Tinham tanto assunto para conversar que não dormiam de noite conversando. Quando ficavam juntos nem comiam, só conversavam. Quando estavam longe, morriam de saudade dos papos e corriam do trabalho para se encontrar e continuar a prosa. Então, resolveram se casar para poder, quiçá, terminar o interminável assunto. Faziam amor entre longos argumentos a respeito de coisas variadas. Tiveram três filhos, um mudo e dois surdos e nem notaram, pois achavam que as crianças apenas prestavam atenção ao animado diálogo dos pais, que nunca acabava. Quando se afastavam, não resistiam e ligavam um para o outro para mais um dedo de prosa. Sofriam muito em eventos como missas, reuniões sérias ou outros lugares que requeria silêncio deles. Então tiveram a idéia de aprender a língua dos sinais. Foi um alívio, nas missas batiam altos papos, faziam cada gesto e chamavam a atenção. Perceberam que estavam ridículos e este também foi um assunto muito conversado. Passaram vários meses com a metalinguagem de conversar sobre a própria conversa (os vários meses foram 15 meses para ser exato). Decidiram então desenvolver uma linguagem própria, baseada em olhares, arquear de sobrancelhas e lábios e balançar de cabeça. Começaram com frases simples, mas fizeram um progresso vertiginoso e em pouco tempo já conseguiam conversar a respeito das diferenças entre o primeiro e o segundo Wittgenstein. Porém ao trazer tal linguagem a público, o resultado foi pior do que a língua de sinais, pois aquelas caretas todas assustavam adultos e crianças. Não era muito fácil falar as paroxítonas sem colocar a língua para fora, por exemplo, sem falar de uma vez em que ela deu um jeito no maxilar enquanto discutiam sobre o argumento ontológico de Santo Anselmo. Sem outro jeito, resolveram tentar a telepatia. Desde então não se falam mais, só trocam olhares perplexos cheios de significados que só eles conhecem, olhares íntimos, secretos e intermináveis. O pessoal do hospício acha ótimo.
Posted by César Miranda at janeiro 1, 2006 09:06 AM