novembro 14, 2005

INVENTARAM A GRAVAÇÃO

Primeiramente leia este texto. Leu? Então pode continuar. A música é escrita para ser lida. Sempre achei isto esquisito. Basta saber ler música que você pode ouvir com os olhos (por que ninguém jamais achou bizarro tal fato?) Porém, já existe uma coisa chamada gravação, que consiste, pasmem, em registrar o som tornando possível que uma orquestra execute uma peça em Nova Iorque e depois gravado e prensado em algum meio – mídia em latim – e qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo pode ouvir aquela música tal qual foi gravada. Isto não é inacreditável? Ora, tal invenção torna desnecessário a bilhões de pessoas o estudo da leitura musical a fim de conhecer uma peça musical. O leitor pode pensar “que idiota esse César, quando eu leio uma partitura sou eu que dou minha própria interpretação, imagino meus próprios timbre, duvido que a gravação seja superior à leitura que eu faço da partitura. Nada tira o prazer de você ler sua própria partitura. A beleza da música vai perder muito com essa invenção de registrar sons. Deve ser coisa do diabo”. Eu, porém, humildemente, lhe garanto, caro leitor, que com a invenção da gravação, a música vai nos chegar muito mais bonita. A leitura da partitura será dada por profissionais que passaram a vida estudando música e lhe passarão evidentemente a visão deles da música composto, mas lhe asseguro que a visão de Karajan ou Hanonkourt de uma missa de Bach é anos luz superior a minha ou a sua, caro leitor. Deixemos a coisa com os profissionais e não percamos mais tempo aprendendo a ler música. Percamos nosso tempo com coisa mais agradável do que ler partituras e ouçamos tantas quantas forem as interpretações de uma mesma peça e escolhamos a nossa favorita. Acredite, leitor cético, há um cara chamado Cláudio Arrau que toca Chopin melhor do que todas as leituras que já fiz. Experimente ouvir e concordará comigo (salvo se você for daquele que acredita que a oração espontânea que você faz é superior ao Pai Nosso, isto é, se você acredita que a oração ensinada por Jesus Cristo é mais digna de ser rezada a Deus do que a sua, pode acreditar também que um tal de Horovitz ganha de sua leitura de partitura). Acredite, leitor amigo, leiamos apenas aquela música que ainda não foi gravada. E esperemos com fé que a tecnologia um dia nos ofereça “gravações” de romances, como acontece em nossos sonhos, dando a interpretação de pessoas mais especializadas do que nós e não tenhamos mais que ler os livros do professor Cervantes. Leiamos Tomás de Aquino, este sim, é mais difícil adaptá-lo ao teatro. Ainda. Quanto às partituras, esqueçam, ninguém precisa mais saber ler partitura para ouvir uma música. Em um mundo ideal, por mais que pareça absurda essa idéia, a música foi feita para ser ouvida, assim como uma história nasceu para ser encenada em duas horas, não escrita em 600 páginas e lida em seis meses, por Deus. O futuro já começou.

Posted by César Miranda at novembro 14, 2005 06:02 PM
Comments

Eu sempre achei que tivesse alguma coisa grande e misteriosa por trás de todas estas letrinhas...

Posted by: H at novembro 18, 2005 06:50 AM
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