Uns meninos invadiram a UNB e comecei a pensar sobre a sedição e a lei com as próprias mãos, impulso de muitos de nós. Boa parte de meus amigos acha que a polícia tinha que ter entrado lá e tirado os meninos à força. Eu sou contra a ocupação de propriedades privadas. Mas das propriedades públicas, não vejo nada demais, afinal a praça é do povo como o sol é do condor. Além disso, é legítimo que o povo vá aos lugares públicos dizer o que pensa ou firmar uma posição, inclusive aquele povo com quem eu não concordo. O que deveria era o povo com quem eu concordo também se unir e invadir uma ou outra propriedade pública de vez em quando, mas isso ia ficar parecendo com coisa do povo com quem eu não concordo. É como o grande encontro dos machões que nunca acontece porque ia parecer coisa de gays. A maioria queria que o reitor saísse. Na verdade, o povo é o superego dos políticos. Se eles tivessem essa parte da personalidade que têm as pessoas normais, boa parte deles já teria, para o bem do país e de sua própria alma, tomado atitudes de gente. Renúncias seriam normais. Suicídios, corriqueiros. Expatriações, banais. Eu, quando era menino, não fazia nada errado porque achava que morreria (literalmente) de vergonha se fosse pego. Achava também que ao se flagrar um ladrão no ato do furto, ele se desmancharia em prantos, esmagado sob o peso da vergonha e se entregaria à polícia aos choros. Achava que os homens de bens tinham, só por serem de bem, autoridade física sobre os maus. Achava que os bandidos usavam máscaras porque tinham vergonha do que estavam fazendo. Eu era uma criança não entendia nada, como diria Erasmo de Niterói. Não obstante, a vergonha continua existindo e as pessoas sentem muita vergonha geralmente do que não deveriam e não sentem do que deveria matar de vergonha. Hoje se vê gente com vergonha de confessar sua real posição política, sua fé (e sua dúvida) e, a pior de todas as vergonhas, a vergonha de amar. Ainda bem que Deus não tem isso ("isso" é “vergonha de amar”, você acha que eu sou doido de chamar Deus de sem-vergonha?!). Depois de grande e vendo o quanto as coisas são diferentes do que eu pensava quando era pequeno, mesmo o mundo não tendo se adaptado a mim, faço o mesmo com o mundo e não me adapto a ele, pois continuo morrendo de vergonha das mesmas coisas da infância e amando sem a menor vergonha, que é para isso que fui feito.
UPDATE: dois dias após a publicação da parte aí de cima deste post, o MST invadiu a empresa em que trabalho, que é pública. Aí, sou contra, pois o MST não é povo, é um bando. O MST bem merecia um estado de sítio (perceberam o chiste?). O que me deixa tranqüilo como empregado da estatal é que o MST, como se sabe, só invade terra produtiva (de preferência devidamente arada e saneada).
Posted by César Miranda at abril 14, 2008 10:35 PM