Todo sim que escuto é amargurado
Todo trago que tomo é por inteiro
Todo pranto que tenho é engraçado
Todo medo que sofro é bem ligeiro
Todo cheiro me vem falsificado
Todo clone me vem tão verdadeiro
Todo ensejo me chega atrasado
Todo azo para mim é brasileiro
Todo verso que faço é inventado
Todo fato que invento é verdadeiro
VÍCIO - Viciou-se em drogas. Roubava para sustentar o vício. Com o dinheiro que sobrava do roubo resolveu se internar em uma clínica, que o livrou do vício das drogas. De volta à vida, adquirira novo vício. Roubava.
O NOIVO DA DEFUNTA - No funeral, o noivo da defunta levou flores para a noiva. Os outros levaram flores para a defunta.
VIVA SÃO JOÃO - No morro, a polícia invadiu a festa junina e prendeu uns bandidos por formação de quadrilha.
Não deveria ter dormido, pois quando acordei, o pai do Eurico, “seu Pedro”, tinha voltado da roça e colocou na cabeça do filho que ele deveria ir ver a ceva do ribeirão que passava na fazenda e ir lá pegar umas jiripocas. Já tinham fisgado mais de duzentos peixes. E ele deveria pegar as tarrafas e uns anzóis, porque “o trem” lá “tava bão demais da conta”. Eurico, que por pescaria era o mesmo que macaco por banana, foi para o ribeirão no outro dia. Chegando lá, Eurico ficou decepcionado ao ver sua plantação de milho devastada. Ele perguntou ao pai o que tinha acontecido e o pai falou que os macacos tinham comido o milho, mas que ele não se preocupasse, pois já tinha contratado um menino com uma espingarda para matar o tanto de macacos que conseguisse. “E o menino já matou uns vinte macacos, precisa ver”, dizia seu Pedro após uma gargalhada. Eurico ouvia isso sem acreditar, achando tudo uma selvageria, dos macacos e do pai. “Mas não tem outro jeito”, disse o pai, “até colocaram um espantalho que não adiantou ‘merda nenhuma’”, pois “macaco é bicho sabido”. Chegando ao ribeirão, sentiu aquele frio que se sente nos lugares com muita água, o cheiro meio doce das frutas do lugar que se espalha onde tem água farta e o canto do melro que também se espalha ao redor de mato fechado perto de ribeirões como aquele. Muita gente estava lá e realmente os peixes pulavam para fora d’água tentando escapar do cerco, num espetáculo bonito de ver. Eurico nem ligou para aquilo, improvisou uma churrasqueira e abriu um peixes, jogou no fogo, pegou cerveja e sentou-se em uma pedra, como se fosse um dos sapos do lugar. Tudo isso que acabo de contar aconteceu pelas minhas costas. Tomei conhecimento disso e fiquei muito zangado com tudo. Não gosto que me enganem, principalmente meus personagens. O fato é que eu já estava me deixando levar pela história e aprendendo dela mais do que a construindo. Apesar das surpresas que aqueles mal agradecidos me faziam, eu ainda tentaria imprimir minha marca ali. Definitivamente, eu precisava conversar com um deles e já sabia como fazê-lo. Peguei o computador e mandei ver. Já não me lembrava mais do problema dos ratos. Estava fixo no meu próprio problema com a rebeldia dos personagens de minha ficção.
(continua...)
As partes deste conto são publicadas quase sempre.
1. O verdadeiro político é o que tem problema de dicção.
2. O halloween é uma brincadeira besta em que crianças vestidas de monstros são recebidas a balas.
3. Os kamikazes usavam capacete pelo mesmo motivo que os cegos usam óculos.
4. O “Quase” e o “nada” são quase a mesma coisa.
5. Hegel é o Caetano da filosofia.
6. Quando os homens viviam 800 anos, era comum o sujeito casar com uma mulher 600 anos mais nova.
7. Canja é um tipo de chá de galinha.
8. Vírus são doenças de computador transmitidas por piratas.
9. Sou pela prisão do verso livre.
10. O povo é igual às crianças (ou gente é igual menino).
O progresso da técnica não é o progresso do homem. A técnica apenas aumenta o conforto do homem. O conforto, não raramente, é corriqueiro instrumento de um dos esportes mais praticados pela humanidade: a auto-sabotagem. Uma dessas auto-sabotagens é o niilismo que se apossa da pessoa em seu conforto moderno. Não é à toa que o niilismo filosófico se agiganta no momento da história em que a técnica é entronizada (e a transcendência, aviltada). E assim, o progresso da técnica tira do homem a profundidade filosófica e espiritual. Poder-se-ia dizer “superficial como um cosmopolita”, “superficial como um metropolitano” etc., pois o homem moderno tem a profundidade de um rótulo. Essa superficialidade tem toda relação com o progresso tecnológico entronizado, isto é, endeusado como se ele pudesse, ou viesse para substituir o amor, por exemplo. Antigamente (nos séculos medievos) os pais eram professores dos filhos. Não havia babá, esse papel era da mãe do bebê. Hoje, a televisão é babá e professora. Imagine a diferença de profundidade entre a relação da criança com seus pais e com seu videogame. O progresso tem sido muito eficiente em matar o amor e em glorificar a superficialidade. Enquanto isso, a família anda desvalida, o amor anda miserável, a amizade é uma pobre coitada e a transcendência jaz na sarjeta. A internet nos aproxima dos distantes e nos distancia dos próximos e, assim, quanto mais aprofundamos uma amizade virtual, mais profundo fica o poço de nossa solidão.
Na volta ao livro, liguei o computador com relutância e não tive surpresa alguma, pois tudo estava realmente uma bagunça. Apareceu a mãe do tio – personagem que eu nem tinha criado – avó do menino que falava enquanto dormia. Era uma senhora que reclamava de não conseguir dormir de noite direito e que sentia muitas dores nas pernas. O importante é que ela tinha colocado uma ratoeira e pegara um rato. Todos os dias ela colocava uma ratoeira no mesmo lugar e pegava um rato, o que denotava baixa inteligência da população de ratos que habitava o lugar. Todos, ratos e humanos, viviam ali, acostumados àquele ambiente e rotina. Os ratos eram problema apenas para o tio (Eurico era seu nome, coisa que descobri mais tarde, pois quando comecei a história, pensei em chamá-lo “Rico”, que era o nome com que o sobrinho o chamava, “tio Rico, tio Rico, vem cá!”). Eurico estava em férias na casa de seus pais. Pelo menos eu imaginava que eram férias pelo seu descontentamento com aquela casa. Eu já não tinha muita certeza das coisas no meu próprio livro, mas continuei a escrita. Não se incomodem muito, vou contar coisas que só fiquei sabendo depois, como essa questão do nome, mas no geral não vai atrapalhar a narrativa. Afinal não estou escrevendo o livro aqui, estou apenas contando minha aventura de tentar escrevê-lo. Mas prossigamos. Naquele dia, eu tentei dar uma adiantada boa na história. Eurico se incomodava com os ratos, como se ele mesmo não morasse na casa. Incomodava-se como alguém que ganhara uma nova unha encravada. Ora, a dor dói mais quando chega do que quando se torna velha moradora em nós. Assim como o prazer, que é melhor quando chega do que quando continua. Os ratos o incomodavam como se ele fosse um convidado na casa. Naquele dia, ele teve uma grande idéia, que executaria assim que seu pai voltasse da fazenda. A idéia era restringir o espaço dos ratos, enfim, usar a inteligência contra os roedores: dificultar o caminho dos ratos com pequenos obstáculos ao longo de onde eles costumavam correr. Nesse ponto da história, adormeci no teclado e, quando acordei, desliguei o computador e fui dormir. Tive um sonho em que eu conversava com meus personagens e gostei da idéia. Quem sabe eu não poderia mesmo conversar com eles? Acordei pensando nisso.
(continua...)
As partes deste conto são publicadas toda segunda-feira.
FÁBULA – o conto curto
Um dia uma flor ainda em botão foi despetalada e se transformou em uma menina que não via o amor.
FÁBULA - o soneto
Ainda em botão, um dia, uma flor
Foi muito violentamente despetalada
Quando cresceu se viu transformada
Em uma menina que não via o amor.
E ela seguia pelas madrugadas
Lembrando do tempo em que era flor
E era de perfume as suas pegadas
E sem sentir, se ia, semeando amor
E ela pisa o amor enquanto caminha
O amor e todo seu estranho esplendor
Porque ela pensa que está sozinha
E não vê o brilho do sol do amor
O amor para ela é qual erva daninha
O amor é espinho para aquela flor
As coisas mais absurdas nunca me causaram nenhum estranhamento. Eu sou aquele cara que, se uma bomba atômica caísse na cidade vizinha e alguém perguntasse o que era aquele barulho, responderia que não tinha certeza, mas me parecia um si bemol. Se eu estivesse com os três apóstolos no episódio da transfiguração, talvez tirasse uma soneca enquanto Cristo papeava com Elias e Moisés. Então, achei aquele desarranjo na minha história algo bem normalzinho. E era só um romance. Grande coisa! Continuei dali mesmo, afinal não tinha acontecido nada que atrapalhasse o esqueleto da história, nem mesmo os músculos ou a epiderme da história, pois eu apenas começara. E o romance seguia nos seguintes termos.
De noite, estavam tio e sobrinho dormindo no mesmo quarto quando o barulho se repetiu. O tio pensou que eram ratos. Pensou não, ele concluiu definitivamente que eram ratos e se virou para o lado, tentando dormir. Havia muitos ratos lá e, de vez em quando uma ratoeira pegava algum, mas as baixas causadas pela ratoeira apenas tornavam os ratos mais fortes. Conforme as teorias do Dr. Darwin, somente os ratos mais fracos se deixam pegar pelas ratoeiras. Veneno não resolvia. Era até pior, pois o rato comia o veneno e ia morrer longe dali, em seu esconderijo e aquilo fedia por muito tempo, sem que identificassem a fonte daquela carniça. Nesse ponto da história resolvi tomar um banho e jantar. Depois da janta, chegou uma tia para nos visitar e falar dos problemas que tinha. Era uma lista enorme de doenças, que ela contava com muito contentamento, feliz por ser tão sofrida. Ah, deixe que eu me apresente, meu nome é Alfredo, sou escritor amador e estou contando a história do primeiro romance que tentei escrever e porque este é meu último relato, já que agora me dedicarei à pintura. Antes disso, quero contar a história do romance. Eu já tinha ouvido falar que personagens nem sempre costumam ter o destino que o escritor planeja para eles. Não só vi que isso é verdade, como vi que não é bem só o destino, é o itinerário também, as prosaicas coisas do dia-a-dia. Tudo pode ser muito diferente do que plano traçado pelo dono da história. Aquela era para ser um clássico, eu pretendia mostrar os personagens lutando com grandeza contra as coisas pequenas da vida, como ratos barulhentos, e lutando com humildade contras as grandes coisas da vida como a velhice. Queria personagens como nunca se viu nesta nossa literatura vil. Gente com mais alma que corpo. Queria fazer como Deus faz conosco ao ansiar que participemos de Sua grandeza. Quebrei a cara.
(continua...)
As partes deste conto são publicadas toda segunda-feira.
Um paulista (desculpe, um cidadão nascido no estado do São Paulo) morador de Teresina, no Piauí, entrou na justiça contra seu chefe, gerente do supermercado em que ele trabalha, por assédio moral. O fato é que o chefe vivia chamando o empregado de “paulista” e ele se sentiu ofendido. Perante o juiz, o empregado reclamou que não só ele, mas vários empregados oriundos do Sudeste são freqüentemente tratados pelo seu gentílico, o que causa muito constrangimento. O juiz perguntou onde ele nascera e o empregado disse que tinha nascido em São Paulo. O juiz disse que então ele era paulista mesmo e perguntou então porque ficara constrangido e ofendido e ele respondeu ao juiz que o gerente não o chamara de paulista e sim de “paulista”, entre aspas. O problema todo era as aspas, elas desciam como martelo em sua cabeça. “Que aspas?”, quis saber o juiz. “Ora, Doutor, as aspas, o senhor sabe o que estou dizendo”. O juiz disse que não sabia não e que nunca vira aspas saindo da boca de ninguém e principalmente batendo como martelo em sua cabeça. “O senhor nunca viu aspas batendo em sua cabeça como martelo porque o senhor é nordestino”, disse o paulista com um sotaque irritante aos ouvidos do juiz, sugerindo que o juiz nunca sentira o peso de uma aspa no seu cocuruto, pois, sendo nordestino que nascera e crescera no Piauí, jamais sofrera as dores do paulista que sobe para ganhar a vida no nordeste maravilha. “Sou o quê?”, perguntou o juiz. “Nordestino”, disse o paulista. O rosto do juiz esquentou e invadiu-lhe a ira. Pela primeira vez, ele sentira aspas batendo em sua cabeça como martelo. Então, o juiz processou o paulista por preconceito.
Era assim que começava a história que resolvi escrever:
No quarto, o tio e o sobrinho dormiam. Então o tio era despertado por barulho de ratos. Os ratos do casarão faziam barulhos durante a noite. Nessa hora o sobrinho começava a conversar. O garoto toda noite falava sozinho enquanto dormia.
Parei a história nesse ponto, coloquei o computador de lado e fui à cozinha tomar água. Lá chegando, um amigo, que há tempos eu não via, chegou quase junto comigo. Ficamos ali conversando sobre nada muito importante, isto é, os problemas da nação, o roubo dos políticos, política internacional e afins. Eu gostava muito de falar sobre tais coisas com esse meu amigo porque ele não tem opinião alguma sobre essas questões, então minha opinião sempre prevalece quando conversamos, e isso me deixa muito satisfeito e aliviado. É como tomar um trago sem que ninguém veja, para um alcoólatra, em período de abstinência. Desde que prometi não opinar sobre mais nada, não perco a chance de conversar com esse amigo, porque com ele posso opinar como se não estivesse opinando. É como se conversasse comigo mesmo. No final acabo pensando porque parei de opinar, afinal continuo pensando o que penso, não adianta negar. Depois que conversamos bastante, meu amigo foi embora e eu voltei para o micro para continuar o romance do tio e do sobrinho que dormiam em um quarto e escutaram barulhos de ratos, pois tais barulhos aconteciam toda noite e toda noite o garoto falava enquanto dormia. Pois bem, quando voltei para continuar, ao olhar onde tinha parado a história, o dia já tinha amanhecido, o garoto tinha ido estudar e o tio conversava com garotas em uma sala de bate-papo virtual. Achei aquilo estranho, os dois personagens saírem assim sem minha permissão, e muito bizarro que o tempo tenha passado naquela história sem que eu tenha escrito nada. O fato é que era assim que estava. Enquanto eu conversava com meu amigo, o tempo passara e os personagens seguiram a vida. Nada podendo fazer, meio desorientado, peguei a história dali mesmo e a continuei. Eu tinha que mostrar quem é que mandava.
(continua...)
Este é um conto longo, publicado em partes, toda segunda-feira.