junho 04, 2006

DA CRIAÇÃO DE CLIMAS

Os bancos deveriam ter filas para pessoas com pressa. Haveria fila para pessoas normais e outra para pessoas com pressa. “O senhor está com pressa?” “estou sim” “ah, a fila dos apressados é aquela ali” “obrigado”. E uma vez que a maioria das gentes anda sempre com pressa, a fila dos apressados seria sempre maior. Percebendo isto, alguns começariam a mentir e a dizer com a cara mais cínica “não, não estou com pressa não” e iriam correndo para a fila com pouca gente. Os bancos, inteligentemente, então fariam uma fila para mentirosos e devolveriam os falsos não apressados para sua fila de verdade. Então, o cliente de banco, inteligentemente, concluiria que seria atendido mais rapidamente se deixasse de ser apressado. A pressa tem sido padrão na vida moderna, como se fosse natural a pressa, mas não é. O homem deveria ser naturalmente baiano e defender a baianidade, que é coisa bonita. Devemos defender nossas raízes, como a preguiça, a mandioca e o inhame. Preciso de alguém para que me fabrique instantes. Quer saber de outro negócio? O sujeito compra quilos de alimentos e vai para a porta dos locais onde ocorre show cujo ingresso é “1 quilo de alimento não perecível” e vende arroz, feijão, macarrão, tudo a cinco reais o quilo. Lucra mais do que o supermercado. Parece que o lucro é mesmo a razão da vida de todo mundo. Todo mundo quer lucrar, inclusive muitos fiéis que levam uma santa vida e o fazem porque acreditam na vida eterna de gozos indizíveis, isto é, o sujeito está fazendo um negócio. Todo mundo quer lucrar, porém o lucro como finalidade exclusiva, raramente traz o lucro, isto é, o capitalista mais bem sucedido é justamente aquele que descobriu um modo genial de facilitar a vida das pessoas, que, agradecidos, pagam por isso. E pronto, o lucro é mera conseqüência. Com o passar do tempo, alguém inteligente percebe que o verdadeiro lucro – isto é, uma vida feliz – vem não da busca do lucro, mas do facilitar a vida das pessoas, pois disso decorre muito amor e o amor sim, é causa de muita felicidade, não há lucro maior que o amor. Ao facilitar a vida de alguém, na prática, o que você faz é amar. “Amai-vos uns aos outros”, disse Jesus. Ele poderia ter dito, “facilite a vida de quem está a seu lado, eis tudo”. Por isto não se deve perguntar “por que viver?”, mas sim “por quem viver?”, ótima lição que nos ensina o mestre André Frossard em seu “Deus em questões”. Então é isto, viva por alguém, pegue seu computador e saía por aí procurando de quem você pode facilitar a vida. No futuro as pessoas terão um micro permanente colado a si, será o novo apêndice. O bebê nasce e vai para o quarto ao lado onde instalarão um micro nele, pois sem micro ninguém é ninguém. Escrevi este poema a pedido de meu irmão, para ser publicado no preâmbulo de sua tese de doutorado, defendida recentemente com sucesso, ele é engenheiro civil e o poema, que tem por título “estaca” ficou assim: “Cava, que a curva cede. Carrega, que a carga se ergue. Funda, que a força nos mede. Prova, que o profundo é findo. Suporte, que o fuste resiste. Crava, que o limite é vindo. Continua, que a hélice gira. Experimenta, que há base. Ensaia, que a função suspira. Assim é a vida: hiperbólica. Com resíduos de tensão. O existir que nos persegue. Tem carga-limite e então... Eis que vem a salvação. E faz da vida, carga leve. Que se desloca e se ergue. E nos eleva do chão. Força que vem de Alguém. Cuja cruz nos libertou. Cruz estaca e estrutura. E permite à criatura contemplar o Criador”. Meu irmão gostou de minha estréia como poeta por encomenda. Quem quiser encomendar poesia, se você for meu irmão se doutorando, eis me aqui. A invenção do tradutor de gente seria um progresso. Traduz-me, aí, vai. Traduza-me para você. O que sou eu para você? Como você me vê é como eu vejo o quê, Hein? Diz qual é o equivalente a meus olhos quando você me vê. Como eu posso me ver exatamente como eu veria pelos seus olhos e gostos? Seria bom uma máquina assim. Não perderíamos tempo com ninguém. Quando você me visse e eu lhe passasse pelo o tradutor de mim, eu saberia que a vejo primeiramente como você me vê e assim, eu veria que não vês com os mesmo olhos que a vejo. É, seria um progresso. Quero ser conquistado pelo silêncio de alguém. Não me venha com barulho não. Nada mais quente que o silêncio. Nada mais eloqüente, não há nada mais que me convença. O silêncio me passeia, me estimular, me obriga a pensar, me seduz, puxa as idéias, pega no meu pé. Ah, que esse alguém silencioso seja mulher. Se não houver, ah, há, há sim. Há mulher silenciosa. Minha mãe diz que o besta calado passa como sabido. Ora então, uma mulher silenciosa é inteligente e gostosa, digo eu. Ah, mas deve sorrir. As tímidas são graciosas. Mas igualmente sedutoras são as extrovertidas que com um esforço imenso nos brindam com seu silêncio. Não há homem que não caia nas mãos e aos pés de uma falsa silenciosa, enquanto os dentes mostram enquanto a língua adormece. O fato é que tem gente que parece, só a língua é sadia. O polegar da mão esquerda entrou nos trastes do violão. Eis uma grande notícia. Eu vi, meninos, Marcus Tardelli faceiramente fazendo acordes com o polegar, mais de dois séculos após Bach fazer o mesmo com o teclado, que antes só era tocado com oito dedos. Com essa graça, Tardelli amplia magnificamente as possibilidades do instrumento e aguardemos partituras com essa digitação, nossos polegares farão novos calos. Tem aquela piada que termina assim “rapaz, tu não veio aqui pra caçar urso não, fala a verdade, teu negócio é outro”, há tempos não ria tanto. Se o Brasil não for hexa, a culpa será do Pedro Bial. Pela lógica da numerologia, vai dar Brasil, pela lógica da superstição, a Alemanha será a campeã. Pela lógica da lógica, será campeã a seleção que ganhar a final. Esperemos. Os horários dos jogos são terríveis. Não mereço jogo ao meio dia. Tenho recebido tanto cartões fajutos com vírus, que estou quase clicando no link do executável, só para ver se param de mandar. Se eu fosse vingativo, escarafuncharia a vida da mãe do Dan Brown e provaria por a + b que se trata de uma prostituta da pior espécie, mitômana contumaz e assassina parente de Jack, o estripador. Claro que seria apenas uma inocente obra de ficção e ele não deveria se sentir ofendido (esta última frase é irônica). Eu pensava em ver o filme, mas me disseram que é um filme, meia-boca, algo assim um seis e meio, então não vou. É bom deixar claro que eu não gosto de cinema nem de literatura. Eu gosto de filme bom e de livro ótimo. Então as chances de eu ler o livro de Brown é zero vírgula zero. Porém, ao filme, eu iria, se fosse um filme bom. Mas dizem que não é. Então, ótimo, assim meu pobre dinheirinho não irá para os bolsos desse senhor que tem o feio costume de inventar estórias fantasiosas com a mãe dos outros. Por falar em provar por a+b, não sei se já ouviram, há uma canção do Falcão em que ele diz “já está provado por a + b que a + b não prova nada”, o que resume toda a filosofia moderna desde Descartes, mas já falei isto, enfim, ouçam o disco que se chama “Do penico à bomba atômica”. Outra coisa, voltei a conviver com a dor física. É interessante isso porque nossa dor é o centro do universo. Minha mãe diz que é a pior espécie de doença essas que não cura nem mata o doente. Minha mãe é de uma região e de um tempo acostumados a doenças que matam. De repente, vive-se em tempo e região em que as doenças não curam nem matam, apenas maltratam. A medicina trabalha para isto, para manter os doentes vivos. Há quanto tempo não se ouve a notícia de que descobriram a cura da doença tal? Eu não lembro se já ouvi isto. O que se descobre sempre são remédios para paliar males. Tanto que atualmente é normal ver gente com mais de 100 anos. Isto é, a medicina tem conseguido prolongar a doença das pessoas. Uma medicina que cure, será pedir demais aos cientistas, esses homens de jaleco que vivem de mentir com o dinheiro das fundações, como diz o dorminhoco do Woody Allen? Mas meu caso não é o fim do mundo, são apenas hérnias na L3, L4 e L5, esse L é de lombar, a fisioterapeuta me disse que homem sempre tem problema nessa região, fiquei feliz, pois isto significa que eu sou homem. O chato é fazer ressonância magnética, coisa que já fiz umas cinco vezes e é bem chato, eles chegam até a colocar músicas do Renato Russo para o paciente ouvir, é realmente uma tortura. Em uma dessas ressonâncias eu fiz aquele conto curto que diz “impaciente, o paciente abandonou a doença”. É uma situação chata quando você está preso em um tubo, sem poder sair nem anotar nada e de repente tem uma boa idéia, nesses casos, geralmente eu persisto na idéia e tento lapidá-la até ficar como eu quero, evito o máximo que posso de não ter outra idéia, pois posso esquecer a primeira. (o conto curto que fiz desta vez foi o seguinte: “o meteorologista pediu demissão da tv e foi para a roça criar clima”, ainda não tem título, mas talvez seja “The Weather Man”). A copa vem aí e o Brasil tem a constrangedora situação de favorito (um desportista diria “franco favorito”, ainda vou estudar essa palavra “franco”, que é usada crebro – enriqueça seu vocabulário – em franco-atirador, olhar franco, General Franco, Moarcyr Franco etc, o franco favorito significa “o favorito sem nenhuma dúvida”, mas acabou virando um clichê, que é aquela coisa que a pessoa usa com convicção, mas sem saber do que fala exatamente). O Brasil é favorito, eu dizia, o que em futebol não significa muita coisa. A frase “que vença o melhor” não cabe ao futebol, pois geralmente nesse esporte ganha quem faz gol de mão. Vou torcer pelo Brasil, claro, só para ver como farão para os bancos funcionar em dias em que o jogo for ao meio-dia. Na prática, passei a maior parte de minha infância e juventude convivendo com seleção brasileira de futebol de perdedores, então já me acostumei. Por exemplo, em 82 eu tinha 15 anos. Aquilo lá não se faz com uma criança de 15 anos. Presenciei dois campeonatos mundiais em que a Argentina foi campeã. Pense em coisa chata. Todo ego é do mesmo tamanho, mesmo o ego dos argentinos. Querer destruir o ego (que seria o ideal) é mais um truque do ego. Isto é, quando você percebe que destruiu o próprio ego, aí fica todo cheio de si pelo que fez e eis seu ego mais vivo do que nunca. Então, o melhor modo de desinflar o ego é conviver com ele como ele é, apenas procurando não achar que o ego dos outros é maior que o seu. Não é não (é o seu enorme ego que o faz pensar assim). Até o dos argentinos é do mesmo tamanho. O fato é que o triunfo sobre o ego é também o triunfo do ego. No meu aniversário ouvi algumas vezes que eu estou ficando velho, ora todo mundo fica velho o tempo todo. Não conheço ninguém que fique novo. Ouvi que querem tirar os religiosos do conselho de bioética (ou algo parecido) como se existisse humanismo sem teologia. Desumanizar é justamente tirar o que há de divino no ser humano. Por isto humanismo ateu é uma contradição. Esse negócio de namorar à distância não dá certo. Conheço uma garota de São Paulo que, cansada da distância, terminou com o namorado de Salvador e agora namora um rapaz que mora no México. Um dia desses, eu disse pro meu sobrinho, que terminou a quarta série, que ele ia fazer o ginásio. Quase morrem de rir. O nome muda de pré para ensino fundamental, mas o ensino piorou. O ensino piora cada vez que mudam os nomes das séries. Com a internet tende a piorar ainda mais, pois o professor primário (cruzes!) e secundário (duas cruzes!) ganham mal e não têm internet em casa, mas os alunos têm. Na aula, os alunos são mais bem informados do que o professor. Os alunos estão atualizados, o professor está atrasado. No fim do ano, os alunos são os professores do professor, que é o único aluno da classe. Rir de si é importante, mas também é importante chorar de si. Quem não chora não mama e quem não chora não ri também. Ríamos e choremos de nós. Ah, e mamemos e amemos também. Essa história de que os opostos se atraem só vale mesmo para o sexo (quando vale). No restante é importante a semelhança, pelo menos morar na mesma cidade, é que os olhos acariciam mais do que as mãos. E o nariz? O nariz também é gente. Sem cheiro não há namoro. O mundo vai envelhecer assustadoramente na proporção em que for progredindo e quanto mais o bem-estar chegar a todos, mais velho o mundo ficará, pois um dos sinais de progresso é a esterilidade, induzida ou não, assim, sem crianças, só há velhos nos países ricos e quanto mais ricos, mais velhos há. País pobre é aquele em que ninguém fica velho. Assim, vem aí a tal revolução dos idosos, sobre a qual já tem até livro escrito. O que imagino são hordas de velhos e velhas com suas bengalas e óculos enormes tentando mudar as coisas que aí estão, tentando impor o fim do piercing, da música alta e, quem sabe, do zíper. Como naquela piada, “como terminou a guerra dos 100 anos?” “com um monte de velhinhos” se o mundo progredir mesmo terminará assim, com um monte de velhinhos. Serão milhares de vovôs sem nenhum netinho por perto. O tal planejamento familiar terá vencido, pois planejamento familiar sempre significou eliminar crianças. O sexo no futuro terá função apenas recreativa e evidentemente surgirão vozes rebeldes pregando seu uso para reprodução e serão acusadas de impor modismos. Nem os bichos farão sexo para procriação e como eles não o fazem com fins recreativos, não farão sexo algum. Reprodução sexuada será coisa de bichos da selva, mamões e maracujás. A noite é fria e o sereno cai com violência. O sereno não faz jus ao nome e não cai serenamente. Sereno violento é garoa. Chuva tranqüila é quase sereno. Garoa forte é chuva. Chuva forte é tempestade. Logo, sereno é tempestade tímida. Tempestade serena é chuva. Chuva serena é garoa. Garoa serena é sereno. Sereno sereno não faz mais que a obrigação. Por isto eu estranho o sereno violento e vou pro meu cativeiro, no meio dos cobertores, pois a escuridão é um remédio para a pele e para os olhos também, enfim, ver é ruim para a vista como viver é fatal. Vou ali.

Posted by César Miranda at junho 4, 2006 07:35 AM
Comments

Estou perplexo ainda. Adorei seu estilo.

Posted by: Ândi at junho 14, 2006 12:42 PM

Você é para mim um mergulho num rio claro, não tão profundo que mereça ser motivo para um livro de ficção científica que trata dos seres que existem no centro da terra, nem tão raso que possa virar um livro de auto-ajuda sobre as cadeiras e as rodas de alguém. É claro porque grita quando escreve, mas não respira. Se estivesse digitando um algoritmo, seria um encadeamento infindável de "ses", ainda que cada conseqüente se perdesse entre uma chuva e um irmão. É alguém que gosta de livros, mas sabe, diferente de mim, adjetivá-los. Gosta de filmes bons, eu gosto de qualquer filme. Pode ser uma bobagem de formigas gigantes assombrando o Charlton.Moisés.Helston numa Amazônia criada num estúdio hollywoodiano ou aquele filme que o cara faz Roleta Russa, o "franco"-atirador. Quase não há sereno onde moro, quanto mais um sereno violento, tão paradoxal quanto aquela regra lógica que usamos para provar situações absurdas. Negamos a conclusão e provamos sua falsidade numa busca matematicamente religiosa pela verdade. Adoro a Lógica... Volto a ser criança novamente quando começo a provar teoremas, passo a acreditar na simplicidade e, nesses momentos, quase esqueço que ver é ruim e viver é fatal. Vou “ali”. Espero que “ali” ainda tenha espaço.

ana.

Posted by: ana cândido at junho 4, 2006 06:00 PM

Cá entre eu, o Tardelli é tão melhor que os outros três, chega a dar pena...

Posted by: e at junho 4, 2006 03:30 PM
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