junho 10, 2006

A ÁGUA AMA AS PEDRAS. O GELO AMA O FOGO

“Brigue você, se quiser, eu fujo armado de amor”

Vi o filme espanhol “Crime Ferpeito” (sic), puro humor negro e muito bom. Em uma cena, o personagem principal descreve um ex-chefe que, segundo ele, se comportava como se fosse superior aos outros, era como se seu sangue fosse diferente do sangue dos demais. E era mesmo. Tinha leucemia. Humor negro é isto. Eu doei sangue um tempo atrás, quando morava em Goiânia. Achei maravilhoso e me senti um cidadão perfeito e um ótimo cristão. A cada 60 dias eu ia ao banco de sangue e deixava lá 450 ml do meu. Na segunda ou terceira vez, comecei a senti uns calores assim que se aproximava o dia da doação. Parece que o corpo se acostumara com aquela quantidade de sangue que eu tirava a cada sessenta dias, então resolvia produzir sozinho mais sangue e aquele excesso de sangue me fazia suar muito além do normal, suores que cessavam assim que eu doava o sangue. Daí me veio um insight ginecológico. As mulheres na menopausa costumam se queixar de calorões. Imagino que são calores parecidos com aqueles que eu, doador contumaz, sentia. Claro, pois as mulheres, como o doador de sangue, também perderam sangue em espaços regulares de tempo por, sei lá, 30 anos, por meio da menstruação. Eureka! O remédio para os calores da menopausa das mulheres é simplesmente elas doarem sangue. Ainda não encontrei uma mulher na menopausa que topasse testar minha tese. Ah, parei de doar sangue, pois aquilo vicia sim, os calorões eram isto, a síndromme de abstinência do corpo viciado em perder sangue. Claro que sempre que alguém precisava, eu ia lá e doava. Um dia desses aqui em Brasília, um amigo (e colega de trabalho) precisou de sangue. Felizmente apareceu tanta gente para doar, que o hospital até ligou para a empresa pedindo que não fosse mais ninguém lá. Pois bem, eu também quis doar e liguei lá para marcar, não, minto, liguei para tirar uma dúvida quando li a mensagem pedindo doadores que dizia que o doador não poderia ter estado em algum Estado da região norte nos últimos seis meses. Ora, eu vou àquela região duas vezes por ano e quis saber por que meu sangue é imprestável para doação. Disseram-me que algumas doenças típicas da região ficam incubadas até seis meses, que não aparecem nem em exames etc. Enfim, semana passada apareceu novamente outro pedido de doação de sangue para o parente de um colega com leucemia. Desta vez não havia a restrição de pessoas vindas do norte. Provavelmente pela gravidade da doença, pois tudo o que alguém com leucemia sonha é com uma bela febre amarela. Olha o humor negro aí, gente! Por falar em humor negro, tá todo mundo certo e tá todo mundo errado. Os bandidos estão certos e errados. O Estado está certo e errado. A classe-média também está certa e errada. Então vamos por partes, como diria a mãe do Dan Brown. Os bandidos estão certos em dizer que o Estado os trata ilegalmente e estão errados em tudo o mais (principalmente por matarem gente que relação alguma tem com o problema, coisa que o Estado também faz pelas mãos de policiais despreparados). O Estado está errado em manter prisões como essas aí, que simplesmente IMPEDEM que qualquer um se recupere. Então o Estado só pode esperar outra ação dos presos quando mantiver cárceres de verdade e não masmorras. No que diz respeito ao sistema prisional brasileiro, o Estado tem sido bandido daqueles da pior espécie. Então comecemos por aí. Lugar de bandido é na cadeia, junto com outros que cometeram crimes semelhantes em células que fiquem a quantidade para a qual foi projetada, não dez vezes isso. Lugar de bandido é trabalhando, não falando ao celular. Ah, e visita íntima não há nada demais, é preferível a um estuprar o outro. Os carcereiros deveriam trabalhar incógnitos, com máscara e deveriam trocar de prisões com freqüência, assim como a direção do presídio, principalmente nas prisões de segurança máxima. Outra boa idéia seria prisão subterrânea, queria ver falarem ao celular do segundo subsolo. O certo é que este não é o nosso lar e ninguém sai vivo daqui. Equivoca-se e perde seu tempo aquele que quer construir um lar nesta ilha onde naufragamos. Somos comandados por políticos e bandidos, que não são inimigos entre si e muitas vezes se confundem e quase sempre se financiam. Os bandidos pelo menos têm pedido para as pessoas saírem antes de queimar os ônibus. Políticos não se importam com tais detalhes. Os políticos bons são como os bandidos bons. É minoria quixotesca. Como diria aquele bandido, “eu sou um errado, mas sou um errado certo”, nós aqui de fora, de fora da bocada do poder e de fora das prisões, somos certos, mas uns certos errados. E nosso grande erro se chama “inocência”. Somos todos zédirceus (aquele que disse “eu sou inocêncio”). Somos inocêncios, acreditamos que esses lobos – falo dos políticos - sejam vegetarianos. Políticos são como médicos, que vivem da doença das pessoas. Em um mundo saudável, os médicos teriam baixíssimos salários. A questão é que se você estiver doente não tem outra pessoa a recorrer senão o médico. Da mesma forma, e esta é a maior calamidade da existência, não há como fugir, seremos sempre governados por políticos. Teremos sempre leis aprovadas por políticos. Resumo da ópera: danou-se! O máximo que se pode fazer é ignorar solenemente qualquer ação de político. É dar aos políticos a importância que eles têm, inclusive já falei demais deles. São cruéis porque só amam a si. Todo egoísmo é cruel. Embora nem toda crueldade seja egoísta. A água ama as pedras. A inocente crueldade infantil é o azar dos bichos. A crueldade proposital do amor é a sorte das crianças. Quando um peixe morre, onde o enterram? Depois que as cobras fazem amor, difícil é desatar os nós. Não havia parede, mas havia porta. Crianças são mais adultas e sábias do que adolescentes. A maturidade estupidifica ou será o cio? Como haveria a posse sem luxúria? Uma explicação só convence quando admite o inexplicável, pois nada se cria a si mesmo, sobretudo uma tese. A internet nos toma demasiado tempo. Se a internet não existisse, eu teria muito mais tempo para escrever no meu blog. Alguém livre de fragmentos de feiúra diz que não quer mais me ver e foi se embora dos meus sonhos (bonita não, o auge de tudo. Parece que não tem ossos de tanta fofura. Dez léguas de encantamento. Queria ficar olhando cinco horas sem parar. E me deixou pra todo resto da existência assim assim surdo e mudo. Inda são, não tive escudo. Vinda então, fiquei agudo. E agudo estou ainda. Linda não, o auge de tudo). Fez de mim pano de chão. Deu-me uma surra bem dada, de deixar costa marcada, de deixar alma penada. Desde então, de verdade, a única atividade de minha alma é o penar. Como a vela é de luzir e de queimar, como a água é de beber e afogar, de cozer e de lavar, como o peixe é de comer e de nadar, como a voz é de dizer e de cantar, como a luz é de acender e de brilhar, como o tempo é de perder e de passar, como a dor é de sofrer e aliviar, como o português de ser e de estar, como o remo é de remar, a minha alma é de sofrer e de penar. Nelson Rodrigues dizia que mulher bonita é infeliz e faz os outros infelizes. Falcão diz que Hebe acreditaria que mulher feia só serve para peidar em festa. Pois bem, fiquemos com o meio termo. Viva a beleza caminho do meio. O gelo nos permite andar sobre as águas. E o gelo se fez água e desceu ladeira abaixo. É a música que dá calor ao fogo, tristeza ao drama, gravidade à tragédia e pinta o rosto do palhaço. O que determina o gênero do filme é sua trilha sonora. O gelo ama o fogo. Quando esse pessoal acabar com as desigualdades, que argumentos usarão para que votemos neles? Dói, logo existe. Corno não gosta muito de galanteadores. Muitos acham que o bem deveria se institucionalizar. Criar o lobby do bem, uma associação do bem, uma ONG do bem, uma fundação do bem e finalmente, o ápice, um partido do bem. Não, não, não, não, não, não, não e não. É assim que mal nasce. Foi assim que PT nasceu. Desculpem o linguajar, mas lobby do bem é o caralho. Alguém do bem mesmo, nem passa pela cabeça resolver algum problema com políticos pelo meio. A ideologia é o modo diabólico de criar paraísos. E o paraíso de satanás é o inferno. Ah, conheçam Jessier Quirino, poeta de dar inveja, cantador de cegoaderaldíssimas virtudes, de qualidades zélimerentas, bom não, aquelas tuias. Não vejo nada demais nos adjetivos, já pronomes, sobretudo indefinidos, evito feito hemofílico as giletes. Quanto menos tenho, mais generoso fico. O sempre outro é sempre o mesmo. Vou fazer uma tese de mestrado sobre teses de doutorado, a tese de doutorado será sobre orientadores ridículos e a tese de pós-doutorado será sobre o quanto bancas de tese passam qualquer um. Esses discos de canções são pura e simplesmente audiobooks. Todo cego, que nada vê, deveria descrer de tudo. Porém, é raro um cego ateu. Simples, o cego tem criatividade, não se prende aos sentidos que têm e muito menos ao que não tem. Transcende-os. A pessoa não caga o que come. Caga é o que não deveria ter comido, é uma forma de o corpo dizer, “opa, isto aqui eu não quero, você tá maluco de comer uma bosta dessa, rapá!”. A matéria é apenas a superfície da realidade. Para ser ateu, descrente, agnóstico e desconfiado em geral que só acredita no que vê e apalpa, basta ser irresistivelmente atraído pela superficialidade. Thales já sabia disto. Por falar em Thales, os historiadores dizem que a filosofia nasceu no dia 25 de maio de 585 A.C., dia em que ocorreu o eclipse previsto por Thales. Isto é, a filosofia é filha de Thales com o eclipse. Nascendo dia 25 de maio, significa que a filosofia é de gêmeos. Belo signo. O nativo de gêmeos tem duas caras, gosta de ser admirado, é, por isto, um libertino. É isto mesmo que é a filosofia. Os historiadores acertaram na data. Para o cego, a escuridão é indiferente. A melhor coisa de Lawrence da Arábia é a visão de um camelo olhando o mar, para o quê não precisavam fazer um filme tão comprido, se o Peter O’toole (ou David Lean) tivesse humor appeal, seria uma ótima comédia, do branquelo que acha que é árabe. A lei do menor esforço é uma das bases da ação humana. Mesmo toda batalha objetiva a paz e a boa vida, todo trabalho objetiva as férias e aposentadoria, a fé tem por fim a eterna moleza. Isto é, a preguiça é quem comanda nossas ações. Estilo é apenas o que dita nossa preguiça. O que sempre fazemos? Esforçamo-nos o mínimo possível. Se nossos escravos realmente corressem riscos maiores, perigos de serem mortos etc, teriam inventado a capoeira para se defender? Capoeira é um gênero de dança e música com berimbau cujo refrão geralmente diz “vamo-nos embora camará”. Tese: será que não é invenção de antropólogo que a capoeira teria sido em seu nascedouro espécie de arte marcial? Para mim parece mais um proto-carnaval, ainda só com mestre-sala e porta-bandeira, um fazendo gracinhas em frente do outro, enquanto o restante bate palma e berimbau e cantam canções que diz “vamo-nos embora camará”. Todo mundo bom de pegar no cabo da enxada e ir roçar uma capoeira. Um dia desses, eu disse para uma amiga generosa, espirituosa, espiritual, exigente, bem-humorada, curiosa, sedenta de saber, ávida de sabedoria, bondosa, honesta e cativante e de alma aberta marchando rumo à grandeza que ela era tudo isso. Ela me disse que eu a surpreendera. Não se pode mais falar a verdade que as pessoas ficam surpreendidas. Seguirei dizendo a verdade, mesmo que isto encha de felicidades as pessoas que amo. Eu tenho pai, não tenho filho, tenho o Espírito Santo, que é quem une todos nós. O Espírito Santo é um fogo. Um fogo transforma em fogo tudo o que toca. Não importa o tamanho do mal, todo bem decorrente dele será maior. A última ceia de Cristo é a última missa em que você foi. O livro muda o mundo. Depois do livro certo, o mundo dobra de tamanho. O livro certo é o nascer de uma galáxia, o brotar de um universo. O livro certo, descobre o enorme olho de Deus com todos os astros e estrelas dentro dele. O livro certo nos torna imensos e diminutos ao mesmo tempo e para sempre. O livro certo é a primeira cafungada na nuca de quem amamos. O escritor é o diretor do livro. O livro é inútil como um beijo. O livro certo nos diferencia. Alguém diferente é acostumado a espantos. Para ele, é como se o mundo fosse feito de seres assustados, nervosos e observadores. Mas logo, ele vê que o mundo é feito mesmo é de seres superficiais. Preconceito é olhar a superfície. É normal, pois antes de cada mergulho, olhamos a superfície, ninguém vai fundo sem antes ter sentido o espelho da superfície. E só o alguém diferente sabe que é diferente apenas na superfície, pois do espelho para baixo e no mais fundo de nós, onde o Criador nos ver e nos cobra, somos todos parecidos, irmãos gêmeos, quase siameses. Quem se nega um segundo de vida, desiste da vida inteira. “Brigue você, se quiser, eu fujo armado de amor”, diz a canção bonitíssima do Egberto. Há todo tipo de caça e, em conseqüência, todo tipo de caçador. Há caçadores de paca, caçadores de tatu, até quem cace cotia, caçador de urubu, há caçadores de encrenca, e há o caçador de sarna, de trem, de piolho, de lêndea, de amigo, de namorada, há caçadores de tudo e até caçador de nada. Há caçador de inciso, caçador de sobreaviso, caçador de amendoim. Já eu, que não improviso, sou caçador de sorriso, faz favor de rir pra mim. O ponto final é senha para o esquecimento. Ponto final.

Posted by César Miranda at junho 10, 2006 07:38 PM
Comments

Eis-me aqui, meu caro amigo. Espantado!
Amitiés,
BetoQ.

Posted by: Zadig at junho 12, 2006 07:02 PM
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