As coisas mais absurdas nunca me causaram nenhum estranhamento. Eu sou aquele cara que, se uma bomba atômica caísse na cidade vizinha e alguém perguntasse o que era aquele barulho, responderia que não tinha certeza, mas me parecia um si bemol. Se eu estivesse com os três apóstolos no episódio da transfiguração, talvez tirasse uma soneca enquanto Cristo papeava com Elias e Moisés. Então, achei aquele desarranjo na minha história algo bem normalzinho. E era só um romance. Grande coisa! Continuei dali mesmo, afinal não tinha acontecido nada que atrapalhasse o esqueleto da história, nem mesmo os músculos ou a epiderme da história, pois eu apenas começara. E o romance seguia nos seguintes termos.
De noite, estavam tio e sobrinho dormindo no mesmo quarto quando o barulho se repetiu. O tio pensou que eram ratos. Pensou não, ele concluiu definitivamente que eram ratos e se virou para o lado, tentando dormir. Havia muitos ratos lá e, de vez em quando uma ratoeira pegava algum, mas as baixas causadas pela ratoeira apenas tornavam os ratos mais fortes. Conforme as teorias do Dr. Darwin, somente os ratos mais fracos se deixam pegar pelas ratoeiras. Veneno não resolvia. Era até pior, pois o rato comia o veneno e ia morrer longe dali, em seu esconderijo e aquilo fedia por muito tempo, sem que identificassem a fonte daquela carniça. Nesse ponto da história resolvi tomar um banho e jantar. Depois da janta, chegou uma tia para nos visitar e falar dos problemas que tinha. Era uma lista enorme de doenças, que ela contava com muito contentamento, feliz por ser tão sofrida. Ah, deixe que eu me apresente, meu nome é Alfredo, sou escritor amador e estou contando a história do primeiro romance que tentei escrever e porque este é meu último relato, já que agora me dedicarei à pintura. Antes disso, quero contar a história do romance. Eu já tinha ouvido falar que personagens nem sempre costumam ter o destino que o escritor planeja para eles. Não só vi que isso é verdade, como vi que não é bem só o destino, é o itinerário também, as prosaicas coisas do dia-a-dia. Tudo pode ser muito diferente do que plano traçado pelo dono da história. Aquela era para ser um clássico, eu pretendia mostrar os personagens lutando com grandeza contra as coisas pequenas da vida, como ratos barulhentos, e lutando com humildade contras as grandes coisas da vida como a velhice. Queria personagens como nunca se viu nesta nossa literatura vil. Gente com mais alma que corpo. Queria fazer como Deus faz conosco ao ansiar que participemos de Sua grandeza. Quebrei a cara.
(continua...)
As partes deste conto são publicadas toda segunda-feira.