Não devemos dizer “hei, venha ser cristão, porque é muito bom”. Devemos dizer “hei, venha ser cristão, porque é verdade”. É como dizer, “hei, dois e dois são quatro, acredite”. Não posso afirmar que a pessoa será feliz caso se torne cristão, porque um não cristão tem uma noção de felicidade tão diversa da minha, que não adianta falar em felicidade neste momento. Um argumento do tipo “perca sua vida e a ganhará” é difícil de entrar na cabeça de alguém, principalmente se partir de minha boca. Nem Cristo convenceu todo mundo com palavras. Creio, que Ele convenceu muito mais com sua vida e morte do que com as palavras que disse. Então, o que dizer, que resposta dar à pergunta “por que ser cristão?” Como convencer alguém, com palavras, de que ela deve ser cristã? Vou falar de quê? Que ela será feliz? Ela me responderá “ah, feliz como São Francisco de Assis, que vivia miseravelmente? Não, obrigado! Feliz como madre Teresa que vivia cuidando de doentes? Non, merci!” Acontece que os parâmetros de um não cristão são os parâmetros do mundo, de forma que ele só entenderá o cristianismo depois de se submeter à vida cristã. Antes disso, corre o risco de ter a impressão de que entrou em uma roubada e vai querer sair rapidinho. É uma questão de expectativa. Ser cristão é contemplar a verdade. Ora a verdade não é agradável nem desagradável, é necessária. A verdade é um pressuposto para a vida. A verdade é um caminho. Um caminho às vezes é bom, às vezes é chato. Às vezes é esburacado e cheio de lama, às vezes tem uma cidadezinha onde você encontra o melhor pastel de sua vida. A verdade nos liberta, não é uma questão de tornar agradável ou desagradável nossa vida. Apenas não temos desculpa para o erro após o conhecimento da verdade. Porém, nada impede de você estar em um quarto iluminado e bater com a cabeça na parede, ignorando a porta. A felicidade de se viver na verdade não é do tipo de felicidade que o mundo apregoa, pois é um cair de ficha, não um cair de moedas em seu bolso. Mas e o céu? Não tem o céu? Não tem a vida eterna? Jesus não vai voltar e levar os justos? Sim, tudo isto é verdade, mas quem sou eu para prometer isto a alguém? Basta se dizer cristão para ter a vida eterna? Sei não e só Deus sabe (o Papa disse há umas semanas que não precisa ser cristão para ir pro céu, basta amar e promover a paz). O fato é que não conto com isto (embora anseie), pois não vejo outra forma de viver houvesse isto ou não. Seria o mesmo que eu me rebelar contra o fato de que dois e dois não são cinco. Ao contrário disto, mesmo se eu tivesse certeza da danação eterna, ainda assim eu seria cristão, porque não sou doido de pautar minha vida partindo do princípio que dois e dois seja diferente de quatro. O que passar disto, pode parecer uma barganha com Deus, aí sim, é verdadeira loucura. Aqui, me repito, reafirmando que se eu tivesse certeza de que são verdadeiras as teses materialistas, ainda assim, eu seria religioso, é mais poético e saudável; Se o misticismo for uma forma de loucura, é uma loucura que escancara a cancela da mente. Se o materialismo for uma forma de loucura, é uma loucura que fecha a mesma cancela; e finalmente , o mistério é um dos alimentos da mente sã; Então ser cristão é uma forma de sanidade. Well, não sei, porém, desconfio que seja a Esperança, que me faz rir à toa pelo fato de ser cristão. Há outras coisas também que me enchem de euforia como saber que o Senhor é santo e basta que eu queira, um dia contemplarei sua face, pois a exigência que Ele me faz é mole, quer que eu ame e eu amo amar. O fato é que Deus, sendo amor puro, todo aquele que ama é atraído por Ele, é uma questão de uma daquelas leis de Newton. Jesus é o manual para se aprender a amar devidamente, amar com o amor de Deus. Resumo desta ópera: para quem não é cristão, ser cristão é uma revolução tão grande na vida, que eu entendo que muitos não queiram. Porém, não só vale a pena, como, embora eu tenha pavor de ser chato, entendo perfeitamente os Testemunhas de Jeová e outros grupos cristão que saem de casa em casa contando a Boa Nova para as pessoas. Mas, eu dizia, não só vale a pena como nada custa (ou dizendo de outra forma, custa uma miséria e vale uma fortuna). Então, faça um teste. Vá a uma Igreja converse com um padre de confiança (se não for com a cara daquele padre, procure outro), diga que quer ser católico. E seja por um mês. Seja sinceramente cristão por um mês. É como jogar na Sena, você estará apostando um mês em troca da vida eterna. Se em um mês, indo todos os dias à missa (é menos de 1 hora por dia, missa durante a semana é curtinha, para aprender os ritos, ouvir as leituras e as homilias), sua vida não der uma guinada “inexplicável”, volte ao que era antes (você já perdeu mais na loteria, não terá sido nada). Mas antes de ter a coragem de fazer isto, não julgue mal quem encarou Cristo de frente. O fato é que quem jamais leu um livro sobre o assunto (eis aqui três bons livros, antes que você fale mal do cristianismo leia estas obras curtinhas: Mircéa Eliade, O Sagrado e o Profano; G. K. Chesterton, Ortodoxia; e C. S. Lewis, Mero Cristianismo), quem jamais foi a uma missa, jamais se confessou, jamais rezou, orou ou conversou de alguma forma com Deus, não pode se dizer que é descrente ateu ou coisa parecida, se trata, na verdade, de um ignorante. Descrente é quem já passou por tudo isto e não foi tocado.
Posted by César Miranda at dezembro 13, 2005 10:13 PMPost antológico.
Posted by: Bernardo Só at dezembro 20, 2005 02:15 PMo cristianismo é a religião mais sentimental de todas, e quem não dá primeira importância aos sentimentos perde tudo.
Posted by: Luy at dezembro 18, 2005 09:28 AMBrilhante, meu caro. Brilhante! Brilhante! Brilhante! Não tenho mais o que falar.
Posted by: Rodrigo R. Pedroso at dezembro 16, 2005 02:04 PMCHEGUEI AGORA. GOSTEI.
Posted by: Lindinha at dezembro 14, 2005 03:13 PMSena pascalina.
Posted by: Igor Taam at dezembro 14, 2005 08:05 AMAinda q eu faça umas ressalvas - acredito q podemos receber a certeza da salvação - adorei este texto. Pensei logo em João 7:17:"Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se falo de mim mesmo".
Posted by: Claire at dezembro 14, 2005 03:30 AMO Papa foi é muito esperto ao dizer aquilo. "Aqueles que promovem a paz" são os mencionados na sétima bem-aventurança, e é muito difícil crer que Ratzinger não sabia o que dizia. Se você chegar lá na sétima bem-aventurança, bem, de fato você já está no céu.
Posted by: Pedro Sette Câmara at dezembro 13, 2005 11:36 PM