Um dia desses citei uma frase de Falcão, pensador que se perfila na tradição de Descartes, Kant, Marx etc isto é, aqueles cuja obra não se explica a si própria, o que nos faz chegar a interessante conclusão de que se a obra estiver certa, o autor está errado ou vice-versa (dentre eles Falcão é ou o mais inteligente ou o mais honesto). Essa coisa tem muita relação com o ateísmo reinante. O fato é que não se pode fugir de Deus, pelo menos como hipótese. Para qualquer tese funcionar ou você tem que recorrer a Deus como causa última ou se colocar no papel de Deus, como personagem fora do mundo, que o cria e coordena. Então quando Freud diz que nossos atos são determinados pelos nossos traumas eróticos infantis, menos a obra dele, ele se coloca como um super-homem (ou semi-deus) a quem a própria teoria que ele inventou não se aplica. É como Deus que a tudo criou, mas não foi criado. Isto é que dá colocar o homem no centro das coisas. Resulta que todos os homens querem para si o papel de Deus. O problema do pensador ateu é este: sem Deus nada se explica ou muita coisa fica por ser explicada, então o tal filósofo ateu se vê como o ungido para o papel de Deus. Quem o ungiu? Ora, ele, o deus de si mesmo. E continua ateu, o insensato, pois nem ele acredita nele, nem os outros, pois estão, os outros ateus, também crentes que cada um é que é Deus. Uma bagunça assim “culminar” em Faucault ou Falcão faz todo sentido.
Posted by César Miranda at dezembro 1, 2005 06:34 PMSrs, necessidade de manifestação a minha. Ignorem. Afinal, se eu não li Freud que que eu estou aqui dando palpite.
N. do E.: Adelice, seu comentário é a razão da existência deste blog. Jamais se censure em minha presença. Perdeu pouca coisa não lendo Freud.
Posted by: Adelice at dezembro 6, 2005 03:15 PMOlha, to pegando o bonde andando e querendo ir na janelinha. Mas, de qualquer forma, aí vai: eu não li Freud. Mas, o que moveu Freud? Foram os atos eróticos infantis ou o que determinou foi outra coisa? Foram estes atos os vitais na criação de sua teoria ou foram outra coisa? Porque se foi outra coisa, talvez ele devesse ter estudado outra coisa.
Já disse que não li. Mas me soa estranho que isto seja tão importante e que não seja o que o tenha movido.
Posted by: Adelice at dezembro 6, 2005 12:24 PMNa verdade o roteiro não é de Sartre. Sartre foi convidado para fazer o roteiro, mas quando entregou era um calhamaço tão grande que seria inviável fazer um filme dele. Os roteiristas são Charles Kaufman e Wolfgang Reinhardt, que em teoria se basearam no roteiro de Sartre, mas ele não aparece nos créditos.
Não, eu não estou fugindo do tema. Afinal de contas o tema não é o Falcão e sim a necessidade de um deus pra se explicar o que quer que seja. Você usou Freud como um bom exemplo de como a sua tese estava correta, eu simplesmente aproveitei a deixa pra mostrar que a sua tese estava errada usando um excelente exemplo: Freud. O que não implica, de forma alguma, que eu concorde com Freud.
Um abraço.
PS: Eu também li o texto do Sartre. ;^)
N. do E.: Tem razão quanto ao roteiro, mas você sabe o que eu quis dizer, aquele filme lá do John Houston, yada yada yada...
Parabéns por saber mais do que eu qual é o tema do meu post (que não é Freud, é Falcão. Só Freud não prova que a tese está errada. Para nossa conversa prosseguir, eu pedi para você substituir Freud por Nietzsche). Continuo achando que você esqueceu o que leu sobre o Freud. Já leu Renato Mezan?
A razão do C é o trecho "O fato é que não se pode fugir de Deus, pelo menos como hipótese. Para qualquer tese funcionar ou você tem que recorrer a Deus como causa última ou se colocar no papel de Deus, como personagem fora do mundo, que o cria e coordena".
Uma tese não precisa da hipótese deus pra funcionar nem colocando o autor como causa. Uma tese pode simplesmente explicar o mundo até determinado ponto e parar por aí.
Por exemplo, não é por que os cientistas não conseguem definir o que exatamente ocorreu no Big Bang que por isso nós temos que recorrer a Deus pra explicar o mundo ou nos colocar no papel de deuses.
Colocar Deus para explicar o que nós ainda não sabemos não explica nada.
E eu certamente já li a vida de Freud. Em mais de uma biografia.
Mas pra você dizer isso então você não concorda com uma das duas afirmações que eu fiz.
A) Freud nunca disse que nossos atos são DETERMINADOS por nossos traumas eróticos infantis.
Ora, isso é óbvio pra qualquer pessoa que já tenha lido Freud uma vez na vida. Embora os traumas eróticos infantis sejam vitais em Freud, daí a uma determinação de todos os atos vai uma distancia gigantesca.
B) Freud jamais se colocou de fora das suas conclusões, sendo ele mesmo um dos pacientes no qual se baseou pra escrever a sua obra.
Bem, se você discordou desta frase, então eu recomendo que você leia pelo menos "A Interpretação dos Sonhos" do próprio. Se não quer se dar a este trabalho veja o filme "Freud, Além da Alma" e veja se continua discordando....
N. do E.Não fuja da questão central do post (ou fuja, faça o que quiser! Só não me obrigue ir atrás.). Este não é um post sobre Freud, Albaney. Um dia farei um, se tiver paciência. Falemos de Falcão, que é muito mais interessante. Obrigado pela indicação do filme, por preguiçoso que possa parecer, eu não só vi esse filme como também li o roteiro, que é de Sartre.
Posted by: Albaney Baylão at dezembro 6, 2005 09:52 AMBem, eu sei que você não vai deixar entrar o texto mas é impossível não comentar.
A) Freud jamais disse que nossos atos são DETERMINADOS por nossos traumas eróticos infantis.
B) Freud jamais se colocou de fora das suas conclusões, sendo ele mesmo um dos pacientes no qual se baseou pra escrever a sua obra.
C) Chamar a Deus nossa ignorância não nos torna mais sábios.
D) Só alguém muito inocente poderia citar Umberto Eco para favorecer a causa teísta....
N. do E.:Baylão, então tire Freud e coloque Nietzsche; Tire traumas sexuais e coloque vontade de poder, yada yada. Você certamente jamais leu a vida de Freud (se leu esqueceu). (não entendi a letra C). A "D" não cabe a mim responder. Obrigado por seu comentário.
Posted by: Albaney Baylão at dezembro 6, 2005 06:27 AM"Desde que deixou de acreditar em Deus, não é que o Homem tenha deixado de acreditar em nada; passou a acreditar em tudo."
"A teoria social da conspiração deriva da falta de referência a Deus e à consequente pergunta: quem está no seu lugar?"
Duas citações de memória d'O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco.
Posted by: Paulo Almeida at dezembro 2, 2005 07:08 PM