setembro 27, 2007

LIVRO TAMBÉM É GENTE

Praticando a verdade que se conhece, merece-se a que se ignora

(A. D. Sertillanges, in “A Vida Intelectual”)


Quem gosta de livro é a traça, eu gosto é de conhecimento. A traça traça o livro. O traço traça a traça (o traço é o macho da traça). Os cupins comem livros de matemática e cagam regras. Não gosto de livros, eles dão hérnia de coluna e também ocorre neles com freqüência algum encontro internacional de ácaros. Essas coisas por onde nossos olhos passeiam, os livros, são o habitat favorito desses bichinhos fomentadores de doenças respiratórias, como a rinitzsche, ai minha santa bárbara! Livros têm orelhas que é aquele lugar que se você ler depois de ler o livro, você ri muito, pois, dizem, não há um livro que justifique a orelha. Tenho um amigo que não lê orelha de livro para não se decepcionar (ou se influenciar). Os adivinhos deveriam ler orelhas de pessoas como lêem as mãos. Santa bárbara... Mas somente os livros têm essa sorte de que lhe leiam as orelhas. Os livros até merecem respeito, pois livro também é gente. Não demora muito, pois, se gente é tratada como coisa, coisas se tornarão gente e os livros estão em primeiro lugar. Pelo que ouço falar, o livro é a panacéia. Livro cura arca caída, frieira, auto-estima baixa, tédio, hemorróidas, dor-de-corno, miopia, vista cansada, saudade, mau-humor, solidão, dor de cabeça, esquerdismo, ateísmo e caganeira. Livro também é gente, pois é vivo, ensina e aprende, nasce e morre (Ler um livro é dar-lhe vida). Livro chateia, livro agrada, livro é banido e é saudado, esquecido e lembrado. Livro melhora e piora. Livro empobrece, livro dá fama e fortuna. O livro é indefeso, precisa que o embalemos entre nossos dedos e apertemos seu dorso e o abramos para que ele fale conosco. Há livros grossos que não são arrogantes. Há livros pesados que têm muita leveza. Há livros finos, bonitos, feios, doces e amargos. Os livros têm corpo e alma. Livros vão pro céu e pro inferno. Livros têm signo, chakras, opinião, aura, íntimo, âmago, âmbito, tudo o que se pensar, livro tem. Claro que há diferenças entre gente e livro. Livro, por exemplo, nasce em árvores. Eu já escrevi livros, já plantei árvores, mas não tenho filhos. É que filhos não nascem em árvores. (Eu sei que vocês vão dizer “filho nasce em árvore sim: árvore genealógica”, no que eu responderei: “não senhor, filho nasce em árvore ginecológica”, mas estou falando de árvore mesmo, árvore vegetal). Um dia desses na aula, o professor explicava quais as profissões e em que situação se deve contribuir para a Previdência Social, então, uma colega, bem séria pergunta: “professor, e o índio?” “Ora, minha senhora, índio também é gente”, deveria ter respondido o professor. Não sei bem, o que ela quis dizer, pode ter sido como algo do tipo: se um índio montar um grande supermercado, ele deve recolher à Previdência Social e a todos os órgãos que oneram a folha de pagamento dos empresários comuns? Ou, se um índio tiver uma empregada doméstica, ele deverá pagar o INSS da moça? Tem gente que fica lavando os pratos enquanto Jesus está na sala tomando chá de cadeira. Jesus que, aliás, também era uma espécie de livro. Jesus era tudo o que Deus tinha a nos dizer. A vida sem rotina também é rotineira. Se você tem razão, muito cuidado para não perdê-la, pois só perde a razão quem a tem. Ganhar razão é mais difícil. As discussões do casal que se ama muito é esquisita, os dois brigam para demonstrar que o outro é quem tem razão, pois o amor é o reino da desrazão. O império do ilógico. O perdão é muito mais bonito do que a justiça. Esperar é sofrer. Nunca espere muito. Nunca espere pouco. Nunca espere. Não é o fim do mundo a solidão que lhe dão de presente e se só lhe dão solidão, agradeça por ela, pois assim como livro também é gente, solidão também é presente. Talvez ninguém esteja preparado para curtir sua eminente presença e se na iminência de sua presença, todo mundo se ausenta, entre para a comunidade do Orkut, “quando eu chego, todo mundo sai”. Ou faça um banho de manjericão, talvez você esteja com algum encosto, como certas cadeiras. Quem vai ao terreiro de macumba leva a demanda ao pai-de-santo e esperar o resultado, depois do despacho. Muito do que se fala no mundo corporativo foi tirado da linguagem do candomblé. Por exemplo, quando o pai-de-santo chama a secretária para um despacho, a coitada se pergunta se deve levar papel e lápis ou cachaça e galinha preta. Claro que eu nunca entrei em um terreiro de candomblé e essa ignorância me permite falar as maiores sandices a respeito do assunto e isso é divertido. Às vezes, é importante ser ignorante para ser engraçado (ignorante às vezes, honesto sempre), pois, às vezes, muito conhecimento impede a pessoa de ser engraçada, mesmo que a verdade, já disse isso, seja muito engraçada (quando o anjo disse que Maria era cheia de graça, essa Graça era o Cristo dentro dela, isto é, a própria Verdade é a Graça, mas não mudemos de assunto). A verdade vista pela ignorância honesta e ingênua é que é mais engraçada. Por exemplo, um dia desses uma amiga maravilhosa que eu tenho foi ao Paraguai. Puxa, como eu dei rata ao fazer um monte de observações maldosas sobre o país irmão e que é, realmente, muito ridicularizado por nós como se fosse aquele vizinho meio freak, que faz churrasco todo domingo com música dos anos 70 na maior altura tocada em sua radiola, pois ele só tem LPs. Minha amiga me mostrou o quanto eu estava equivocado sobre o Paraguai, pois ela era, digamos, sobrinha daquele vizinho e gosta muito dele, e alguns LPs daqueles foi ela quem o presenteou. E que se eu vencesse a ignorância e preconceito e fosse lá um dia, veria o quanto é inesquecível a picanha e o contrafilé que ele faz. Pois é. Meio que fiquei com vergonha dela, mas a agradeci muito pela lição e até prometi que irei ao Paraguay, assim que for a Paris, onde se secarão todas as garrafas. Essa é a verdade. A verdade arrebata, nos golpeia, nos espanta. A verdade se agiganta. A verdade não sugere, a verdade sempre certa, ligeira, nos prende a ela e, em seguida, nos liberta. A verdade é nossa estrada, a verdade nos conduz, é a lua na madrugada, a verdade nos invade, abre a porta, liga a luz e salva a humanidade. A Verdade é o Cristo Jesus. A liberdade é um apelido simpático para a insegurança e a solidão. Segurança é falta de liberdade. Liberdade e segurança não é um problema só do governo, liberdade e seguranças são coisas públicas e privadas ao mesmo tempo. Há ações públicas e ações privadas. Vaiar é uma ação pública. Cagar é uma ação privada. Não convém misturar as duas coisas, mesmo que, quando você vaia um político, está vaiando merda, mas podemos dizer também em tais casos, que eles é quem cagam, eles é quem misturam a coisa pública com a privada. É preciso tapar o nariz e ficar de olho nessas coisas, isto é, o homem público não tem vida privada e sua vida pública é também privada. Tapar o nariz e abrir os olhos. Quem tem olhos profundos gasta muito mais colírio. Quem não tem olhos, tem que ter muita imaginação. Quem não tem imaginação é meio cego. Cego é aquele que só vê a asa da graúna. O olho do cego só serve para guardar lágrimas, pois cego não vê, mas chora. Não é à toa que “graúna” é nome de choro. Um choro de João Pernambuco, gênio da música brasileira, que era o porteiro da escola Villa-Lobos de música no Rio de Janeiro. Quer chorar? Põe pra tocar Françoise Hardy cantando Chanson floue. E o índio? Será que índio também se apaixona como naqueles livros do José de Alencar? O certo é que os índios andam todos nus o tempo todo ou quase nus, isto é, as índias, quando estão se tornando mulher, sentem vergonha e se vestem um pouquinho. Quando a índia aparece vestida, todo mundo pensa “ih, essa menina tá querendo dar”. Eu me criei vendo índio no meio da rua. Eu me criei ouvindo Luiz Gonzaga e tocando violão. Ouvindo tiros de revólver, lendo a Bíblia, ouvindo rádio, ouvindo minha mãe cantar. Criei-me com A Vida de Jesus debaixo do braço. Ah, santa bárbara! (Alguém aí sabe o verdadeiro nome de Santa Bárbara? Desconfio que “bárbara” refere-se a sua origem, pois sua família era de bárbaros). Há livros demais. As pessoas não deveriam colocar mais livros no mundo. Deveríamos sim é cuidar dos que estão aí passando fome. Eu mesmo já abortei uns cinco ou seis livros. Quem vai a feiras, grandes sebos e megastores sabe do que falo. Dá pena ver tanto livro largado por aí, coitados. É irresponsável essa gente que põe tanto livro no mundo só para passar fome e no fim virar lixo. Quem reclama de mim quando falo dos livros que não escrevi, respondo que o autor tem direito ao próprio corpo e deve sim evitar um livro indesejado (e até os desejados). Direito ao próprio corpo é isso. Você vai a um lugar qualquer e bate papo com os amigos e, pimba, sai do encontro grávido de um romance. Uma semana depois aquilo já cresceu bastante em você. Claro que é traumático e a alma daquele livro-feto talvez lhe persiga para sempre, mas pode ser pior, ele pode nascer, destruir você e causar muitas mortes. Livros podem ser mortais. Além disso, com uma semana de gestação, o livrinho ainda não é nada, é só uma coisinha que nem enche uma colher de café e nem precisa ir à clínica nenhuma. Não seria má idéia que se inventasse remédio abortivo para idéias. Algo como a pílula do dia seguinte. O sujeito tem uma idéia para uma novela das oito ou para mais um roteiro de filme nacional, por exemplo, então vai ao médico, que se compadecendo do mundo, receita a pílula que curará o suposto autor, limpando qualquer vestígio de pensamento sobre a grande idéia que ele teve. Ou poderiam inventar o DIC (Dispositivo Intra Cerebral), que quando uma idéia de escrever livros se aproximasse da consciência do escritor, seria desviada e excretada instantaneamente em um espirro. Pessoas inteligentes não sairiam sem seu DIC (lembrei agora do cara que a garota disse para ele que usava DIU e ele começou a cantar no ouvido dela “DIU, como te amo”, ela morreu de rir e tiveram uma noite e tanto). Voltando ao DIC, não seria isso algo como lobotomia, de forma alguma. O escritor usaria tudo o que sabe e conhece para sua vida, mas jamais para escrever livros. As idéias que lhes ocorressem seriam todas para que ele as colocasse em prática e não que saísse por aí dando palestras, por exemplo. A quantidade de livro escrita já dá para abastecer o mundo de leitura por uns cinco séculos ou mais. Seria saudável para humanidade só recomeçar a produção de livros depois que lêssemos os que estão por aí abandonados. Depois desses 500 anos, as pessoas poderiam em pequena medida recomeçar à escrita, desta vez tendo um público muito mais exigente e, o escritor, por sua vez, seria alguém totalmente sem costume de escrever e só o faria quando o livro se impusesse. Só os livros necessários seriam escritos. Livro necessário é aquele que não só pede para nascer como chega a ser mais importante que toda a humanidade, como Cristo, que, não por coincidência, é chamado o Verbo Divino, como se Maria tivesse engravidado de um livro (é bom esclarecer isso, a Bíblia não é a palavra de Deus, a palavra de Deus é Cristo). E todo livro seria sagrado (“A fonte do saber não está nos livros, está na realidade e no pensamento” nos diz Sertillanges). Tradutores brasileiros traduzem “dawn” por aurora e “hill” por colina (quando deveria ser “morro”). Aurora e colina são palavras que ninguém usa no Brasil, exceto em alguma marchinha de carnaval de antigamente. “Dawn” é nome de mulher, em país de língua inglesa. “Aurora” também é nome de mulher por aqui. Mas se “dawn” não for nome de mulher, a tradução razoável seria “madrugada”, “amanhecer” ou qualquer coisa que um vendedor de picolé saiba o que é e não “aurora”. Tem também aquela tradução irritante de “teve lugar” no lugar de “aconteceu”. E traduzir “play a role” por “jogar um papel” no lugar de “desempenhar um papel” no meu mundo ideal daria cadeira elétrica. Acho que tradutores sacaneiam escritores, se esquecendo de que tradutor também é escritor. Eu acho o seguinte: opinião é coisa sem importância. Mas esta é só minha opinião. Isto resume as coisas suficientemente, pois quem acha vive se perdendo, já achava Noel Rosa desde o século passado, o século do progresso, onde o revólver teve acesso pra acabar com a valentia. O fato é que se vê muito poeta dando sua opinião sobre dados estatísticos. Esta é uma das razões da existência de imbecilidades como o sonho socialista: poetas sonhadores, indignados com as injustiças deste mundo, se deparam com dados estatísticos. Pronto, essa é a mistura cujo resultado é porcaria (não dê o resultado de uma pesquisa para um poeta interpretar, pois ele a interpretará de forma poética, quer dizer, irreal, fantasiosa, utópica). Já dizia Noel que qualquer economia acaba sempre em porcaria. Acho que falava do ato de economizar, mas hoje a frase ganhou abrangência e essa economia aí, já pode ser escrita com “E” maiúsculo. Pior é que o pobre poeta sequer dispõe de um economista de verdade para lhe esclarecer os tais dados estatísticos, pois o economista que ele vai procurar (quando vai) é outro poeta, que por falta de dom para escrever versos, entrou na faculdade de economia e também acredita que riqueza se faz tirando de quem tem e dando para quem não tem, como se um ato voluntário de bondade e caridade fosse um princípio da Economia e fosse essa a função do Estado. Mas a culpa de tudo isso é da internet onde todo mundo pode achar o que quiser, graças aos instrumentos de busca. Se você não achar nada sobre um assunto, o Google acha para você. Mas, o que o Google acha ou deixa de achar não tem nenhuma importância. Quem é o Google para achar alguma coisa? É apenas uma criança, nem espinhas na cara tem. Mas é um direito dele achar alguma coisa. Eis o problema do achar: todo mundo tem esse direito. É algo democrático. Quando algo é “democrático” não se deve esperar muita coisa ou simplesmente saber que não tem importância alguma. Sobre “achar”, tenho que falar do cientista ateu. Senhor cientista ateu, primeiramente, vá estudar Santo Tomás de Aquino para ter o direito de se dizer ateu. Você jamais verá um teólogo discordando de teorias sobre Física sem ter, esse teólogo, estudado com profundidade a Física (e se vir, se trata de um teólogo cretino, coisa perfeitamente possível de existir). O cético que nunca estudou Santo Tomás não é ateu, é ignorante. Toda luta por inclusão disso e daquilo é também luta pela desmoralização disso e daquilo, pois estar incluído em algo é ter algo a mais para “achar”. Veja o quanto é grave a questão. Somos e seremos sempre, que Deus nos ajude, governados por políticos. Político é um palpiteiro profissional em quem votamos, para que ele transforme seus palpites em normas para nossa conduta. Democracia é isto, ou isto é apenas um palpite meu (vamos parar com isso, tudo o que eu disse aqui, é o que eu acho e toda opinião que eu der aqui não tem nenhuma importância, mas é apenas uma opinião, o que significa que pode ser que tenha alguma importância, mas isso é só uma opinião, etc, etc, etc). Pois bem, falávamos dos políticos. Político é um tipo de animal que tem algum ressentimento e paixão por determinado tema. Isto é, o animal político é um adolescente. Um homem realmente adulto não se mete em política. O resultado disso é que as estatísticas serão lidas sempre por alguém meio poeta. Não me admira que o mundo da política produza tanto cocô. O que salva o mundo? Os adultos trabalhadores que honradamente trabalham para criar os filhos e que não acham nada, apenas sabem. Sabem que quem não trabalha não come. É isso: somos governados pelo achismo. Muita gente já veio brigar comigo porque eu escrevi na semana anterior uma coisa qualquer que eu achava. Então, explico pra pessoa que já não acho mais aquilo e que agora concordo com ela e que semana que vem posso deixar de concordar. Além disso, que relevância tem minha opinião? A pessoa costuma responder, que isso é apenas o que eu acho, pois ela acha que minha opinião tem sim muita importância e que eu deveria ser menos modesto, pois a opinião de uma pessoa é muito importante sim, é tudo o que ela tem, é o que faz com que ela exista, pois já nos disse o René que o pensamento é prova da existência da pessoa. E eu respondo “ah, isso era o que ele pensava, ele não sabia disso, ele achava”. Toda filosofia é apenas um eterno achar com algum embasamento, às vezes com nenhum. E há filosofias em vários níveis e nenhuma delas é a resposta para toda pergunta. Bem, acho que me perdi um pouco. Estava falando de minha conversa com o sujeito que acha que achar é importante e que eu acho que achar nüntäcünädä. Sei que devo estar errado, mas ouvi isso um dia e achei que a pessoa podia estar certa por achar que achar é algo relevante. Achar o contrário talvez isto sirva apenas para desqualificar Deus e o mundo ou nos chamar para uma vida mais criteriosa em que digamos “eu não sei” com mais freqüência. E diríamos tanto “eu não sei”, que, logo todos diriam apenas “ens”, que são as iniciais de “Eu Não Sei”. O problema é que sempre que alguém perguntasse “o que você acha disso” e você respondesse “eu não sei”, a pessoa responderia, “eu sei que você não sabe, quero saber o que você acha”. E você diria “eu não falo o que eu acho, só falo o que sei”. Talvez você respondesse “eu não sei o que acho, quando eu souber, eu falo”. E o outro: “quando souber o que acha ou quando souber, ponto?” E você: “quando eu souber, ponto!” E a outra pessoa: “eu não quero saber o que você sabe, quero saber o que você acha, por favor, não tire a poesia da nossa conversa, imagine se só falássemos do que sabemos e ninguém desse um mínimo pitaco sem importância em nada? Seria muito sem graça, você não acha?” E você: “eu não sei”. Tá difícil, não é? Quando Einstein falava sobre a velocidade da luz, não era apenas um achismo? Quando Demócrito falava de átomos, não era apenas a opinião dele? Talvez toda opinião tenha alguma semente. E quem acha nem sempre se acha. Apenas acha porque acabaria mudo se esperasse saber. E, apesar do que Noel dizia, só achando é que se encontra. Sigamos achando, achando, até que vejamos que estamos errados (ou não). Talvez o segredo para a opinião ter algum valor é exercitá-la e jamais se fechar no medo de estar errado. O dicionário, parece, foi feito pelos marxistas. Diz ali que eles, marxistas, são progressistas, como se alguma contribuição Marx tivesse dado para o progresso da humanidade. Já o reacionário, isto é, aquele que é contrário às idéias marxistas, é descrito pelo dicionário como antidemocrático, como se alguma democracia houvesse no comportamento dos seguidores de Marx sempre que chegaram ao poder. Marx que pregava como sendo o fim inevitável da humanidade a ditadura do proletariado é posto nos dicionários como guru daqueles que são favoráveis ao progresso da humanidade. Apesar dos dicionários, na prática o que se vê são governos reacionários em países democráticos e ditaduras marxistas. Na prática, o marxismo é o avesso da democracia e segue dando base a ditaduras eternas e o reacionarismo sempre ou convivendo com a democracia ou levando a ela, em ditaduras passageiras. Mas não é o que parece quando se lê o dicionário. “Conservador” é outro termo maltratado pelo dicionário. Segundo o Houaiss, conservador é a pessoa que defende o autoritarismo. Isto mesmo, está lá, só vendo mesmo para acreditar em uma coisa dessas. É como se Reagan fosse um ditador e Fidel Castro um democrata. Malditos tempos estes em que os dicionários são apenas ecos do que a malta ignorante repete. Parece-me óbvio dizer que conservador é “aquele que conserva”. Mas não é só isso, pois isso tornaria Fidel Castro um conservador do status quo cubano, o que é verdade, ele quer mesmo conservar sua política autoritária, mas isso não faz dele um conservador. Ele é um revolucionário e o será sempre. Por falar nisso, veja no dicionário como candidamente se diz o significado da palavra “revolucionário”. É de chorar de lindo. Na prática, sabemos que, revolucionário é apenas um jagunço com ideologia. Mas voltemos ao conservador. Esse sim é um termo por demais ignorado em sua essência e profundidade. Ao estudá-lo devidamente, mesmo alguns marxistas iriam concordar com seus pressupostos e quem sabe mudariam de lado. O conservadorismo é a ideologia contra toda ideologia. Assim, um conservador jamais queima a língua, pois não acredita em soluções humanas para todos os problemas humanos. E, uma vez que, desde que a humanidade existe, ela sempre teve problemas, o conservador pode sempre bater no peito e dizer: “eu não disse? Eu não disse?” O conservador acredita que, enquanto formos governados por políticos, isto aqui irá de mal a pior. Uma grande falha é que muitos consideram o conservador alguém avesso às transformações e à mudança. Nada mais falso. O conservador adere à mudança, desde que ela já tenha provado no tempo que era realmente fundamental, isto é, se a tal mudança for boa mesmo de serviço, ela se impõe e pronto. Isto é, a versão do software que o conservador usa não dá pau, pois ele não sai por aí comprando programas cujos bugs ainda não foram corrigidos só por serem novos. Um conservador pode, com isso, incluir a sua vida uma novidade por dia, mas não será o primeiro a fazer aquilo, ele quer que a novidade se imponha pela necessidade e jamais a quer apenas por ser novidade. É a prudência da mudança. Mudança sim, mas gradual e criteriosa. O passado jamais deve ser desprezado ou odiado. O fato é que o conservador gosta de viver em paz. Por isso defende o costume e a tradição, porque um costume só se cristaliza sob um clima de paz e sem a continuidade, as gerações se desconhecem. Dá para imaginar o povo judeu sem a tradição? Sem tradição é todo aquele povo que não existe. Tenho tradição, logo existo. Não tenho, ninguém me reconhece. Fé e razão não são opostos como muitos querem. Ora, se assim o fosse, falta de fé seria excesso de razão, mas tem muita gente por aí sem fé e sem razão ao mesmo tempo. A realidade, enquanto as duas brigam, assovia e olha para o teto. Se bem que tem muita gente também que vive fora da realidade. Geralmente quem vive sem fé nem razão, vive fora da realidade. Não é coincidência que aqueles que não têm fé tendem a duvidar também da realidade. É como se precisasse de fé para saber algo mais do que a própria existência. Por outro lado, essas pessoas que duvidam até da própria existência, sua “razão” é mais delirante que a razão do mais maluco dos doidos. Nessas pessoas, Deus é apenas mais uma vítima fatal de sua dúvida convicta. O que faz todo sentido, pois a realidade é a voz de Deus, então quem não acredita em Deus é apenas coerente em não acreditar em Sua voz. Compreender um mistério é uma contradição. Explicar um mistério é negá-lo. Acreditar na realidade não requer fé nem razão, basta ter um dos cinco sentidos, nem precisa ser gente. Porém, aqueles que não têm fé, automaticamente, pegam a própria razão e a utilizam para anular os cinco sentidos e ficam, graças ao delírio de sua razão, cegos-surdos-mudos, sem olfato e sem tato. Claro, que assim se acham geniais e acreditam que a eles ninguém engana. Claro, pois eles mesmos já trataram de aplicar em si mesmos doses suficiente de auto-enganação. São sem fé, sem razão e sem realidade. A razão serve bem como instrumento para as questões lógicas, mas a realidade, a voz de Deus, não é lógica nem científica nem matemática. A realidade apenas é e pronto. A fé tem sim relação estreita com a realidade, pois se baseia em fatos. Se Jesus fosse um assaltante e trapaceiro e ainda assim, depois de morto, ressuscitasse, ninguém acreditaria na promessa de Seu retorno. Os cristãos acreditam na volta de Cristo porque Ele se fez digno de confiança por meio de sua vida, morte e ressurreição (e age todo dia na vida do cristão). Então a fé se baseia em fatos. A razão, por outro lado é apenas um retrato bidimensional dos fatos. A razão é um poço de lacunas. Pela razão, você pode chegar aos fatos e pode chegar a lugar nenhum. Não é à toa que a ciência, castelo construído pela razão, viva em permanente alteração de conceitos, sendo a incerteza mesma um de seus pressupostos. Uma afirmação científica geralmente diz respeito aos limites do processo de medição dos fenômenos em determinada época (Ignorar é natural. O grave é ignorar que ignora). Quem não tem fé, repito, aniquila a própria razão, pois quem não tem fé é um ser desconfiado. Mesmo Cristo tendo nascido, vivido, morrido e ressuscitado como um Deus, ele não acreditam na Sua volta. Fé é questão também de boa-fé ou boa vontade. Para ter fé é preciso não ser um jumento. Deus não é para ser entendido. É para ser amado.(as mulheres também, por falar nisso). Eu não acredito em cientistas ateus. Ele não acredita em Deus e quer que eu acredite nele. Quem ele pensa que é? Deus?! Não é muito difícil que um sem-fé se julgue o próprio Deus, pois vive em um mundo muito particular e delirante, onde sua razão é suprema, mais do que a realidade. Se palavras ferem, o mudo é um homem desarmado. Se o olhar diz muito, o cego é um homem meio mudo. Dos três, o surdo é o mais afortunado, pois não ouve nem fala, porém vê e quem vê, ouve o que os olhos dizem. E, por nada falar, é também um homem desarmado. O cego tem a vantagem de não ter a realidade toda ela sobre seus ombros. O cego vive em um mundo virtual. Um mundo em que as coisas são vistas com mãos, ouvidos e olfato. Mundo em que a luz não ofusca, em que o fogo não ilumina (só queima), mundo em que a verdadeira escuridão são os móveis fora do lugar. Mundo em que cães, bengalas e a fé (em Deus e naquilo que lhe dizem os que enxergam) fazem o papel dos olhos. A imaginação é o olho do cego. O cego sem imaginação é um cego míope e precisa de óculos para falta de imaginação. O professor ensina apenas o que já existe, ele é, pois, um porta-voz do mesmismo. Todo professor é um criador de perpétuos repetidores de fórmulas. Só o autodidata inventa. Inventor não tem professor. Por que é chato cometer erros em público, é mais fácil inventar na solidão. A escola amedronta. Quem foi o orientador de Thomas Edson? Qual escola de inventores Santos Dummont freqüentava? A instituição e a obrigação de que se freqüente escolas é o assassinato do poder inventivo. Escola integral, então, meu Deus! Educação não é arroz. Quanto menos integral, melhor. Só o autodidatismo nos salvará. Sugiro que se acabe com qualquer escola em tempo integral e se comece a pensar na escola de meio período um dia sim outro não, de preferência terça e quinta (até a extinção), para que os meninos tenham tempo de exercer seu lado autodidata. Esse negócio de educação nos moldes de hoje é uma daquelas coisas que a modernidade faz parecer aos desavisados que sempre foi assim e que é coisa normal. Não é. Escola para criancinhas é uma das aberrações destes tempos. Os filhos sempre foram alfabetizados pelos pais (na idade média era pela mãe, na Grécia antiga era por algum escravo da família), depois decidiam em que gostariam de se aprofundar e, adultos, iam atrás. Eu era feliz na escola, nunca tive problema e fiz grandes amigos. Isto é, tirando as aulas, tudo era ótimo. Uma coisa que tenho que agradecer muitíssimo a minha mãe é que ela jamais se importou se eu tinha feito minhas tarefas ou não. Ela intuía que aquilo tudo não tinha a menor importância e que eu deveria apenas passar de ano e já tava bom e essa parte de dar conta das atividades escolares sempre foi comigo, o aluno. Tudo o que aprendi de relevante em minha idade escolar, aprendi com meus pais. Não consigo me lembrar de nada que tenha aprendido com professores. Se eu tivesse estudado em alguma dessas escolas que são objeto de promessas de políticos – a tal de freqüência integral – certamente eu seria muito mais bocó do que sou. Só o amor ensina e só o amor aprende. Um pai que podendo ficar com os filhos parte ou todo o dia os manda para a escola é um idiota e péssimo pai. Se eu tiver tempo, meus filhos freqüentarão o mínimo possível de escola e só por que isto é obrigado por lei. Não conheço casos de grandes homens que tenham sido educados em escola integral com professores estranhos. A escola integral fornecerá à sociedade uma quantidade mais que suficiente de maconheiros e vagabundos ou nerds deprimidos, pois são pessoas que foram amestradas mecanicamente e não educadas com amor, pois não se ama tanto assim os filhos alheios e muito menos os pais e mães dos outros. Prevejo que, indignados com o fracasso desse sistema, na geração seguinte haverá uma campanha para acabar com a escola integral e outra campanha pela escola em casa, coisa comum antigamente e atualmente também, em alguns países. Lugar de criança não é na escola. Lugar de criança é com a família. Lugar de qualquer pessoa é com quem a ame de verdade. As reclamações dos professores sobre a terrível vida que levam, de ganhar pouco e ter que agüentar crianças horrendas filhas alheias são muito justas. As reclamações dos pais de que os professores são despreparados são justas e dos alunos que não querem ir para a aula são também justas. Está todo mundo certo, o sistema é um fabuloso exemplo de um processo em que todos perdem. Porém, inexplicavelmente, todos acham que a escola (e mais, a escola em tempo integral) é uma maravilha, um exemplo a ser seguido. É triste este nosso tempo em que a teoria dissociada da realidade é o padrão (“o que acima de tudo nos interessa é o que é, e não o que o escritor diz” é o que nos diz Sertillanges). A escola institucionalizada deveria ser remédio e não alimento. E remédio se dá em doses estritas. Alimento é o amor. O escritor é o primeiro leitor de si mesmo e o leitor é o último escritor do livro lido, pois ler é escrever. Doido também tem razão. O leitor é a crítica personificada, pois maus leitores não costumam ler bons livros. Dá para saber se um livro presta perguntando quem o leu. Entre as linhas de um livro há outro livro escrito pelo leitor. O crítico literário é um gigolô das palavras alheias. Um livro é algo que alguém tem a nos dizer. O nosso improvável é o óbvio de Deus. Creio, porque é óbvio! Barulho é o grito da matéria ao levar um tapa. Matéria também é gente. As filosofias orientais quando chegam ao ocidente se ocidentalizam e se desorientam. Comprar um livro é uma das formas de jamais lê-lo. Nada é sério, exceto a graça. Os frutos do trabalho do pensador são de subsistência. O pensador não exporta. Hegel disse que ninguém aprende a nadar lendo um tratado de natação. Se você tem uma história para contar, mas lhe faltam palavras, faça um filme mudo. Escrever é pensar com os dedos. Escrever é descortinar a própria ignorância, pois, como diz minha mãe, o besta calado passa como sabido. As palavras envelhecem, o significado não, pois não existe espírito velho e a palavra é o corpo do significado. Só os corpos envelhecem. Palavras gritam e uivam são cheias de uis e ais. Alimentam-se e salivam, palavras são animais. Palavras se cheiram e trepam, matam-se e se seduzem, morrem de fome e prosperam. Palavras se reproduzem. Palavras comem e bebem. Palavras dão e recebem e correm atrás de carinho. E depois, cheia de dedos, revelando mil segredos, palavras choram baixinho.

Posted by César Miranda at setembro 27, 2007 09:36 PM