janeiro 31, 2006

CORPO E ALMA

Minha mãe costuma falar da briga do corpo com a alma em que um vive se queixando do outro. Nosso corpo e nossa alma raramente são semelhantes. Há almas violonistas em corpos com unhas de pianista (um desperdício). Gente com alma de escritor e corpo de jogador de basquete. Almas lindas em corpos depauperados e corpos divinos em almas miseráveis. Corpos grossos em almas gentis. Almas santas amaldiçoando os corpos esmilingüidos que as impedem de realizar tudo o que sua bondade deseja. Almas imundas destruindo o belo corpo que ganhou do Criador. As coisas são assim. O dono do corpo e da alma fica ali meio impassível sem saber direito que partido tomar ou a qual dos dois “eus” odiar. “Ah, eu adoro meu corpo”, diz a menina com 10 quilos a menos do que seria razoável e ignora a alma balofa, carente de uma boa malhação metafísica. Mas essa questão toda vem de berço. Berço do corpo e berço da alma. Aliás, a cirurgia plástica, muito mal usada, está aí para transformar os corpos naquilo que as almas ocas lá dentro gostariam ou o que o cirurgião conseguir (já vi plásticas que pioraram terrivelmente a “plasticada” e já vi casos em que a paciente ficou satisfeita, mas eu não fiquei nem um pouco, pois a preferia com aquele “defeito” que ela mandou corrigir, é que as pessoas não sabem o quanto um bom defeito pode ser muito interessante). A plástica da alma é algo pouco executado, por falta de procura e por falta de cirurgiões. Geralmente o próprio Todo-Poderoso se encarrega de dar uma garibada na alma de um ou outro. E dói muito, pois é sem anestesia. Posso dizer, já passei por isto (depois tudo cai de novo e eis nós – eu no caso – precisando de novos reparos na alma). Se víssemos nossa alma (ou se pelo menos, olhássemos para ela com honestidade), o mundo provavelmente melhoraria muito, caso o efeito da visão da alma feia fosse tão terrível aos olhos dos donos da alma como o é o culote para a menina de 16 anos, “ah, eu nunca gostei de me olhar no espelho”, diz a lolita que prefere ganhar de presente uma cirurgia plástica do que um carro zero. Não se faz campanha para incentivar as pessoas a ficarem satisfeitas com o corpo que têm e evitar a plástica. Poderiam fazer e justificar com umas coisinhas simples: um peitão – artificial - nem sempre é grande coisa, um nariz assim meio chatinho pode ser lindo, uma barriguinha tem o seu valor e há poucas coisas mais feias do que uma mulher com silicone nas maçãs do rosto. Dito isto, isto é, que gosto é gosto, fica difícil saber se as almas melhorariam caso fossem tão visíveis quanto os corpos. Algumas melhorariam, outras piorariam, o certo é que haveria moda também no mundo das almas. Então é melhor deixar assim, deixando a alma por conta do Criador. Somos atraídos por corpos lindos que têm a alma feia e com o tempo não acharmos mais tão lindos assim. Ou conhecemos almas lindas de corpos feios, que vão se moldando à nossos olhos à beleza da alma que vemos (há também os abençoados lindos de corpo e alma e os deprimentes feios de corpo e alma). A alma tem uma força que geralmente vence as limitações do corpo, graças aos dons que alma recebe do Criador. Deus gosta de fazer essas coisas, talvez para nos dar pistas do quanto somos muito mais do que meros robôs de carne e osso e os exemplos são muitos como o fato de um dos maiores jogadores de futebol da história ser um sujeito de pernas tortas, de o maior artista do barroco brasileiro ser um quase sem mãos, de um dos maiores compositores da história ser um surdo etc. São exemplos de casos em que a alma vence as limitações do corpo inadequado que recebeu. Então é praticamente irrelevante o tipo de corpo que você tem em face da alma que o anima, pois o corpo é um instrumento para as potencialidades da alma. Você pode ficar reclamando “putz, que corpo horroroso que eu ganhei para fazer isto aqui que minha alma pretende, ah, não vou fazer nada disso não, vou inventar outra coisa.” Ou ignorar o corpo que tem e partir para desenvolver seus dons d’alma. Tem gente que tem muita sorte, como as modelos que têm corpo de modelo e alma de modelo e, como se sabe, para ser modelo, não precisa absolutamente nada, basta nascer e caminhar. Não precisa estudar, nem comprar tinta, basta caminhar, que é uma coisa que até modelo faz. Falando com uma amiga carioca, descobri que ela tem alma paulista. É interessante também isto, de quando a alma da pessoa nasce em um lugar e o corpo em outro. O fato é que tem gente que é alemão de olhos azuis e tem alma negra. Quando criança, a pessoa não entende, ninguém entende, os pais, os tios, as professoras, na sua cidade natal Marktbreit, na Alemanha, perto de Colônia, olham atravessado para aquele gingado, malemolência e telecoteco do pequeno Fritz. Claro, jamais entenderiam, ninguém olha mesmo para a alma, só para o corpo das pessoas*. Um dia, crescido, Fritz vai para a Bahia em férias e jamais volta para a Alemanha. Casa-se com uma baiana que conheceu quando comprava um abadá do “Chiclete” (jamais vou entender o interesse das mulheres bonitas pelo “Chiclete”). Nove meses depois, nasce o primeiro rebento, Bira da Silva Braunsberger. Acontece que a alma do menino baiano é do Afeganistão. Com 15 anos, Bira abre uma comunidade no Orkut chamada “Taliban é bambambam, Hamas ainda mais”, morre de vontade de ir para a Turquia e região, mas o corpo baiano fala mais alto e bate uma preguiça daquelas, num sabe, meu rei?!

*Jesus, como sempre, a exceção (porque era Deus), via primeiramente a alma das pessoas. Um dia, levaram um sujeito entrevado em uma cama para Ele curar. Ele olhou para o paralítico e disse “seus pecados estão perdoados”. Isto é, quando ele viu que a alma do sujeito estava em condições piores que o corpo, cuidou logo de fazer o milagre mais urgente e difícil que é restituir inocência, coisa que só Deus consegue fazer. O sujeito (que não vê a própria alma) deve ter pensado “carái, véi, deixa minha alma pra depois, quebra o galho aí e conserta minhas pernas, vai!”

Posted by César Miranda at janeiro 31, 2006 06:25 PM
Comments

Achei no perfil do Orkut de uma amiga minha. Achei muito interessante:

Em 1892, uma menina prometia obrigar-se a "não falar sobre mim ou meus sentimentos, pensar antes de falar, trabalhar seriamente, ser contida em conversas e ações, não deixar meus pensamentos vagarem e me interessar mais pelos outros".

Em 1982, as promessas de outra adolescente foram bem diferentes. "Perderei peso, comprarei novas lentes, terei um novo corte de cabelo e roupas novas."

http://www.wooz.org.br/artigobeleza.htm

Hoje tem muito mais gente fazendo Extreme Makeover do corpo que da alma.

Posted by: Adelice at fevereiro 1, 2006 06:33 AM
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