junho 24, 2008

A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER - IV

Não deveria ter dormido, pois quando acordei, o pai do Eurico, “seu Pedro”, tinha voltado da roça e colocou na cabeça do filho que ele deveria ir ver a ceva do ribeirão que passava na fazenda e ir lá pegar umas jiripocas. Já tinham fisgado mais de duzentos peixes. E ele deveria pegar as tarrafas e uns anzóis, porque “o trem” lá “tava bão demais da conta”. Eurico, que por pescaria era o mesmo que macaco por banana, foi para o ribeirão no outro dia. Chegando lá, Eurico ficou decepcionado ao ver sua plantação de milho devastada. Ele perguntou ao pai o que tinha acontecido e o pai falou que os macacos tinham comido o milho, mas que ele não se preocupasse, pois já tinha contratado um menino com uma espingarda para matar o tanto de macacos que conseguisse. “E o menino já matou uns vinte macacos, precisa ver”, dizia seu Pedro após uma gargalhada. Eurico ouvia isso sem acreditar, achando tudo uma selvageria, dos macacos e do pai. “Mas não tem outro jeito”, disse o pai, “até colocaram um espantalho que não adiantou ‘merda nenhuma’”, pois “macaco é bicho sabido”. Chegando ao ribeirão, sentiu aquele frio que se sente nos lugares com muita água, o cheiro meio doce das frutas do lugar que se espalha onde tem água farta e o canto do melro que também se espalha ao redor de mato fechado perto de ribeirões como aquele. Muita gente estava lá e realmente os peixes pulavam para fora d’água tentando escapar do cerco, num espetáculo bonito de ver. Eurico nem ligou para aquilo, improvisou uma churrasqueira e abriu um peixes, jogou no fogo, pegou cerveja e sentou-se em uma pedra, como se fosse um dos sapos do lugar. Tudo isso que acabo de contar aconteceu pelas minhas costas. Tomei conhecimento disso e fiquei muito zangado com tudo. Não gosto que me enganem, principalmente meus personagens. O fato é que eu já estava me deixando levar pela história e aprendendo dela mais do que a construindo. Apesar das surpresas que aqueles mal agradecidos me faziam, eu ainda tentaria imprimir minha marca ali. Definitivamente, eu precisava conversar com um deles e já sabia como fazê-lo. Peguei o computador e mandei ver. Já não me lembrava mais do problema dos ratos. Estava fixo no meu próprio problema com a rebeldia dos personagens de minha ficção.

(continua...)
As partes deste conto são publicadas quase sempre.

Posted by César Miranda at junho 24, 2008 12:03 AM | TrackBack
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