Na volta ao livro, liguei o computador com relutância e não tive surpresa alguma, pois tudo estava realmente uma bagunça. Apareceu a mãe do tio – personagem que eu nem tinha criado – avó do menino que falava enquanto dormia. Era uma senhora que reclamava de não conseguir dormir de noite direito e que sentia muitas dores nas pernas. O importante é que ela tinha colocado uma ratoeira e pegara um rato. Todos os dias ela colocava uma ratoeira no mesmo lugar e pegava um rato, o que denotava baixa inteligência da população de ratos que habitava o lugar. Todos, ratos e humanos, viviam ali, acostumados àquele ambiente e rotina. Os ratos eram problema apenas para o tio (Eurico era seu nome, coisa que descobri mais tarde, pois quando comecei a história, pensei em chamá-lo “Rico”, que era o nome com que o sobrinho o chamava, “tio Rico, tio Rico, vem cá!”). Eurico estava em férias na casa de seus pais. Pelo menos eu imaginava que eram férias pelo seu descontentamento com aquela casa. Eu já não tinha muita certeza das coisas no meu próprio livro, mas continuei a escrita. Não se incomodem muito, vou contar coisas que só fiquei sabendo depois, como essa questão do nome, mas no geral não vai atrapalhar a narrativa. Afinal não estou escrevendo o livro aqui, estou apenas contando minha aventura de tentar escrevê-lo. Mas prossigamos. Naquele dia, eu tentei dar uma adiantada boa na história. Eurico se incomodava com os ratos, como se ele mesmo não morasse na casa. Incomodava-se como alguém que ganhara uma nova unha encravada. Ora, a dor dói mais quando chega do que quando se torna velha moradora em nós. Assim como o prazer, que é melhor quando chega do que quando continua. Os ratos o incomodavam como se ele fosse um convidado na casa. Naquele dia, ele teve uma grande idéia, que executaria assim que seu pai voltasse da fazenda. A idéia era restringir o espaço dos ratos, enfim, usar a inteligência contra os roedores: dificultar o caminho dos ratos com pequenos obstáculos ao longo de onde eles costumavam correr. Nesse ponto da história, adormeci no teclado e, quando acordei, desliguei o computador e fui dormir. Tive um sonho em que eu conversava com meus personagens e gostei da idéia. Quem sabe eu não poderia mesmo conversar com eles? Acordei pensando nisso.
(continua...)
As partes deste conto são publicadas toda segunda-feira.