abril 23, 2008

ET POURTANT...

Saímos do concerto de Charles Aznavour e chovia pouco, mas já tinha chovido muito. Deixei minha amiga Naza no seu prédio na Octogonal que é um pouco longe de onde moro. Quando saí da Octogonal chovia muito e no tocador de MP3 tocava uma música de Laurent Voulzy, um cantor francês. Coincidência? Vocês não viram nada. Quando acabou essa canção, a chuva aumentou, e entrando no Parque da Cidade começou tocar uma canção do Celso Adolfo que diz “eu quero cair igual a chuva que cai e molha o pé da cidade”. Coincidência? Je ne sais pas. O fato é que chovia muito e eu cantava a canção junto com o coro infantil da gravação agradecido pela coincidência. Brasília tem chovido muito ainda neste fim de abril, que já deveríamos ter um céu muito azul e imenso como só em Brasília há. Quando chovia em março, eu cantava que eram as chuvas de março fechando o verão, como se aquelas fossem as últimas do ano. Não eram não. Hoje mesmo choveu muito e molhou ainda mais o pé da cidade. A chuva são nuvens que emocionadas com o calor se desmancham sobre nós. A chuva é o retrato de minha infância e a Naza, que cresceu no Pará como eu, me dizia que só não gosta de Brasília quando fica muito tempo sem chover. Se Brasília chovesse mais do que chove seria a perfeição dos trópicos. Chegando ao eixo monumental vi um relógio digital enorme informando que faltavam 739 dias para os 50 anos de Brasília. Eu sou mais novo que Brasília 7 anos e 1 mês, façam as contas se quiserem saber quando dias faltam para eu fazer 50 anos. Será em breve, pois os primeiros 90 anos de nossa vida passam muito rapidamente, estarei cantando “hier encore j'avais cinquante ans...”, como hoje cantaria Aznavour, que tem 83, ótima idade para a pessoa se casar. Nessa hora tocava no MP3 uma canção de amor de Mauro Duarte, naquele que é o melhor disco que comprei este ano. Uma obra-prima que não associei a nada, pois não tenho ninguém que tenha me abandonado e eu não queira mais, como diz o samba (pois eu quero sim todas as que me abandonaram). Passando pela rodoviária, entrei na Asa Norte, onde moro. O chão estava menos molhado, a chuva já tinha parado. Começou uma canção que não lembro qual, lembro que naquela hora resolvi escrever este post. O chão ficava cada vez mais seco e quando entrei em minha quadra parece que não tinha chovido nadinha ali. Começava no MP3 Luiz Gonzaga a cantar “já faz três noites que pro norte relampeia e a asa branca ouvindo o ronco do trovão...” (logo no começo da canção se fala em "norte" e "asa"). Eu pensei, “aqui na asa norte pode ter relampeado, mas não choveu nada”. Entrei em casa meio frustrado porque Monsieur Aznavour não cantara “Et Pourtant”. O show foi magnífico, mas nunca se está satisfeito e lembrei da piada do cara que tinha um cachorro que todo dia ia comprar carne para a casa e um dia o dono deu uma surra do animal porque o cachorro foi fazer compras e esquecera de levar a chave da porta. Obrigado pelo ótimo filé, Monsieur Aznavour, pardonnez-moi, je suis três content mesmo sem “Et Pourtant”.

Posted by César Miranda at abril 23, 2008 08:09 PM