abril 16, 2006

AUTOBIOGRAFIA DE UM BEBÊ – COMO SOBREVIVER AO NASCIMENTO

Assim que nasci fiz uma pesquisa no berçário onde fiquei. Todos os recém nascidos ali foram enfáticos ao me afirmarem o que eu já desconfiava. Nascer é de morte. Vocês não acreditam. Acho incrível que alguém nasça. O choro se justifica, pois é dolorido nascer. Quem fala que a vida começa aos 40, não sabe o que diz. A vida começa, na verdade, muito ainda do nascimento, mas só com ele é que você é jogado à luz do sol e tem que encarar a vida de frente. Porém, para entender a vida realmente, temos que sair da superfície e mergulhar com coragem no mistério do nascimento. E não falo do nascimento em que somos tirados do quentinho da barriga da mamãe. Falo do nascimento mesmo de verdade. Nasci quando Deus teve a idéia do projeto homem. Olhei para cara de Deus e dei um beijo da bochecha dele. Desde então vivo vagando esperando alguém de carne e osso para chamar de mãe e pai e esperando um corpo para eu chamar de “eu”. É bom dizer “eu”. Nascer é isto, adquirir o direito de dizer “eu”. Dizer é que é chato. Por isto escrevo, para não ter que dizer. Mas voltemos ao nascimento. Antes de minha mãe me dar a luz, eu pensava, “a vida começa quando a mãe da gente nos der à luz”. E ficava meio ansioso como ficam as pessoas de 39 anos que acreditam que a vida começa aos 40. Se eu tivesse 39 anos ou 38 e pensasse que a vida começa aos 40, ficaria muito assustado com a eminência do começo de minha vida pintando por aí, mesmo depois de ter tirado a vesícula e as entradas na testa já terem começado. Não é meu caso, ainda estava intacto quando me faltava alguns anos para nascer, só me faltava um corpo, o resto eu tinha, isto é, eu já tinha instrumentos suficientes para ficar ansioso. Desculpem, este texto está ficando por demais confessional. O fato é que nascer é violento. Todos os meus coleguinhas confirmaram a sensação desconfortável do nascimento, inclusive todos choraram. A primeira sensação é o frio. O choque térmico do nascimento é algo inclemente, pelo menos na maioria dos partos. Deveriam rever tal sistemática. Eu mesmo achei que ia morrer quando estava nascendo. Apesar disso, sobrevive-se ao nascimento e nascer é mesmo irresistível que até Deus quis nascer.

Posted by César Miranda at abril 16, 2006 01:36 PM
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