fevereiro 15, 2006

O PENSADOR

Há pouca coisa mais inútil, paradoxal e bocó do que livro de um pensador. Todo livro de um pensador só serve para constrangê-lo. Um pensador se pensar bem não publica livro algum, no máximo tem um blog para poder apagar velhos posts de vez em quando. “Caraca, eu pensava isto?” O chato são os chatos que querem que o sujeito viva e pense daquele jeito como certa vez leram na “obra-prima” que foi seu primeiro livro (se o livro foi um best seller, coitado do cara, tá condenado). O fato é que vamos aprendendo a viver devagar e com a própria vida, que, não por acaso, é só nossa. Ninguém é pensador porque quer e sim por necessidade, como alguns nordestinos que comem ratos. Pensar é estudar a própria vida. Estudar a vida, porém, não é garantia de aprendizagem e evolução. O livro de um pensador é como uma tese de uma criança da segunda série. Dois ou três anos depois, escreve outro livro, agora na quinta série e morre de vergonha do quão infantil era. Pegam no pé daquele cara que disse “esqueçam o que eu escrevi”, mas ele está certo. Nada mais correto na boca de um pensador: “esqueçam o que eu escrevi”. O ideal seria que o pensador fosse analfabeto, assim não imprimiriam seu pensamento, pois o pensamento de um pensador só serve a ele. Não leiam pensadores. É como tentar usar a dentadura de alguém. Dito isto, eu que sou um pensador, reitero o que já disse aqui, “escrevo para saber o que eu pensava semana passada”, e escrevo porque blog é algo que ninguém além do dono deveria ler. Ter um blog é como mostrar seu diário para as pessoas. Quem lê deveria ser um grande e fraterno amigo do dono e não enchê-lo o saco no futuro ou cobrar-lhe coerência (por Deus não) com o que ele escreveu ou deixou de escrever. Quem me cobra coerência é meu inimigo, simples assim. Amar é não cobrar coerência. Evoluir (e regredir também) é fruto do pensar. Só o pensador evolui. E a incoerência é o gás do pensamento, pois é nela que se toca fogo na caldeira da dialética. Logo, seria incoerente um pensador coerente. Pior, seria uma contradição. O pensandor coerente é um refém do próprio pensamento o que o torna tudo menos um pensador. É uma alma prisioneira, uma contradição ambulante. Mas voltemos a nossa primeira contradição que são os livros dos pensadores. Um livro é uma fotografia. Ora, toda fotografia é fotografia de um morto. Aquele ali na fotografia já não existe mais. Um livro de um pensador é certamente um amontoado de coisas com as quais muita gente concorda, mas possivelmente não o pensador. Ele, se for mesmo um pensador, já está em outra há muito tempo e se for chamado para dar alguma palestra, se for honesto, corre o risco de jamais dar palestra alguma. Conheço um grande palestrante aqui do planalto central que, vejo claramente que aquele sujeito jamais evoluirá justamente porque teria que discordar que quase tudo o que diz nas palestras. Começou como pensador, terminou como múmia (como o amante que começa como poeta e termina como ginecologista, na sacada de Cioran). Todo fervor tende ao tédio. Em outras palavras, toda inspiração sonha em ser engarrafada e vendida. É assim que belas orações viram rezas para que os entediados fiéis finjam que são São Francisco de Assis. (Se bem que, muitas vezes, é melhor repetir a oração de outrem do que pedir coisas como uma bicicleta ou um casamento a Deus). Mas o que eu quero falar é do livro do "mestre". O livro é uma letra morta. Toda letra é morta, jamais se viu uma letra saindo por aí fazendo o que bem entende. Mas o ponto a que quero chegar é: um pensador não diz nada quando escreve, ele não fala sério, apenas está pensando alto. Tão alto, que um editor o ouviu e resolveu vender seus pensamentos. Mesmo que o pensador morra pensando aquilo lá que está em seu livro, você, caro leitor, não deve acreditar naquilo, pois não é com você. Você tem tudo o que precisa para pensar sozinho. E nem a si deve levar muito a sério, pois amanhã você pode pensar diferente. Pelo menos é o que eu penso agora. A coerência é mesmo alguma coisa muito pontiaguda que os inimigos gostam de cravar na biografia dos outros. Já ouvi gente falando mal das idéias de Karl Marx, afirmando que estão todas erradas, afinal ele era um detestável pai, péssimo marido e lastimável filho e que ele não poderia falar a favor dos trabalhadores porque afinal jamais pisara em uma fábrica. Ora, isto é lá argumento? (então Jesus não deveria ter falado sobre o casamento, afinal, Nosso Senhor jamais teve uma mulher esquentando seu pé-do-ouvido) Se as idéias econômicas de Marx estão erradas, a história já provou e os argumentos que devo usar devem vir da economia, não vou usar esses argumentos fajutos como se eu fosse um santo homem e Marx um pecador imundo e incoerente e por isto equivocado em tudo o que disse. Mas os partidários da coerência dizem que não, Marx teria que ser coerente com suas idéias para que suas idéias... Não terminam a frase, pois cairiam em tautologia. Marx teria que ser coerente com suas idéias para que suas idéias fossem coerentes com ele, só isso, pois ser coerente com as idéias que defende não fará delas serem mais nem menos verdadeiras, pois isto seria pensar justamente de modo marxista, isto é, seria defender que há uma classe (a dos coerentes) a quem é dado o poder de dizer a verdade. E a outra classe, a dos incoerentes, esta, coitada, estaria mergulhada na eterna ignorância. Assim, nenhum crápula deveria concordar que dois mais dois são quatro. Somente pessoas boas e santas saberiam que soma do quadrado dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa. Tiram assim todo o direito de um pensador ser gente. Ora, minha gente, pensador também é gente. Pensar deveria ser um ato bem particular, mas tem gente que não se contém e quer, parece, uma ajudinha para pensar direito e começa a escrever coisas sobre o que pensa. Sou contra. Mas escrevo. É uma incoerência da minha parte, paciência!

Posted by César Miranda at fevereiro 15, 2006 08:30 PM
Comments

César,

Adorei o texto. Abraços.

Posted by: Adelice at fevereiro 16, 2006 07:55 AM

Fileleno,

Com licença, mas não concordo que vc seja incoerente. A estática evidenciada no "só" e e "nunca" auto relatada em seu comportamento demonstram a sua coerência.

Ps.: Excelente texto, César. Contradito apenas no tocante a Jesus e Marx. O primeiro, embora não tenha vivido todas as experiências, como o casamento v.g., foi exemplo nas situações em que vivenciou. Exemplo de filho, de ética...
Já Marx não pode ser tido como bom exemplo nem nas situações que efetivamente vivenciou: "era um detestável pai, péssimo marido e lastimável filho" e "não poderia falar a favor dos trabalhadores porque afinal jamais pisara em uma fábrica" e, se mantivesse a coerência, teria sido tb um péssimo operário.

Posted by: 0!/\@|£ at fevereiro 16, 2006 07:19 AM

Muito bom, César.

E apesar de eu achar bom, só me lembro dessas coisas quando são em meu benefício. Nunca quando são em benefício dos que me rodeiam.

Veja só a incoerência.

Posted by: Fileleno at fevereiro 16, 2006 06:52 AM

Excelente, excelente texto!

Aliás, depois de ler, percebi claramente que eu quase só escrevo para pedir ajuda para pensar direito.

Um abraço!

Posted by: Lucas Mafaldo at fevereiro 16, 2006 06:07 AM
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