; onde vamos nos apoiar? Qual será o esteio que nos dará sentido e servirá de base a nossos valores?
A resposta mais plausível, ao meu ver, está no humanismo. Não o humanismo molenga e cego dos politicamente corretos e sentimentalistas, mas o humanismo lúcido e corajoso apontado por autores como Hannah Arendt e, a seu modo, Albert Camus. A melhor forma de atingir a "transcendência" que você menciona? Ora, a Arte.
O grande problema continua sendo em como lidar com os campos da ciência, da ética e da estética; como equilibrá-los na práxis. A Arte pode ser o que há de mais elevado, mas pouco responde.
Resposta:
Rodrigo, a resposta é o amor. É sempre o amor, mas é romantismo falar de amor e o romantismo é mal visto pela filosofia, etc, affff. É bom esclarecer que este post não é um ataque à técnica. É um ataque ao comportamento daqueles que se deixam escravizar pelo conforto. Eu tô falando aqui da vida e vêm falando de filosofia. O último filósofo foi Santo Agostinho (com uma exceçãozinha aqui e ali) porque sua filosofia era um retrato de sua vida, não o amontoado de teorias que os lógicos inventaram. Eu duvido muito da lógica filosófica. Só acredito no que me acontece, no que vejo pela vida e nas promessas de Cristo. Dane-se a filosofia e suas teses dissociadas da vida. Ah, esse post também é uma defesa da home schooling. Obrigado pela seu comentário.