Descobri um dos segredos do sucesso. Para se ganhar dinheiro com música, deve-se fazer jingles. O jingle faz parte da propaganda, não da música. Poucos gostam de música. O povo gosta é de ser seduzido. E se seduz gente é com jingles. Ouça uma sinfonia de Beethoven, a sétima, por exemplo. Aquilo é música, que por sua vez é um tipo de arte. Não existe para agradar ninguém, para fazer propaganda de nada. Foi feita e existe porque se impunha. Existe porque tinha que existir. Foi arrancada com dificuldade do cérebro de um sujeito meio maluco, totalmente mau-humorado, uma máquina humana de produzir música. Em quem produz arte há um compromisso com a própria arte ou com o próprio sistema digestivo. Neste último tipo de artista, a arte geralmente é um mero jingle de si mesma. Comparem um quadro de Dali e um de Rembrandt e vejam a diferença entre uma música do Roberto Carlos e uma sinfonia de Beethoven. Hoje, o tal jingle que se pretende arte chegou às raias do extremo. Os axés, por exemplo, há dezenas de canções que falam de si mesmas, chega a ser hilário. São canções cuja letra tem a função de ensinar as pessoas a dançarem a ritmo. Então a letra começa dizendo que aquela é “a nova dança que chegou para abalar” e em seguida informa às pessoas, que elas não se preocupem porque agora o grupo tal (o nome da banda culpada pela pérola) está ali naquele momento com um único objetivo: ensiná-los a dançar aquela nova dança. Então se segue uma perfeita receita de bolo em que a pessoa é conduzida a reproduzir os passos e movimentos necessários para a coreografia: “bote a mão no joelho, agora abaixe, bate palma, pule em uma perna só...”. São peças que jamais deveriam figurar no futuro como sendo “do nosso cancioneiro”, não peças que deveriam entrar para a história da propaganda nacional, pois é isto que são, jingles. E são tipos bem peculiares de jingles. São jingles escritos para vender-se a si mesmos, coisa então não vista nem na história do jingle.
ps – este post é um destrinchar deste.
Para comprovar a tese, sugiro "Verklärte Nacht", ou "Noite transfigurada", do Schönberg pré-dodecafônico. Há uma versão para sexteto de cordas e uma para orquestra de câmara, cada qual mais translumbrante.
Posted by: Grenadier at junho 15, 2005 01:02 PMGostei mesmo do jingle! Legal, estou rindo aqui dele.
Posted by: Adelice at junho 15, 2005 08:40 AMÉ :-)
Eu me lembro de uma lambada cuja letra ficava dizendo insistentemente: "dançando lambada, dançando lambada". Eu achava esquisito.
Boa semana.
Posted by: Alfredo at junho 14, 2005 11:40 PMThata, a um pensador (nós somos pensadores, viu?) cabe pensar e retratar a realidade como a vê. Esse compromisso com a verdade torna geralmente os pensadores humoristas porque a verdade é uma graça. Já escrevi aqui que o blogueiro é um mero palpiteiro. Um palpiteiro é sim uma vítima de jingles, não um fazedor deles. Quando me virem fazendo propaganda de mim mesmo por aqui, me avisem que eu deleto. Eu não valho um jingle (muito menos um jingle meu). Só uso este espaço para dizer o que vejo e torço sinceramente para que o leitor, enquanto ler, esqueça que eu existo. Quem se expõe, mesmo em um blog, corre riscos de ser acusado de padecer de SIVA (Síndrome da Irresistível Vontade de Aparecer), mas cada tem contas a prestar com sua consciência e sabe afinal de contas porque se expõe. No caso dos artistas que vivem de sua arte, já escrevi muito sobre eles por aqui, até se justifica alguém que tem filho pra criar trair sua arte e fazer jingles, porém um blog – que é algo que só dá prejuízos – com algum autojingle não é digno de nenhum respeito. Em lugar da vida, um jingle só se justifica como se justifica o assassinato em legítima defesa.
A idéia não é má, qualquer dia desses escrevo um post-jingle, orientando o leitor como deve ler o Pró Tensão, dizendo que este é o novo (!) blog que chegou para abalar, que ponha a mão no queixo, dê uma ajeitadinha nos óculos, coce a nuca, faça sim com cabeça leia o texto até o fim e morra de rir, pois este é o Pró Tensão, o blog que chegou pra divertir.
Thata, um bejim.
Grenadier, um grande abraço.
E o seu texto (e o meu também, que são do mesmo tipo, afinal), não é um texto publicitário de si mesmo, ou de nossas idéias? (não é provocação não, viu? é que me veio esse questionamento a respeito dos meus textos depois de ler o seu,,,coisa de publicitária ressentida hehehe) Bjs!
Posted by: Thata at junho 14, 2005 03:43 PMBravo! Música digna desse nome é mesmo o que tinha de ser.
Posted by: Grenadier at junho 14, 2005 01:04 PM