junho 29, 2006

UM HOMEM ESFORÇADO (conto curto)

O homem se esforça em encontrar Deus. Deus, porém deve também “querer” ser achado. Se Deus não quiser, o pobre do buscador terá trabalhado em vão. E mais uma vez irá desesperadamente atrás do Criador, que mais uma vez se esconderá muito bem dele. O santo homem, então, no fim dos tempos, no julgamento final, será salvo, apesar de, ao dá-lhe a absolvição, pensará Deus com seus botões celestiais “esse chato de novo”. No paraíso, junto aos outros bem-aventurados, se gabará de ser o único ali que foi salvo por esforços próprios e não pela graça e amor de Deus, que, na verdade, foi vencido pelo cansaço. Neste momento o orgulho acomodou-se em su’alma e o leva inopinadamente para o inferno, para largar de ser mal agradecido.

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junho 23, 2006

O PIB DO MARANHÃO

As coisas estão aí para serem usadas. Use direito sua raiva. Use bem sua inveja. Capriche no uso de sua ira. Deus é supremo em tudo e, sobretudo na arte de transformar o mal em bem. Eu por exemplo, sinto uma inveja linda dos sanfoneiros. Devem ser as pessoas mais felizes do mundo. Os palhaços, acho que são tristes. Mas o sanfoneiro parece que vai voar quando sua cento e vinte baixos abre as asas e canta. Há tanto o que se aprender com o sanfoneiro, não sei bem o quê, mas que há, há. Vamos por partes, o “cada um por si” é o natural do ser humano. “Projetos coletivos” é que é algo estranho, é que é uma moda e as tentativas de levá-los ao extremo gerou Stalin, Mao Tse-Tung e Fidel Castro. Isto é, o neoliberalismo não inventou o “cada um por si”, apenas o neoliberalismo é o capitalismo após o comunismo, isto é, o capitalismo sem Deus, e aí, danou tudo. A grande vantagem do capitalismo sobre o comunismo não era o fato de que o capitalismo só sabe gerar riqueza e o comunismo só sabe gastar. A grande vantagem era que o capitalismo era cristão e o comunismo era ateu. O cristianismo é um verdadeiro achado, pois ali há um individualismo bom, isto é, o indivíduo é julgado pelo que fez de bem para os outros. Nesse intento, cada um por si, tentará salvar a própria alma usando as armas do amor ao próximo. Essa noção se some no marxismo, pois é uma ideologia atéia e, mata-se Deus e passa-se para o Estado a obrigação de fazer o bem, putz, não há idéia mais tosca. Como o comunismo não deu certo, o capitalismo declarou-se vitorioso e os países comunistas agora obrigam seus cidadãos a serem capitalistas, então surge um capitalismo esquisito, um capitalismo ateu, isto é, sem a melhor parte do que o capitalismo tinha. O capitalista inteligente (ou minimamente cristão) sabe que enriquecerá se inventar uma coisa qualquer que facilite a vida das pessoas. O caminho para a riqueza é este: facilitar a vida das pessoas. Porém, ninguém faz isto se não for recompensado. A ação humana é dirigida pela recompensa. Se a isto chamam individualismo, então individualismo não é nem defeito nem qualidade, é um fato e contra fatos não há argumentos (não se deve confundir “individualismo” com “egoísmo”, este sim, intrinsecamente mal). O grande erro dos projetos coletivos é esse de querer mudar a natureza humana, pois todas essas ideologias sanguinárias são filhas de Rousseau, que acreditava que “o homem nasce bom”. Não nasce não, o homem precisa da graça de Deus para ser bom. A “França da solidariedade” trata-se de um dos países mais estúpidos da história da humanidade, que desde a Revolução de 1789 vem dando espetáculos dantescos à humanidade. Há um livro chamado “A Fabrica de Desempregados”, em que a autora, uma francesa chamada Beatrice Majnoni D’Intignamo prevê o que ocorreria a França neste dias por causa desse monopólio da bondade que a sociedade deu ao Estado. Não é papel do Estado a administração do bem-estar de seu povo. Um texto do Le Monde reclama que a solidariedade está em frangalhos, claro que está, ninguém mais tem medo de ir pro inferno. A evolução do ser humano sozinho é o mesmo que sempre foi quando o homem virou as costas para Deus. O fato é que ou você serve a Deus ou ao mal, não há meio termo. Não há como ser bom, sem Deus ali lhe lembrando disso o tempo todo. Uma coisa interessante no texto do Le Monde é a frase “Não raro esses militantes da solidariedade se sentem decepcionados com a política, na qual eles não mais encontram o que procuram para satisfazer sua vontade de engajamento coletivo”. De fato, a tal da politicagem é o acento circunflexo da palavrinha cocô (como diz o poeta Jessier Quirino). Eis um dos grandes defeitos dos sábios de nosso tempo: a ingenuidade em acreditar que as ações políticas podem melhorar a vida das pessoas. Jamais melhoraram, não sei por que o fariam agora. De fato, se você tem uma idéia incrível para ajudar seu semelhante, você deve mesmo arregaçar as mangas e, com seu dinheiro, tocar tal projeto. Se você montar uma ONG e essa ONG começar a receber dinheiro do governo, você será o primeiro a torcer para que o tal problema se perpetue. Então esse tal “engajamento coletivo” muitas vezes é mero disfarce para assaltar os cofres públicos. Isto é, não acredito na bondade que quer se institucionalizar. Lobby do bem para mim é uma contradição em termos. Confunde-se muito “esquerda” com solidariedade (basta ver todos os políticos de esquerda quando estão no poder como agem, isto é, do mesmo jeito dos políticos de direita, isto é, o interesse de permanecer eternamente no poder). A solidariedade da esquerda é o famoso cumprimento com o chapéu alheio ou como diria o Lobão é o gozar com o pau dos outros. O tal “interesse geral” tem servido tão somente à demagogia de políticos de direita e esquerda, vem daí a necessidade de um estado pequeno. O fato é que foi por causa da economia de mercado que os países ricos enriqueceram. No fim do século XIX, o PIB do EUA era menor que o PIB do Maranhão. O caminho que os dois países tomaram, um com um choque de capitalismo e o outro com um choque de paternalismo é o que explica a situação dos dois atualmente. Devemos discutir sempre o papel do Estado, principalmente hoje no Brasil em que, parece, a sociedade tem optado mais uma vez por um Estado paternalista. Dias piores virão, principalmente porque os “pais” de plantão, é, na verdade, no dizer do Procurador Geral da República, uma quadrilha que se apropriou do Estado brasileiro. Que Deus nos ajude. O outro assunto é a questão do individualismo moderno que é mesmo fruto do cristianismo e do capitalismo, com ótimos resultados para quem o abraçou com amor, sinceridade e honestidade. Porém, não é crível um mundo de homens livres sem conflito. O conflito (e a guerra, seu mais terrível momento) é fruto do conflito de liberdades. O problema é que algum idiota culpou o capitalismo pela Segunda Guerra mundial e sugeriu que o Estado deveria intervir e cortar as asas do liberalismo econômico instalando-se as ordens de Lord Keynes que nos governará até o fim do mundo. Mas é óbvio que a tal mão invisível do mercado trará conflitos, pois certamente trará progresso, riqueza, dinheiro, muito dinheiro. Não é possível não existir conflito onde exista muito dinheiro. Pois onde há dinheiro há inveja. Os países que adotaram a economia de mercado ficaram ricos, tão ricos que em suas fronteiras não cabiam mais o dinheiro que tinham. Então os ricos daqueles países resolveram investir em outros países. Os países beneficiados com essa grana ficaram putos com isso e começaram a chamar os países ricos de imperialistas e exploradores etc. Enfim, é o que ocorre hoje entre a Petrobrás e o Evo Morales. Eu sendo rico não titubearia em simplesmente tirar meus investimentos de países mal agradecidos. Mas os anticapitalistas acham certo é que os países me tomem o dinheiro que eu investi em seus países. Putz. O certo é que se tem uma coisa que a mão invisível do mercado jamais garantirá é a harmonia entre os homens, pois há muitos males sociais que não têm nenhuma raiz social. Há diversos problemas sociais que sempre existirão e que não têm causa na luta de classes ou qualquer outro tipo de conflito social. Há diversos problemas sociais que não são causados pela pobreza ou pelo analfabetismo. Há diversos problemas sociais que não são causados pela exclusão, má distribuição de renda ou qualquer outro clichê do discurso socialista. Essas centenas de problemas de causas não sociais jamais serão resolvidos pelo Estado, quer dizer, por algum artifício de engenharia social. A política jamais será o remédio de todos os males sociais. A economia de mercado tem sido o remédio de alguns desses males. Abolir a economia de mercado é um remédio que vai matar o doente. E dar ao Estado a possibilidade e o direito de ser um agente mercantil é abolir a economia de mercado, pois a mão deixa de ser invisível e se torna a mão (ou as mãos) do burocrata de plantão e de sua quadrilha. É preciso que voltemos a nosso estágio humano de antes de sermos o animal político ou ainda, antes de sermos o animal cidadão titular de direitos e deveres. Antes disso, há que se perguntar que direitos são esses e que deveres são esses. Só após se estabelecer essa base é que poderemos decidir que tipo de Estado nós precisamos e queremos. Nessa base fixaremos nossa sociedade. É importante que nossa base seja fixa, senão caímos. Aí sim, sob essa base, todos nós seremos iguais, isto é, todos obedecerão aos pressupostos dessa base para que o corpo social não desabe. Então TUDO que diz respeito a uma sociedade deve começar desses pressupostos. Quem não obedece a tais pressupostos são degredados, mandados para a prisão para serem reformados, são enxotados das relações políticas até que provem merecer algum crédito. Não importa se são eficientes, talentosos, se são bonitos, inocentes, gente boa etc. O critério primeiro e eliminatório é O BEM. O que é O BEM no jogo político? É simples, são meras ações baseadas na ética. Então, se há um grupo que trabalha com cocaína e armas, isto é com produtos ilegais e destrutivos, mesmo que esse grupo seja bonzinho para a comunidade, dê segurança, saúde, casa, comida, roupa lavada, deve ser enxotado e digno de repúdio à priori, por todos. Pois, não atenderam ao primeiro pressuposto. Há um grupo no poder que dá bolsa-escola, vale-gás, bolsa-família, casa, comida e roupa lavada para todos os habitantes da nação, mas se esse grupo é uma quadrilha que compra políticos, que tem relações obscuras com regimes autoritários, se vive mergulhado na lama de escândalos, assassinatos, coerção de testemunhas, fortes suspeitas de terem sido eleitos com dinheiro de traficantes dos quais são irmãos ideológicos, esse grupo deve ser repelido e visto pelo povo com desprezo, do contrário significa que vivemos em uma sociedade de cegos ou pior (muito pior), que vivemos em uma sociedade que elegeu uma base podre para se fixar. A coisa mais importante para se fazer uma casa são os alicerces. Não adianta você ter um excelente material de acabamento, sem o alicerce, você pode dispensar todo o resto, pois você não é doido de adquirir ótimos azulejos, excelente esquadrias, caríssimas pias e jogar tudo sobre um alicerce de areia movediça. É isto que tem acontecido neste nosso pobre país. A primeira coisa a fazer seria retirar os atuais engenheiros que nos trazem tal proposta de tentar construir um país sobre a areia movediça. Mandá-los para o limbo com suas carradas de lindos azulejos, belos tijolos e magníficas tintas, enquanto insistirem em usar a areia movediça, o lamaçal e o lodo como base de nosso país. Mas não, o povo, assim como admira e chora a morte dos traficantes de cocaína, se prepara animadamente para reeleger os enlameados que lhes dá duas mariolas todo mês e só por isto, que importa se a mariola vem suja de lama?! Jesus perguntou a um cego de Jericó “que queres que eu te faça?”. O cego respondeu “Senhor, que eu veja”. Deveríamos pedir isto a Deus, que vejamos. Ouvindo os hinos nacionais no começo das partidas da copa do mundo de futebol constatamos o quanto são bélicos todos eles. Ridículos de tão bélicos do tipo, prendemos e arrebentamos, quem nos invadir nadará no próprio sangue, nós é nós o resto é o resto. Chega a ser engraçado ouvir, sei lá, Togo ou a Costa do Marfim arrotando tal valentia. Esses hinos são apropriados para as crianças cantarem, pois aquelas que entendem a letra (coisa rara, só muito recentemente vim a entender parte do nosso hino) podem realmente concordar com aquilo. Bertrand Russell diz que quando era criança acreditava que um inglês com um só braço batia em dois alemães. Os hinos devem ter sido feitos todo na era do militarismo das nações. Se esperassem um pouco mais, pela era do comércio, teríamos hinos falando em superávits primários e câmbios flutuantes. No nosso, cantaríamos, “verás que um filho teu não deixa de aplicar na poupança”. Poderia ser pior, poderiam fazer hinos da era social onde se falaria de ONGs, igualdade social e cantaríamos “verás que um filho teu vota no Lula”. Quando mais construirmos cemitérios, mais os urubus passarão fome, pois o preço da carniça está pela hora da morte. Ah, esta é a página mais importante da internet. É a mais preciosa. Coloque nos seus favoritos e todo dia leia um pouco até o fim. Antigamente só Deus e as lombrigas conheciam a pessoa por dentro, mas depois se inventou a endoscopia e só a pessoa mesmo, o próprio dono do ser é que não se conhece por dentro. O tarado e o casto têm muito em comum. Cícero dizia que o amor é o desejo de alcançar a amizade de uma pessoa que nos atrai pela beleza. Poder-se-ia dizer da amizade que ela é o desejo de alcançar o amor de uma pessoa que nos atrai pela simpatia. Um de meus desafios é dizer coisas desagradáveis sem ser chato. Briga de galo é crime, mas abortos querem liberar. Deus é um juiz que torce pelo réu. Um juiz cujo réu é seu filho. Um ateu é apenas um filho de Deus com baixa auto-estima. A Erudição é apenas um instrumento. Você pode usá-la para qualquer coisa. Vou exigir auxílio-funeral porque eu estou morrendo de trabalhar. Tchau, gente.

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junho 18, 2006

SOÇOBRAR (SÓCRATES)

O rapaz ateniense perguntou a Sócrates se deveria casar ou não. Sócrates respondeu: “não importa o que você faça, vai se arrepender”. É mais ou menos este o resumo de toda ópera. Então o que fazer quando o arrependimento é certo? Ora, faça qualquer coisa, pois não fará a menor diferença mesmo, mas a vida é sua, então não me ouça. O certo é que quando o amor aparece, fazemos o que ele manda e o amor quando acontece, a gente esquece o que sofreu um dia, como diz a canção. E como diz outra canção, se não tivesse o amor, melhor era tudo se acabar. É a mesma coisa com Deus. Se não existisse Deus, melhor era tudo se acabar. Há coisas sem as quais não se admite a existência de mais nada. Jamais o homem viveu sem amor e sem Deus. O Deus dos pagãos era um Deus inventado. Um dia o verdadeiro Deus apareceu para Abraão, o filho de um pagão e mais tarde, o mesmo Deus nasceu do ventre de uma virgem. O amor que vivemos também não é O Amor, é o nosso amor. E o nosso amor, como diz a canção, a gente inventa. Inventa muito mal inventado e resulta no que Sócrates disse, não importa se você case ou não, você vai se arrepender. O objetivo das lâmpadas é atrapalhar a noite. Durante a noite acontecem coisas estranhas, bizarras, assombradas, inacreditáveis e até inadmissíveis. Vivemos na escuridão. Sorte de quem é cego, pois ignoram a escuridão. Quem enxerga apenas levanta as pálpebras e vê o breu e às vezes se faz de luz a fim de atrapalhar a noite. Meu professor de latim acredita que os anjos têm alguma coisa de material. Ele acha que tudo o que Deus fez tem algo de material, pois só Deus poderia ser espírito puro. Enorme maquete é apenas isto uma grande cidade. O verdadeiro cristão acredita que o perdão é mais justo que a vingança. Que o exemplo é mais convincente do que o argumento. Que o amor é mais forte que o mal e a corrupção. O amor de Deus jamais foi um amor verborrágico no sentido humano do termo. Jesus nos disse “sede santo como eu sou santo”. A santidade de Jesus não era um palavrório vazio e muito menos agressivo. Ele sempre foi “manso e humilde”. Uma Igreja de santos e mártires era assim a Igreja dos primeiros séculos. Quanto mais matavam cristãos, mais a Igreja crescia. A caridade deve ser a preocupação do cristão, o resto vem por acréscimo. Sem medo de amar, o cristão segue convicto de que as portas do inferno não prevalecerão sobre a Igreja de Cristo. No momento em que vivemos há a terrível perspectiva da guerra entre judeus e islâmicos que aponta mesmo, segundo profecias, para a terceira guerra mundial. Aquele entrave lá de judeus e islâmicos só teria remédio se eles fossem um pouco cristãos. Motivos para uma guerra de proporções mundiais já houve. Se algo na proporção do ataque ao World Trade Center a ao Pentágono fosse feito pelos EUA, é improvável que a resposta palestina fosse invadir algum país e promover eleições diretas. A democracia é uma dessas coisas que leva todo o jeitão cristão de ser. Até os “paradoxos do cristianismo” há na democracia, coisas como o maior dentre vós seja o menor e o menor ser aquele para quem o maior trabalha. Não é coincidência que jamais tenha havido guerra entre países democráticos. Quando um país democrático entre em guerra é sempre contra algum tipo de totalitarismo. O último olhar, o último gesto, o último riso, o último tudo, o último todo, o último nada, o último nado, o último medo, a última história, a última canção, o último fantasma, o último sonho, o último sabor, a última palavra, a última moda, o último assunto, o último gozo, a última dor, a última sombra, o último esquecimento, entre você e eu, do que ficou pra trás. E Deus disse ao anjinho, “não mexa nas estrelas”. O melhor do Brasil é o brasileiro. E o pior do Brasil também é o brasileiro, pois brasileiros é tudo o que temos. Ah, ouça o Renato Braz e seu CD “por toda a vida” (impressionantemente belo). Toda década tem seu “Código da Vinci”, um dia desses vi na livraria um de tempos atrás, “eram deuses os astronautas?”, virão outros, afinal otários sempre o tereis. Ele lá é Catulo da Paixão Cearense e eu cá, tolo da paixão paraense. Sobrar, soçobrar, soçobrei, sobrei. Minha jornada interior é externa. Meu interior é o mundo. Meu interior é o outro. Meu interior é tudo que não seja eu, nem a mim pertença. Meu interior é do lado de fora. É assim que me descubro, é assim que me conheço é só assim que sirvo para alguma coisa. Vai ter festa junina, não sei se pago para ir ou pago para não ir. Há muitos lugares que muita gente paga para ir, que outros pagariam, prazerosamente, para não ir. O sol emudece grilos, sapos e cigarras. A lua os releva. Dia de jogo do Brasil na copa do mundo de futebol é quase feriado. Há uma comunidade no Orkut fazendo lobby para que se torne de fato feriado todo dia de jogo da seleção em mundiais. Concordo. O interessante é que não se ouve ninguém dizer, como falam nos feriados religiosos: “mas o Estado não é laico?” O Estado é laico, não tem religião, assim como, por ser laico, não tem esporte favorito. Porém as pessoas têm esportes favoritos e professam um credo religioso. O Estado existe para não atrapalhar as pessoas de serem o que são. Um Estado laicista, que é contra a religião, o esporte e toda forma de vida, seria o sonho da gente insossa que nos rodeia. Em Brasília tem feriado do “dia do evangélico”. Criticaram muito o governador que sancionou essa lei, que nada mais é do que um reconhecimento do Estado de que os evangélicos existem e que o Estado respeita todos eles em sua crença. Os insípidos ficam realmente putos com qualquer sinal oficial de respeito a quem tem sangue nas veias. Esse respeito é a base do Estado laico. Toda privada deveria ter uma biblioteca pública. Toda biblioteca pública deveria ter pelo menos duas privadas. Em toda biblioteca pública deveria ter outra biblioteca dentro da privada. Quem sabe nadar também morre afogado. Eu vi você no meu espelho. Se você morrer, não se preocupe, os vivos cuidarão de tudo. Isto é, se morrer, fique quieto, não se mexa. A solidão é um veneno? Não! A solidão não é um veneno, pois não existe veneno, o que existe é dose. Uma dose adequada de solidão, na hora certa, pode ser um remédio. Veneno é a overdose de solidão. E vice-versa. Qual o antônimo de solidão? Fazer-te de meu mar. Desaguar-me em ti. O nadador que nada certo imita o tempo, pois nada como um dia após o outro, nada como viver, nada como uma boa conversa. Já o outro nadador nada errado, pois nada como uma noite de sono. Não ter amigos é uma ótima desculpa para o mutismo. Quem não tem amigos poderia (e até seria preferível) ser mudo, pois o amigo é nossa voz, já que o sentido da vida é mesmo partilhar, isto é, dar e receber. Quem tem muito para dar e não tem para quem dar preferiria ser estéril, quer dizer, não ter nada. Tenho aquele conto cuja idéia me vem sempre e que jamais escrevi. Seria a história do sujeito muito solitário, muito carente de carinho, que costuma forjar circunstâncias que o faça receber carinho. Então, ele costuma ir a pedicuros, onde o acariciarão suas mãos, tira a barba no barbeiro, que o acariciará o rosto, procura por fisioterapias que nem precisa tanto, tudo só para ter pessoas a sua volta que ele sinta que se importam com ele. Falta ao conto um alinhavo qualquer que o faça engraçado, por enquanto só tem elementos meio melancólicos, num é? Eu não quero disco, eu quero é a música que tem lá dentro. Não quero livros, quero a história deles. Antigamente o cara só casava se a namorada antes transasse com ele. Hoje o cara só namora se antes transar com a garota. Chamam-se a isso progresso. Um livro alado pousou em minha cabeça, voou mais um pouco como um satélite em torno de mim e pousou no meu ombro, fazendo meu olho, dentro de minha cabeça parada, acompanhar seu vôo. Preciso comprar mais veneno contra livros, eles não nos deixam em paz, voando em nossas cabeças, nos acordando de noite com o seu bater de páginas barulhentas. Que chato são os livros. Chatos, quadrados, pesados e caros. Porém, há seres estranhos que capturam livros, os colecionam como alguns fazem com as borboletas, aliás, livros e borboletas são muito parecidos, a diferença é que a borboleta é um inseto voador e o livro é um vegetal voador. (Deus diz no livro de Ezequiel "então todas as árvores dos campos saberão que sou eu, o Senhor"). Cristo quer que sejamos a luz do mundo. A luz não existe para si nem por si. A luz existe para que olhemos a estrada ou o quarto escuro onde vivemos. Com a luz acesa, você não erra a porta, mas nada impede que bata com a cabeça na parede. A luz é discreta. Ser luz pode parecer aviltante porque a função da luz é mostrar a verdade, não ser a verdade. A luz se apaga quando quer se comportar como estrada. Jesus é o caminho, nós somos a luz. Quem pergunta é mais esperto do que quem responde. Quem pergunta busca a verdade, foge de ilusões, pois a verdade o rói irresistivelmente e perguntar é apenas coçar a ferida deixada pela falta da verdade. Sábio mesmo era Sócrates que ensinava perguntando. Claro que Sócrates era absolutamente coerente pois perguntava porque, segundo ele, nada sabia. Cada pergunta de Sócrates deixava seus discípulos em êxtase. Depois de dezenas delas, saiam todos mais sábios dos encontros. Tudo começou quando ele perguntou a um grande admirador seu “será que vai chover hoje?”. O rapaz se sentiu abençoado por Sócrates lhe dirigir a palavra e considerou aquela pergunta mais boba o ó do borogodó e espalhou entre os conhecidos, “imaginem você o que Sócrates me perguntou, ele disse ‘será que vai chover hoje’?” “uau”, respondeu a turma, “que homem fantástico, que pergunta inteligente!” Com o tempo, provavelmente, o pobre Sócrates já não podia perguntar mais nada, que era saudado com um ooooh! “Como vai?” ele perguntava, o seu interlocutor pensava “‘como vai?’ ele perguntou, que maravilha de pergunta!” “Tudo bem com sua família?” perguntava o sábio a outro. O outro, com os olhos marejados, não se continha, “como vai minha família? Que pergunta genial, é um gênio esse Sócrates”. E pronto, tudo o Sócrates perguntava, por mais prosaico que fosse, se vestia de sua fama do sábio que ensina perguntando. Mas o ideal é um sábio que ensinasse calado. O difícil seria achar quem o ouça e um Platão que escrevesse seus diálogos mudos em trinta volumes de páginas em branco de pura sabedoria. Pronto.

Posted by César Miranda at 11:36 AM | Comments (6)

junho 17, 2006

O JULGAMENTO DA IDOLATRIA

As criaturas testemunham o Criador
1 São naturalmente insensatos todos os homens que ignoram a Deus e que, através dos bens visíveis, não chegam a reconhecer Aquele que existe. Consideram as obras, mas não reconhecem o seu Artífice. 2 E acabam considerando, como deuses e governadores do mundo, o fogo, ou o vento, ou a brisa fugaz, ou o firmamento estrelado, ou a água impetuosa, ou ainda os luzeiros do céu. 3 Se ficam fascinados com a beleza dessas coisas, a ponto de tomá-las como deuses, reconheçam o quanto está acima delas o Senhor, pois foi o autor da beleza quem as criou. 4 Se ficam maravilhados com o poder e atividade dessas coisas, pensem então quanto mais poderoso é Aquele que as formou. 5 Sim, porque a grandeza e a beleza das criaturas fazem, por comparação, contemplar o Autor delas. 6 Esses, porém, merecem repreensão menor, porque talvez se tenham extraviado procurando a Deus e querendo encontrá-lo. 7 Vivendo no meio das obras dele, procuram pesquisá-las, e a aparência delas os fascina, tanta é a beleza do que se vê. 8 Contudo, mesmo esses não têm desculpa, 9 porque, se foram capazes de conhecer tanto, a ponto de pesquisar o universo, como não encontraram mais depressa o Senhor do universo?
Inutilidade dos ídolos
10 Infelizes também são aqueles que depositam sua esperança em coisas mortas, e que invocam como deuses as obras de mãos humanas: coisas de ouro e prata, trabalhadas com arte, figuras de animais, ou uma pedra sem valor, obra de mão antiga. 11 Um carpinteiro, por exemplo, serra uma árvore fácil de manejar. Depois lhe tira cuidadosamente toda a casca, trabalha a madeira com habilidade e fabrica um móvel, útil para as necessidades da vida. 12 Terminado o trabalho, ele recolhe as sobras da madeira, as emprega para preparar a comida, e se farta. 13 Da sobra de tudo, que não serve para nada, madeira retorcida e cheia de nós, ele a pega e a esculpe nos momentos de lazer. Para se distrair, modela a madeira com capricho, e lhe dá o formato de um homem, 14 ou então a forma de algum animal desprezível. Depois pinta o ídolo de vermelho e cobre de massa todos os seus defeitos. 15 A seguir, prepara-lhe um nicho digno dele, e o coloca na parede, prendendo-o com um prego. 16 Toma esses cuidados para que não caia, sabendo que o ídolo não pode cuidar de si mesmo: é apenas uma imagem, e precisa de ajuda. 17 Entretanto, logo em seguida lhe dirige orações por seus bens, casamento e filhos, sem se envergonhar de ficar falando com uma coisa sem vida. Para a saúde, invoca o que é frágil. 18 Para a vida, faz súplicas àquilo que é morto. Para um auxílio, pede ajuda àquilo que não tem experiência. Para uma viagem, dirige-se a quem não pode dar um passo. 19 Para seus negócios, trabalhos e sucesso nos empreendimentos, pede forças a quem não tem força nenhuma nas mãos.

Livro da Sabedoria, Capítulo 13

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junho 15, 2006

SANTAS CIRCUNSTÂNCIAS (conto curto)

Um santo nasceu, viveu e morreu em ambientes santos. Morto, foi santificado e foi morar no céu. No paraíso, batia um papo com Santo Agostinho que lhe contava a vida de devassidão que teve no começo da vida e nesse momento ao santo, que nascera, vivera e morrera em ambientes santos, ocorreu que jamais fora tentado de nenhuma maneira e que mesmo um devasso vivendo naquelas circunstâncias em que ele viveu, é provável que também se tornasse um santo. Lá naqueles ambientes santos, seu trabalho de toda sua vida foi cuidar de velhos e doentes, sua maior diversão era ir à igreja. E então, se imaginou no lugar de Agostinho e temeu que pudesse estar no inferno caso nascesse noutro lugar. Agradeceu a Deus pela graça de ter vivido sob condições que lhe levaram naturalmente à santidade, mas lhe nasceu uma ponta de autocomiseração por não ter sido responsável em nada pela própria salvação, ignorando que ninguém mesmo o é. Enquanto isto, Deus achava graça.

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junho 10, 2006

A ÁGUA AMA AS PEDRAS. O GELO AMA O FOGO

“Brigue você, se quiser, eu fujo armado de amor”

Vi o filme espanhol “Crime Ferpeito” (sic), puro humor negro e muito bom. Em uma cena, o personagem principal descreve um ex-chefe que, segundo ele, se comportava como se fosse superior aos outros, era como se seu sangue fosse diferente do sangue dos demais. E era mesmo. Tinha leucemia. Humor negro é isto. Eu doei sangue um tempo atrás, quando morava em Goiânia. Achei maravilhoso e me senti um cidadão perfeito e um ótimo cristão. A cada 60 dias eu ia ao banco de sangue e deixava lá 450 ml do meu. Na segunda ou terceira vez, comecei a senti uns calores assim que se aproximava o dia da doação. Parece que o corpo se acostumara com aquela quantidade de sangue que eu tirava a cada sessenta dias, então resolvia produzir sozinho mais sangue e aquele excesso de sangue me fazia suar muito além do normal, suores que cessavam assim que eu doava o sangue. Daí me veio um insight ginecológico. As mulheres na menopausa costumam se queixar de calorões. Imagino que são calores parecidos com aqueles que eu, doador contumaz, sentia. Claro, pois as mulheres, como o doador de sangue, também perderam sangue em espaços regulares de tempo por, sei lá, 30 anos, por meio da menstruação. Eureka! O remédio para os calores da menopausa das mulheres é simplesmente elas doarem sangue. Ainda não encontrei uma mulher na menopausa que topasse testar minha tese. Ah, parei de doar sangue, pois aquilo vicia sim, os calorões eram isto, a síndromme de abstinência do corpo viciado em perder sangue. Claro que sempre que alguém precisava, eu ia lá e doava. Um dia desses aqui em Brasília, um amigo (e colega de trabalho) precisou de sangue. Felizmente apareceu tanta gente para doar, que o hospital até ligou para a empresa pedindo que não fosse mais ninguém lá. Pois bem, eu também quis doar e liguei lá para marcar, não, minto, liguei para tirar uma dúvida quando li a mensagem pedindo doadores que dizia que o doador não poderia ter estado em algum Estado da região norte nos últimos seis meses. Ora, eu vou àquela região duas vezes por ano e quis saber por que meu sangue é imprestável para doação. Disseram-me que algumas doenças típicas da região ficam incubadas até seis meses, que não aparecem nem em exames etc. Enfim, semana passada apareceu novamente outro pedido de doação de sangue para o parente de um colega com leucemia. Desta vez não havia a restrição de pessoas vindas do norte. Provavelmente pela gravidade da doença, pois tudo o que alguém com leucemia sonha é com uma bela febre amarela. Olha o humor negro aí, gente! Por falar em humor negro, tá todo mundo certo e tá todo mundo errado. Os bandidos estão certos e errados. O Estado está certo e errado. A classe-média também está certa e errada. Então vamos por partes, como diria a mãe do Dan Brown. Os bandidos estão certos em dizer que o Estado os trata ilegalmente e estão errados em tudo o mais (principalmente por matarem gente que relação alguma tem com o problema, coisa que o Estado também faz pelas mãos de policiais despreparados). O Estado está errado em manter prisões como essas aí, que simplesmente IMPEDEM que qualquer um se recupere. Então o Estado só pode esperar outra ação dos presos quando mantiver cárceres de verdade e não masmorras. No que diz respeito ao sistema prisional brasileiro, o Estado tem sido bandido daqueles da pior espécie. Então comecemos por aí. Lugar de bandido é na cadeia, junto com outros que cometeram crimes semelhantes em células que fiquem a quantidade para a qual foi projetada, não dez vezes isso. Lugar de bandido é trabalhando, não falando ao celular. Ah, e visita íntima não há nada demais, é preferível a um estuprar o outro. Os carcereiros deveriam trabalhar incógnitos, com máscara e deveriam trocar de prisões com freqüência, assim como a direção do presídio, principalmente nas prisões de segurança máxima. Outra boa idéia seria prisão subterrânea, queria ver falarem ao celular do segundo subsolo. O certo é que este não é o nosso lar e ninguém sai vivo daqui. Equivoca-se e perde seu tempo aquele que quer construir um lar nesta ilha onde naufragamos. Somos comandados por políticos e bandidos, que não são inimigos entre si e muitas vezes se confundem e quase sempre se financiam. Os bandidos pelo menos têm pedido para as pessoas saírem antes de queimar os ônibus. Políticos não se importam com tais detalhes. Os políticos bons são como os bandidos bons. É minoria quixotesca. Como diria aquele bandido, “eu sou um errado, mas sou um errado certo”, nós aqui de fora, de fora da bocada do poder e de fora das prisões, somos certos, mas uns certos errados. E nosso grande erro se chama “inocência”. Somos todos zédirceus (aquele que disse “eu sou inocêncio”). Somos inocêncios, acreditamos que esses lobos – falo dos políticos - sejam vegetarianos. Políticos são como médicos, que vivem da doença das pessoas. Em um mundo saudável, os médicos teriam baixíssimos salários. A questão é que se você estiver doente não tem outra pessoa a recorrer senão o médico. Da mesma forma, e esta é a maior calamidade da existência, não há como fugir, seremos sempre governados por políticos. Teremos sempre leis aprovadas por políticos. Resumo da ópera: danou-se! O máximo que se pode fazer é ignorar solenemente qualquer ação de político. É dar aos políticos a importância que eles têm, inclusive já falei demais deles. São cruéis porque só amam a si. Todo egoísmo é cruel. Embora nem toda crueldade seja egoísta. A água ama as pedras. A inocente crueldade infantil é o azar dos bichos. A crueldade proposital do amor é a sorte das crianças. Quando um peixe morre, onde o enterram? Depois que as cobras fazem amor, difícil é desatar os nós. Não havia parede, mas havia porta. Crianças são mais adultas e sábias do que adolescentes. A maturidade estupidifica ou será o cio? Como haveria a posse sem luxúria? Uma explicação só convence quando admite o inexplicável, pois nada se cria a si mesmo, sobretudo uma tese. A internet nos toma demasiado tempo. Se a internet não existisse, eu teria muito mais tempo para escrever no meu blog. Alguém livre de fragmentos de feiúra diz que não quer mais me ver e foi se embora dos meus sonhos (bonita não, o auge de tudo. Parece que não tem ossos de tanta fofura. Dez léguas de encantamento. Queria ficar olhando cinco horas sem parar. E me deixou pra todo resto da existência assim assim surdo e mudo. Inda são, não tive escudo. Vinda então, fiquei agudo. E agudo estou ainda. Linda não, o auge de tudo). Fez de mim pano de chão. Deu-me uma surra bem dada, de deixar costa marcada, de deixar alma penada. Desde então, de verdade, a única atividade de minha alma é o penar. Como a vela é de luzir e de queimar, como a água é de beber e afogar, de cozer e de lavar, como o peixe é de comer e de nadar, como a voz é de dizer e de cantar, como a luz é de acender e de brilhar, como o tempo é de perder e de passar, como a dor é de sofrer e aliviar, como o português de ser e de estar, como o remo é de remar, a minha alma é de sofrer e de penar. Nelson Rodrigues dizia que mulher bonita é infeliz e faz os outros infelizes. Falcão diz que Hebe acreditaria que mulher feia só serve para peidar em festa. Pois bem, fiquemos com o meio termo. Viva a beleza caminho do meio. O gelo nos permite andar sobre as águas. E o gelo se fez água e desceu ladeira abaixo. É a música que dá calor ao fogo, tristeza ao drama, gravidade à tragédia e pinta o rosto do palhaço. O que determina o gênero do filme é sua trilha sonora. O gelo ama o fogo. Quando esse pessoal acabar com as desigualdades, que argumentos usarão para que votemos neles? Dói, logo existe. Corno não gosta muito de galanteadores. Muitos acham que o bem deveria se institucionalizar. Criar o lobby do bem, uma associação do bem, uma ONG do bem, uma fundação do bem e finalmente, o ápice, um partido do bem. Não, não, não, não, não, não, não e não. É assim que mal nasce. Foi assim que PT nasceu. Desculpem o linguajar, mas lobby do bem é o caralho. Alguém do bem mesmo, nem passa pela cabeça resolver algum problema com políticos pelo meio. A ideologia é o modo diabólico de criar paraísos. E o paraíso de satanás é o inferno. Ah, conheçam Jessier Quirino, poeta de dar inveja, cantador de cegoaderaldíssimas virtudes, de qualidades zélimerentas, bom não, aquelas tuias. Não vejo nada demais nos adjetivos, já pronomes, sobretudo indefinidos, evito feito hemofílico as giletes. Quanto menos tenho, mais generoso fico. O sempre outro é sempre o mesmo. Vou fazer uma tese de mestrado sobre teses de doutorado, a tese de doutorado será sobre orientadores ridículos e a tese de pós-doutorado será sobre o quanto bancas de tese passam qualquer um. Esses discos de canções são pura e simplesmente audiobooks. Todo cego, que nada vê, deveria descrer de tudo. Porém, é raro um cego ateu. Simples, o cego tem criatividade, não se prende aos sentidos que têm e muito menos ao que não tem. Transcende-os. A pessoa não caga o que come. Caga é o que não deveria ter comido, é uma forma de o corpo dizer, “opa, isto aqui eu não quero, você tá maluco de comer uma bosta dessa, rapá!”. A matéria é apenas a superfície da realidade. Para ser ateu, descrente, agnóstico e desconfiado em geral que só acredita no que vê e apalpa, basta ser irresistivelmente atraído pela superficialidade. Thales já sabia disto. Por falar em Thales, os historiadores dizem que a filosofia nasceu no dia 25 de maio de 585 A.C., dia em que ocorreu o eclipse previsto por Thales. Isto é, a filosofia é filha de Thales com o eclipse. Nascendo dia 25 de maio, significa que a filosofia é de gêmeos. Belo signo. O nativo de gêmeos tem duas caras, gosta de ser admirado, é, por isto, um libertino. É isto mesmo que é a filosofia. Os historiadores acertaram na data. Para o cego, a escuridão é indiferente. A melhor coisa de Lawrence da Arábia é a visão de um camelo olhando o mar, para o quê não precisavam fazer um filme tão comprido, se o Peter O’toole (ou David Lean) tivesse humor appeal, seria uma ótima comédia, do branquelo que acha que é árabe. A lei do menor esforço é uma das bases da ação humana. Mesmo toda batalha objetiva a paz e a boa vida, todo trabalho objetiva as férias e aposentadoria, a fé tem por fim a eterna moleza. Isto é, a preguiça é quem comanda nossas ações. Estilo é apenas o que dita nossa preguiça. O que sempre fazemos? Esforçamo-nos o mínimo possível. Se nossos escravos realmente corressem riscos maiores, perigos de serem mortos etc, teriam inventado a capoeira para se defender? Capoeira é um gênero de dança e música com berimbau cujo refrão geralmente diz “vamo-nos embora camará”. Tese: será que não é invenção de antropólogo que a capoeira teria sido em seu nascedouro espécie de arte marcial? Para mim parece mais um proto-carnaval, ainda só com mestre-sala e porta-bandeira, um fazendo gracinhas em frente do outro, enquanto o restante bate palma e berimbau e cantam canções que diz “vamo-nos embora camará”. Todo mundo bom de pegar no cabo da enxada e ir roçar uma capoeira. Um dia desses, eu disse para uma amiga generosa, espirituosa, espiritual, exigente, bem-humorada, curiosa, sedenta de saber, ávida de sabedoria, bondosa, honesta e cativante e de alma aberta marchando rumo à grandeza que ela era tudo isso. Ela me disse que eu a surpreendera. Não se pode mais falar a verdade que as pessoas ficam surpreendidas. Seguirei dizendo a verdade, mesmo que isto encha de felicidades as pessoas que amo. Eu tenho pai, não tenho filho, tenho o Espírito Santo, que é quem une todos nós. O Espírito Santo é um fogo. Um fogo transforma em fogo tudo o que toca. Não importa o tamanho do mal, todo bem decorrente dele será maior. A última ceia de Cristo é a última missa em que você foi. O livro muda o mundo. Depois do livro certo, o mundo dobra de tamanho. O livro certo é o nascer de uma galáxia, o brotar de um universo. O livro certo, descobre o enorme olho de Deus com todos os astros e estrelas dentro dele. O livro certo nos torna imensos e diminutos ao mesmo tempo e para sempre. O livro certo é a primeira cafungada na nuca de quem amamos. O escritor é o diretor do livro. O livro é inútil como um beijo. O livro certo nos diferencia. Alguém diferente é acostumado a espantos. Para ele, é como se o mundo fosse feito de seres assustados, nervosos e observadores. Mas logo, ele vê que o mundo é feito mesmo é de seres superficiais. Preconceito é olhar a superfície. É normal, pois antes de cada mergulho, olhamos a superfície, ninguém vai fundo sem antes ter sentido o espelho da superfície. E só o alguém diferente sabe que é diferente apenas na superfície, pois do espelho para baixo e no mais fundo de nós, onde o Criador nos ver e nos cobra, somos todos parecidos, irmãos gêmeos, quase siameses. Quem se nega um segundo de vida, desiste da vida inteira. “Brigue você, se quiser, eu fujo armado de amor”, diz a canção bonitíssima do Egberto. Há todo tipo de caça e, em conseqüência, todo tipo de caçador. Há caçadores de paca, caçadores de tatu, até quem cace cotia, caçador de urubu, há caçadores de encrenca, e há o caçador de sarna, de trem, de piolho, de lêndea, de amigo, de namorada, há caçadores de tudo e até caçador de nada. Há caçador de inciso, caçador de sobreaviso, caçador de amendoim. Já eu, que não improviso, sou caçador de sorriso, faz favor de rir pra mim. O ponto final é senha para o esquecimento. Ponto final.

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junho 08, 2006

O SOCIALISTA ARREPENDIDO

O homem muito rico tinha muitos empregados. Impregnado de pensamentos socialistas de acabar com as desigualdades, vendeu o que tinha e distribuiu igualmente entre os empregados, tornando-se tão pobre e desempregado como eles. Em três meses foi nomeado culpado pelo desemprego de todos e expulso a pedradas. Chegando em outras terras, se empregou na fábrica da cidade e rezava todos os dias para seu patrão permanecer capitalista.

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junho 04, 2006

DA CRIAÇÃO DE CLIMAS

Os bancos deveriam ter filas para pessoas com pressa. Haveria fila para pessoas normais e outra para pessoas com pressa. “O senhor está com pressa?” “estou sim” “ah, a fila dos apressados é aquela ali” “obrigado”. E uma vez que a maioria das gentes anda sempre com pressa, a fila dos apressados seria sempre maior. Percebendo isto, alguns começariam a mentir e a dizer com a cara mais cínica “não, não estou com pressa não” e iriam correndo para a fila com pouca gente. Os bancos, inteligentemente, então fariam uma fila para mentirosos e devolveriam os falsos não apressados para sua fila de verdade. Então, o cliente de banco, inteligentemente, concluiria que seria atendido mais rapidamente se deixasse de ser apressado. A pressa tem sido padrão na vida moderna, como se fosse natural a pressa, mas não é. O homem deveria ser naturalmente baiano e defender a baianidade, que é coisa bonita. Devemos defender nossas raízes, como a preguiça, a mandioca e o inhame. Preciso de alguém para que me fabrique instantes. Quer saber de outro negócio? O sujeito compra quilos de alimentos e vai para a porta dos locais onde ocorre show cujo ingresso é “1 quilo de alimento não perecível” e vende arroz, feijão, macarrão, tudo a cinco reais o quilo. Lucra mais do que o supermercado. Parece que o lucro é mesmo a razão da vida de todo mundo. Todo mundo quer lucrar, inclusive muitos fiéis que levam uma santa vida e o fazem porque acreditam na vida eterna de gozos indizíveis, isto é, o sujeito está fazendo um negócio. Todo mundo quer lucrar, porém o lucro como finalidade exclusiva, raramente traz o lucro, isto é, o capitalista mais bem sucedido é justamente aquele que descobriu um modo genial de facilitar a vida das pessoas, que, agradecidos, pagam por isso. E pronto, o lucro é mera conseqüência. Com o passar do tempo, alguém inteligente percebe que o verdadeiro lucro – isto é, uma vida feliz – vem não da busca do lucro, mas do facilitar a vida das pessoas, pois disso decorre muito amor e o amor sim, é causa de muita felicidade, não há lucro maior que o amor. Ao facilitar a vida de alguém, na prática, o que você faz é amar. “Amai-vos uns aos outros”, disse Jesus. Ele poderia ter dito, “facilite a vida de quem está a seu lado, eis tudo”. Por isto não se deve perguntar “por que viver?”, mas sim “por quem viver?”, ótima lição que nos ensina o mestre André Frossard em seu “Deus em questões”. Então é isto, viva por alguém, pegue seu computador e saía por aí procurando de quem você pode facilitar a vida. No futuro as pessoas terão um micro permanente colado a si, será o novo apêndice. O bebê nasce e vai para o quarto ao lado onde instalarão um micro nele, pois sem micro ninguém é ninguém. Escrevi este poema a pedido de meu irmão, para ser publicado no preâmbulo de sua tese de doutorado, defendida recentemente com sucesso, ele é engenheiro civil e o poema, que tem por título “estaca” ficou assim: “Cava, que a curva cede. Carrega, que a carga se ergue. Funda, que a força nos mede. Prova, que o profundo é findo. Suporte, que o fuste resiste. Crava, que o limite é vindo. Continua, que a hélice gira. Experimenta, que há base. Ensaia, que a função suspira. Assim é a vida: hiperbólica. Com resíduos de tensão. O existir que nos persegue. Tem carga-limite e então... Eis que vem a salvação. E faz da vida, carga leve. Que se desloca e se ergue. E nos eleva do chão. Força que vem de Alguém. Cuja cruz nos libertou. Cruz estaca e estrutura. E permite à criatura contemplar o Criador”. Meu irmão gostou de minha estréia como poeta por encomenda. Quem quiser encomendar poesia, se você for meu irmão se doutorando, eis me aqui. A invenção do tradutor de gente seria um progresso. Traduz-me, aí, vai. Traduza-me para você. O que sou eu para você? Como você me vê é como eu vejo o quê, Hein? Diz qual é o equivalente a meus olhos quando você me vê. Como eu posso me ver exatamente como eu veria pelos seus olhos e gostos? Seria bom uma máquina assim. Não perderíamos tempo com ninguém. Quando você me visse e eu lhe passasse pelo o tradutor de mim, eu saberia que a vejo primeiramente como você me vê e assim, eu veria que não vês com os mesmo olhos que a vejo. É, seria um progresso. Quero ser conquistado pelo silêncio de alguém. Não me venha com barulho não. Nada mais quente que o silêncio. Nada mais eloqüente, não há nada mais que me convença. O silêncio me passeia, me estimular, me obriga a pensar, me seduz, puxa as idéias, pega no meu pé. Ah, que esse alguém silencioso seja mulher. Se não houver, ah, há, há sim. Há mulher silenciosa. Minha mãe diz que o besta calado passa como sabido. Ora então, uma mulher silenciosa é inteligente e gostosa, digo eu. Ah, mas deve sorrir. As tímidas são graciosas. Mas igualmente sedutoras são as extrovertidas que com um esforço imenso nos brindam com seu silêncio. Não há homem que não caia nas mãos e aos pés de uma falsa silenciosa, enquanto os dentes mostram enquanto a língua adormece. O fato é que tem gente que parece, só a língua é sadia. O polegar da mão esquerda entrou nos trastes do violão. Eis uma grande notícia. Eu vi, meninos, Marcus Tardelli faceiramente fazendo acordes com o polegar, mais de dois séculos após Bach fazer o mesmo com o teclado, que antes só era tocado com oito dedos. Com essa graça, Tardelli amplia magnificamente as possibilidades do instrumento e aguardemos partituras com essa digitação, nossos polegares farão novos calos. Tem aquela piada que termina assim “rapaz, tu não veio aqui pra caçar urso não, fala a verdade, teu negócio é outro”, há tempos não ria tanto. Se o Brasil não for hexa, a culpa será do Pedro Bial. Pela lógica da numerologia, vai dar Brasil, pela lógica da superstição, a Alemanha será a campeã. Pela lógica da lógica, será campeã a seleção que ganhar a final. Esperemos. Os horários dos jogos são terríveis. Não mereço jogo ao meio dia. Tenho recebido tanto cartões fajutos com vírus, que estou quase clicando no link do executável, só para ver se param de mandar. Se eu fosse vingativo, escarafuncharia a vida da mãe do Dan Brown e provaria por a + b que se trata de uma prostituta da pior espécie, mitômana contumaz e assassina parente de Jack, o estripador. Claro que seria apenas uma inocente obra de ficção e ele não deveria se sentir ofendido (esta última frase é irônica). Eu pensava em ver o filme, mas me disseram que é um filme, meia-boca, algo assim um seis e meio, então não vou. É bom deixar claro que eu não gosto de cinema nem de literatura. Eu gosto de filme bom e de livro ótimo. Então as chances de eu ler o livro de Brown é zero vírgula zero. Porém, ao filme, eu iria, se fosse um filme bom. Mas dizem que não é. Então, ótimo, assim meu pobre dinheirinho não irá para os bolsos desse senhor que tem o feio costume de inventar estórias fantasiosas com a mãe dos outros. Por falar em provar por a+b, não sei se já ouviram, há uma canção do Falcão em que ele diz “já está provado por a + b que a + b não prova nada”, o que resume toda a filosofia moderna desde Descartes, mas já falei isto, enfim, ouçam o disco que se chama “Do penico à bomba atômica”. Outra coisa, voltei a conviver com a dor física. É interessante isso porque nossa dor é o centro do universo. Minha mãe diz que é a pior espécie de doença essas que não cura nem mata o doente. Minha mãe é de uma região e de um tempo acostumados a doenças que matam. De repente, vive-se em tempo e região em que as doenças não curam nem matam, apenas maltratam. A medicina trabalha para isto, para manter os doentes vivos. Há quanto tempo não se ouve a notícia de que descobriram a cura da doença tal? Eu não lembro se já ouvi isto. O que se descobre sempre são remédios para paliar males. Tanto que atualmente é normal ver gente com mais de 100 anos. Isto é, a medicina tem conseguido prolongar a doença das pessoas. Uma medicina que cure, será pedir demais aos cientistas, esses homens de jaleco que vivem de mentir com o dinheiro das fundações, como diz o dorminhoco do Woody Allen? Mas meu caso não é o fim do mundo, são apenas hérnias na L3, L4 e L5, esse L é de lombar, a fisioterapeuta me disse que homem sempre tem problema nessa região, fiquei feliz, pois isto significa que eu sou homem. O chato é fazer ressonância magnética, coisa que já fiz umas cinco vezes e é bem chato, eles chegam até a colocar músicas do Renato Russo para o paciente ouvir, é realmente uma tortura. Em uma dessas ressonâncias eu fiz aquele conto curto que diz “impaciente, o paciente abandonou a doença”. É uma situação chata quando você está preso em um tubo, sem poder sair nem anotar nada e de repente tem uma boa idéia, nesses casos, geralmente eu persisto na idéia e tento lapidá-la até ficar como eu quero, evito o máximo que posso de não ter outra idéia, pois posso esquecer a primeira. (o conto curto que fiz desta vez foi o seguinte: “o meteorologista pediu demissão da tv e foi para a roça criar clima”, ainda não tem título, mas talvez seja “The Weather Man”). A copa vem aí e o Brasil tem a constrangedora situação de favorito (um desportista diria “franco favorito”, ainda vou estudar essa palavra “franco”, que é usada crebro – enriqueça seu vocabulário – em franco-atirador, olhar franco, General Franco, Moarcyr Franco etc, o franco favorito significa “o favorito sem nenhuma dúvida”, mas acabou virando um clichê, que é aquela coisa que a pessoa usa com convicção, mas sem saber do que fala exatamente). O Brasil é favorito, eu dizia, o que em futebol não significa muita coisa. A frase “que vença o melhor” não cabe ao futebol, pois geralmente nesse esporte ganha quem faz gol de mão. Vou torcer pelo Brasil, claro, só para ver como farão para os bancos funcionar em dias em que o jogo for ao meio-dia. Na prática, passei a maior parte de minha infância e juventude convivendo com seleção brasileira de futebol de perdedores, então já me acostumei. Por exemplo, em 82 eu tinha 15 anos. Aquilo lá não se faz com uma criança de 15 anos. Presenciei dois campeonatos mundiais em que a Argentina foi campeã. Pense em coisa chata. Todo ego é do mesmo tamanho, mesmo o ego dos argentinos. Querer destruir o ego (que seria o ideal) é mais um truque do ego. Isto é, quando você percebe que destruiu o próprio ego, aí fica todo cheio de si pelo que fez e eis seu ego mais vivo do que nunca. Então, o melhor modo de desinflar o ego é conviver com ele como ele é, apenas procurando não achar que o ego dos outros é maior que o seu. Não é não (é o seu enorme ego que o faz pensar assim). Até o dos argentinos é do mesmo tamanho. O fato é que o triunfo sobre o ego é também o triunfo do ego. No meu aniversário ouvi algumas vezes que eu estou ficando velho, ora todo mundo fica velho o tempo todo. Não conheço ninguém que fique novo. Ouvi que querem tirar os religiosos do conselho de bioética (ou algo parecido) como se existisse humanismo sem teologia. Desumanizar é justamente tirar o que há de divino no ser humano. Por isto humanismo ateu é uma contradição. Esse negócio de namorar à distância não dá certo. Conheço uma garota de São Paulo que, cansada da distância, terminou com o namorado de Salvador e agora namora um rapaz que mora no México. Um dia desses, eu disse pro meu sobrinho, que terminou a quarta série, que ele ia fazer o ginásio. Quase morrem de rir. O nome muda de pré para ensino fundamental, mas o ensino piorou. O ensino piora cada vez que mudam os nomes das séries. Com a internet tende a piorar ainda mais, pois o professor primário (cruzes!) e secundário (duas cruzes!) ganham mal e não têm internet em casa, mas os alunos têm. Na aula, os alunos são mais bem informados do que o professor. Os alunos estão atualizados, o professor está atrasado. No fim do ano, os alunos são os professores do professor, que é o único aluno da classe. Rir de si é importante, mas também é importante chorar de si. Quem não chora não mama e quem não chora não ri também. Ríamos e choremos de nós. Ah, e mamemos e amemos também. Essa história de que os opostos se atraem só vale mesmo para o sexo (quando vale). No restante é importante a semelhança, pelo menos morar na mesma cidade, é que os olhos acariciam mais do que as mãos. E o nariz? O nariz também é gente. Sem cheiro não há namoro. O mundo vai envelhecer assustadoramente na proporção em que for progredindo e quanto mais o bem-estar chegar a todos, mais velho o mundo ficará, pois um dos sinais de progresso é a esterilidade, induzida ou não, assim, sem crianças, só há velhos nos países ricos e quanto mais ricos, mais velhos há. País pobre é aquele em que ninguém fica velho. Assim, vem aí a tal revolução dos idosos, sobre a qual já tem até livro escrito. O que imagino são hordas de velhos e velhas com suas bengalas e óculos enormes tentando mudar as coisas que aí estão, tentando impor o fim do piercing, da música alta e, quem sabe, do zíper. Como naquela piada, “como terminou a guerra dos 100 anos?” “com um monte de velhinhos” se o mundo progredir mesmo terminará assim, com um monte de velhinhos. Serão milhares de vovôs sem nenhum netinho por perto. O tal planejamento familiar terá vencido, pois planejamento familiar sempre significou eliminar crianças. O sexo no futuro terá função apenas recreativa e evidentemente surgirão vozes rebeldes pregando seu uso para reprodução e serão acusadas de impor modismos. Nem os bichos farão sexo para procriação e como eles não o fazem com fins recreativos, não farão sexo algum. Reprodução sexuada será coisa de bichos da selva, mamões e maracujás. A noite é fria e o sereno cai com violência. O sereno não faz jus ao nome e não cai serenamente. Sereno violento é garoa. Chuva tranqüila é quase sereno. Garoa forte é chuva. Chuva forte é tempestade. Logo, sereno é tempestade tímida. Tempestade serena é chuva. Chuva serena é garoa. Garoa serena é sereno. Sereno sereno não faz mais que a obrigação. Por isto eu estranho o sereno violento e vou pro meu cativeiro, no meio dos cobertores, pois a escuridão é um remédio para a pele e para os olhos também, enfim, ver é ruim para a vista como viver é fatal. Vou ali.

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junho 02, 2006

O MARIDO QUE PENSAVA EM COMER A MULHER

Um dia passou a mão nas costas da mulher e imaginou que aquele lombo daria um ótimo bife. Mas jamais poderia, era a mãe de seus filhos. Ele a amava, mas sofria do desejo irresistível de comê-la. Salivava quando ela passava. Deixa pra lá, pensava, não vou comer a cozinheira!

Posted by César Miranda at 06:51 PM | Comments (1)