janeiro 15, 2006

DECLARAÇÃO À RECEITA

Querida Rê,
Como vai? Lembra-se de mim? Desde a minha última declaração anual, nunca mais tínhamos nos falado. Confesso que não estava com saudade, Rê. Eu sou aquele seu contribuinte do CPF nº 432.586.898-28. Tá lembrada agora? Sinto-me meio constrangido com essas declarações, mas não tenho vergonha de confessar que, apesar de tantas receitas que fizeram parte de minha vida neste ano, você continua a ser a mais importante de todas. Lembro-se bem de uma receita de sorvete com torta de pêra, que acabei não fazendo, não me seduziu muito, além disso, eu engordaria e uma malha fina não me cairia bem. Ah, uma receita que gostei muito, até fiz o prato foi de picanha ao forno. É muito fácil, você faz um iglu de sal grosso e clara de ovos em cima da picanha e deixa no forno por 40 minutos. Fica ótimo. Outras receitas passaram pela minha mão, mas preferi um fast food na maioria das vezes. Fujo de receitas que contenham os termos “banho-maria” ou “bater as claras em neve”. Você, cara Rê é a minha receita favorita, com você não tenho preguiça. Você é federal. Gosto tanto de você como de meu Gol Mil 1995 que em 31 de dezembro do ano passado custava R$ 3.500,00 e no dia 31 de dezembro anterior, custava R$ 4.000,00. Pena que minha conta corrente na mesma data, estava negativa em setecentos reais. Dá para acreditar? Ainda bem que sou amigo do gerente. A culpa de tudo foi meu apartamento que comprei, sito à Rua 16-A, nº 748, Bloco C, Apt 306, Vila Curitiba e que me custou R$ 23.000,00 adquiridos com o saque de meu FGTS. Mas prossigamos com esta declaração que tenho a lhe fazer. Falemos de minha saúde. Ah, querida Receita, você não imagina como a vida foi madrasta demais comigo neste ano. Um dos problemas da medicina, que a torna sua inimiga, inclusive, é que cada médico que passa em nossa vida, nos enche de receitas. Receita é também sinônimo de doença. Pois é, fazer o que?! A vida nos pega de jeito mesmo e não se sai vivo dela. Só Jesus Cristo conseguiu. Falar nisto, anota aí, gastei mil e duzentos reais de dízimo neste ano. Cem por mês. Sei que Deus não tem preço, mas foi o que pude pagar e não quero cair nas suas garras, cara Rê, por causa de minha religião. Seria eu o primeiro mártir da malha fina. Mas, de que falávamos? Ah, da saúde. Anota aí: Dr. Raulino, paguei mil e quinhentos paus para aquele desalmado me arrancar as amídalas. Não se preocupe, foi uma cirurgia normal. Já o doutor Sid Ruy (é esse o nome dele mesmo, seu CPF é 564.521.236-21) cobrou-me o olho da cara por um exame de vista e ainda me receitou umas lentes de quinhentos reais que duraram dois meses. Um verdadeiro roubo. Falar nisto, é bom contar essa e acho até que você, querida Receita, deveria criar um espaço em nossas declarações anuais para um gasto cada dia mais natural nestes dias de hoje. Falo do gasto com o assalto. Fui assaltado uma vez neste ano. Não se preocupe, está tudo bem. Foi um assalto tranqüilo, eram ladrões conservadores e tudo correu bem, pois os bandidos estavam com mais pressa do que eu para que aquilo acabasse logo. Levaram-me 250 reais, meu relógio, o celular e meu disc-man. Então se der alguma diferença do que ganhei com o que digo ter gasto, se lembre do assalto, infelizmente o ladrão não me deu nenhum comprovante, você terá que acreditar em mim. Falar nisto, se a gente for seqüestrado, por exemplo? Como comprovar o valor gasto na operação? Por falar em operação, voltemos a minha saúde. Fiz (ou fizeram em mim) quatro operações, não é gozação não, mas se deu comigo o que se dá com a aritmética mesmo. Quatro operações. A primeira foi uma pequena lipo, é que consegui um médico bem baratinho, que, descobri, tinha sido condenado por prática ilegal da medicina, mas como era réu primário, resolvi arriscar. Essa foi a única das operações que deu certo, por incrível que pareça. Abstenho-me de contar as outras, apêndice e vesícula, pois das Amídalas já falei (sim, aquela com o doutor Raulino). Depois dou o nome dos outros açougueiros, com CPF e tudo. Ainda continuo naquele mesmo emprego. É, aquele mesmo do ano passado, é só olhar na declaração do ano passado, tá tudo lá. Quase fui mandado embora, mas apareceram mais uns serviços e me deixaram. O salário aumentou 10% depois de uma greve. Juntamos com os profissionais da limpeza e fizemos um movimento paredista, felizmente vitorioso, embora eu pensasse que fizesse movimento paredista somente o pessoal da construção civil. Por falar em civil, mudei meu estado civil. Põe aí, não sou mais casado. Pois é, a ingrata da Judite cassou o meu mandato e pediu asilo na embaixada do pai dela. Gente boa o seu Belarmino, mas aquela filha, bem que eu desconfiava. Imagina que ela teve o desplante de dedicar uma música para um sujeito de iniciais O.X. Quando a pressionei sobre quem era o tal amante com aquelas iniciais, ela confessou que era o Ontõim Xofer, aquilo foi demais. Dei uma surra na mulher. “Antônio Chofer é que é o nome do cara, sua analfabeta, e as iniciais são A. C.” gritava eu enquanto o coro comia. Onde já viu tamanha ignorância?! Passei dois dias na cadeia, que foi onde conheci o médico que fez a lipo a um precinho camarada, coisa assim de réu primário para réu primário. Por enquanto é isto, cara Rê. Segura as pontas aí, vê se não me deixa cair na malha, pois tive um ano difícil. Assinado, Betim.

Posted by César Miranda at janeiro 15, 2006 02:21 PM
Comments

Sério, cara. Que achado isso. Muito, muito, muito bom. Coisa de profissional.

Posted by: Alessandro Martins at janeiro 18, 2006 04:45 PM

Excelente, excelente, excelente! De revirar o estômago (de tanto rir).
Ps.: Amigo César, esqueça as receitas com pêras e tente com laranjas. Dizem que é a perdição da Rê...

Posted by: 0!/\@|£ at janeiro 17, 2006 08:29 AM

Betim encarregou a Receita da contagem! (Pode ser que não-mineiros não entendam.)

Posted by: Sportsman at janeiro 15, 2006 09:44 PM
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