O rapaz ateniense perguntou a Sócrates se deveria casar ou não. Sócrates respondeu: “não importa o que você faça, vai se arrepender”. É mais ou menos este o resumo de toda ópera. Então o que fazer quando o arrependimento é certo? Ora, faça qualquer coisa, pois não fará a menor diferença mesmo, mas a vida é sua, então não me ouça. O certo é que quando o amor aparece, fazemos o que ele manda e o amor quando acontece, a gente esquece o que sofreu um dia, como diz a canção. E como diz outra canção, se não tivesse o amor, melhor era tudo se acabar. É a mesma coisa com Deus. Se não existisse Deus, melhor era tudo se acabar. Há coisas sem as quais não se admite a existência de mais nada. Jamais o homem viveu sem amor e sem Deus. O Deus dos pagãos era um Deus inventado. Um dia o verdadeiro Deus apareceu para Abraão, o filho de um pagão e mais tarde, o mesmo Deus nasceu do ventre de uma virgem. O amor que vivemos também não é O Amor, é o nosso amor. E o nosso amor, como diz a canção, a gente inventa. Inventa muito mal inventado e resulta no que Sócrates disse, não importa se você case ou não, você vai se arrepender. O objetivo das lâmpadas é atrapalhar a noite. Durante a noite acontecem coisas estranhas, bizarras, assombradas, inacreditáveis e até inadmissíveis. Vivemos na escuridão. Sorte de quem é cego, pois ignoram a escuridão. Quem enxerga apenas levanta as pálpebras e vê o breu e às vezes se faz de luz a fim de atrapalhar a noite. Meu professor de latim acredita que os anjos têm alguma coisa de material. Ele acha que tudo o que Deus fez tem algo de material, pois só Deus poderia ser espírito puro. Enorme maquete é apenas isto uma grande cidade. O verdadeiro cristão acredita que o perdão é mais justo que a vingança. Que o exemplo é mais convincente do que o argumento. Que o amor é mais forte que o mal e a corrupção. O amor de Deus jamais foi um amor verborrágico no sentido humano do termo. Jesus nos disse “sede santo como eu sou santo”. A santidade de Jesus não era um palavrório vazio e muito menos agressivo. Ele sempre foi “manso e humilde”. Uma Igreja de santos e mártires era assim a Igreja dos primeiros séculos. Quanto mais matavam cristãos, mais a Igreja crescia. A caridade deve ser a preocupação do cristão, o resto vem por acréscimo. Sem medo de amar, o cristão segue convicto de que as portas do inferno não prevalecerão sobre a Igreja de Cristo. No momento em que vivemos há a terrível perspectiva da guerra entre judeus e islâmicos que aponta mesmo, segundo profecias, para a terceira guerra mundial. Aquele entrave lá de judeus e islâmicos só teria remédio se eles fossem um pouco cristãos. Motivos para uma guerra de proporções mundiais já houve. Se algo na proporção do ataque ao World Trade Center a ao Pentágono fosse feito pelos EUA, é improvável que a resposta palestina fosse invadir algum país e promover eleições diretas. A democracia é uma dessas coisas que leva todo o jeitão cristão de ser. Até os “paradoxos do cristianismo” há na democracia, coisas como o maior dentre vós seja o menor e o menor ser aquele para quem o maior trabalha. Não é coincidência que jamais tenha havido guerra entre países democráticos. Quando um país democrático entre em guerra é sempre contra algum tipo de totalitarismo. O último olhar, o último gesto, o último riso, o último tudo, o último todo, o último nada, o último nado, o último medo, a última história, a última canção, o último fantasma, o último sonho, o último sabor, a última palavra, a última moda, o último assunto, o último gozo, a última dor, a última sombra, o último esquecimento, entre você e eu, do que ficou pra trás. E Deus disse ao anjinho, “não mexa nas estrelas”. O melhor do Brasil é o brasileiro. E o pior do Brasil também é o brasileiro, pois brasileiros é tudo o que temos. Ah, ouça o Renato Braz e seu CD “por toda a vida” (impressionantemente belo). Toda década tem seu “Código da Vinci”, um dia desses vi na livraria um de tempos atrás, “eram deuses os astronautas?”, virão outros, afinal otários sempre o tereis. Ele lá é Catulo da Paixão Cearense e eu cá, tolo da paixão paraense. Sobrar, soçobrar, soçobrei, sobrei. Minha jornada interior é externa. Meu interior é o mundo. Meu interior é o outro. Meu interior é tudo que não seja eu, nem a mim pertença. Meu interior é do lado de fora. É assim que me descubro, é assim que me conheço é só assim que sirvo para alguma coisa. Vai ter festa junina, não sei se pago para ir ou pago para não ir. Há muitos lugares que muita gente paga para ir, que outros pagariam, prazerosamente, para não ir. O sol emudece grilos, sapos e cigarras. A lua os releva. Dia de jogo do Brasil na copa do mundo de futebol é quase feriado. Há uma comunidade no Orkut fazendo lobby para que se torne de fato feriado todo dia de jogo da seleção em mundiais. Concordo. O interessante é que não se ouve ninguém dizer, como falam nos feriados religiosos: “mas o Estado não é laico?” O Estado é laico, não tem religião, assim como, por ser laico, não tem esporte favorito. Porém as pessoas têm esportes favoritos e professam um credo religioso. O Estado existe para não atrapalhar as pessoas de serem o que são. Um Estado laicista, que é contra a religião, o esporte e toda forma de vida, seria o sonho da gente insossa que nos rodeia. Em Brasília tem feriado do “dia do evangélico”. Criticaram muito o governador que sancionou essa lei, que nada mais é do que um reconhecimento do Estado de que os evangélicos existem e que o Estado respeita todos eles em sua crença. Os insípidos ficam realmente putos com qualquer sinal oficial de respeito a quem tem sangue nas veias. Esse respeito é a base do Estado laico. Toda privada deveria ter uma biblioteca pública. Toda biblioteca pública deveria ter pelo menos duas privadas. Em toda biblioteca pública deveria ter outra biblioteca dentro da privada. Quem sabe nadar também morre afogado. Eu vi você no meu espelho. Se você morrer, não se preocupe, os vivos cuidarão de tudo. Isto é, se morrer, fique quieto, não se mexa. A solidão é um veneno? Não! A solidão não é um veneno, pois não existe veneno, o que existe é dose. Uma dose adequada de solidão, na hora certa, pode ser um remédio. Veneno é a overdose de solidão. E vice-versa. Qual o antônimo de solidão? Fazer-te de meu mar. Desaguar-me em ti. O nadador que nada certo imita o tempo, pois nada como um dia após o outro, nada como viver, nada como uma boa conversa. Já o outro nadador nada errado, pois nada como uma noite de sono. Não ter amigos é uma ótima desculpa para o mutismo. Quem não tem amigos poderia (e até seria preferível) ser mudo, pois o amigo é nossa voz, já que o sentido da vida é mesmo partilhar, isto é, dar e receber. Quem tem muito para dar e não tem para quem dar preferiria ser estéril, quer dizer, não ter nada. Tenho aquele conto cuja idéia me vem sempre e que jamais escrevi. Seria a história do sujeito muito solitário, muito carente de carinho, que costuma forjar circunstâncias que o faça receber carinho. Então, ele costuma ir a pedicuros, onde o acariciarão suas mãos, tira a barba no barbeiro, que o acariciará o rosto, procura por fisioterapias que nem precisa tanto, tudo só para ter pessoas a sua volta que ele sinta que se importam com ele. Falta ao conto um alinhavo qualquer que o faça engraçado, por enquanto só tem elementos meio melancólicos, num é? Eu não quero disco, eu quero é a música que tem lá dentro. Não quero livros, quero a história deles. Antigamente o cara só casava se a namorada antes transasse com ele. Hoje o cara só namora se antes transar com a garota. Chamam-se a isso progresso. Um livro alado pousou em minha cabeça, voou mais um pouco como um satélite em torno de mim e pousou no meu ombro, fazendo meu olho, dentro de minha cabeça parada, acompanhar seu vôo. Preciso comprar mais veneno contra livros, eles não nos deixam em paz, voando em nossas cabeças, nos acordando de noite com o seu bater de páginas barulhentas. Que chato são os livros. Chatos, quadrados, pesados e caros. Porém, há seres estranhos que capturam livros, os colecionam como alguns fazem com as borboletas, aliás, livros e borboletas são muito parecidos, a diferença é que a borboleta é um inseto voador e o livro é um vegetal voador. (Deus diz no livro de Ezequiel "então todas as árvores dos campos saberão que sou eu, o Senhor"). Cristo quer que sejamos a luz do mundo. A luz não existe para si nem por si. A luz existe para que olhemos a estrada ou o quarto escuro onde vivemos. Com a luz acesa, você não erra a porta, mas nada impede que bata com a cabeça na parede. A luz é discreta. Ser luz pode parecer aviltante porque a função da luz é mostrar a verdade, não ser a verdade. A luz se apaga quando quer se comportar como estrada. Jesus é o caminho, nós somos a luz. Quem pergunta é mais esperto do que quem responde. Quem pergunta busca a verdade, foge de ilusões, pois a verdade o rói irresistivelmente e perguntar é apenas coçar a ferida deixada pela falta da verdade. Sábio mesmo era Sócrates que ensinava perguntando. Claro que Sócrates era absolutamente coerente pois perguntava porque, segundo ele, nada sabia. Cada pergunta de Sócrates deixava seus discípulos em êxtase. Depois de dezenas delas, saiam todos mais sábios dos encontros. Tudo começou quando ele perguntou a um grande admirador seu “será que vai chover hoje?”. O rapaz se sentiu abençoado por Sócrates lhe dirigir a palavra e considerou aquela pergunta mais boba o ó do borogodó e espalhou entre os conhecidos, “imaginem você o que Sócrates me perguntou, ele disse ‘será que vai chover hoje’?” “uau”, respondeu a turma, “que homem fantástico, que pergunta inteligente!” Com o tempo, provavelmente, o pobre Sócrates já não podia perguntar mais nada, que era saudado com um ooooh! “Como vai?” ele perguntava, o seu interlocutor pensava “‘como vai?’ ele perguntou, que maravilha de pergunta!” “Tudo bem com sua família?” perguntava o sábio a outro. O outro, com os olhos marejados, não se continha, “como vai minha família? Que pergunta genial, é um gênio esse Sócrates”. E pronto, tudo o Sócrates perguntava, por mais prosaico que fosse, se vestia de sua fama do sábio que ensina perguntando. Mas o ideal é um sábio que ensinasse calado. O difícil seria achar quem o ouça e um Platão que escrevesse seus diálogos mudos em trinta volumes de páginas em branco de pura sabedoria. Pronto.
Você conhece esse site?
http://www.site-berea.com/C/pt/index.html
Acho que pode te interessar;trata-se dos comentários de santo Agostinho ds Salmos e d Evangelho de São João.
Posted by: João Paulo at junho 25, 2006 10:05 PMMeu caro amigo:
Eu me deliciei com este último post e vi que (como na maioria dos últimos courrieurs) há mais um ou dois poemas escondidos no texto.
Prêmio para quem os achar: uma camiseta com uma legenda na frente:
"Sabe qual a diferença entre o livro e a borboleta?"
E nas costas:
- É a mesma entre um inseto voador um vegetal voador.
E por não estar atento à leitura da missa desse domingo perdi essa pérola (foi da missa de domingo, 18, não foi? Estou enrolado para conferir...)
Leitura do livro de Ezequiel:
- "Então todas as árvores dos campos saberão que sou eu, o Senhor".
Abraço,
Beto.
eu concordo com o seu professor de Latim, apesar da minha opinião só poder ser chamada de palpite: para existirem anjos, como seres separados de Deus, eles precisam ser um pouco materiais, ou tudo seria um único espírito; eu não sei nada sobre isso, mas acho que a escala do Espiritual até o Material vai de algo único, inteiro, até o que é completamente fragmentado; assim, as almas e os anjos devem ter algo de material para serem assim, variadas. se a alma humana, por exemplo, fosse puramente espiritual, deveria fundir-se com Deus após a morte, o que evidentemente não está no cristianismo. eu também acredito que no inferno sente-se dor verdadeira, mas um dia falei isso com um amigo e ele perguntou como é que se sente dor sem um corpo (excetuando a dor moral); então eu imaginei que a alma não poderia ser totalmente incorpórea.
Posted by: Luy at junho 18, 2006 07:32 PM"Com a luz acesa, você não erra a porta, mas nada impede que bata com a cabeça na parede"
Sem dúvida, César. Insistimos muitas vezes em bater a cabeça na parede, mesmo com a sala toda iluminada.
Posted by: Adelice at junho 18, 2006 04:24 PMDelícia, como as outras longas associações de idéias suas; mas você deve ter reparado que estou deixando passar as suas tiradas contra os livros. Humphf.
N. do E.: Claire, se você quiser, eu paro de bater nos livros:-)
Posted by: Claire at junho 18, 2006 04:03 PMIsso que vc falou sobre os judeus e muçulmanos foi interessante, pois sei que existem cristãos que, diante desse conflito, são tão pró-Israel que só faltam apoiar o extermínio de muçulmanos. Cristãos que gostam um pouco mais do Antigo Testamento do q do Novo. Não sei se isso é o correto, na verdade eu apoio a nação judaica - só não sou tão "Proud friend of Israel" assim.
Posted by: Thiago at junho 18, 2006 01:45 PM