A poesia e a música são muito importantes para que memorizemos aquilo que não tem a menor importância. Nos cursinhos para vestibulares musicam quase todos os textos principalmente aqueles preciosos que dizem como surge a notocorda do anfioxo ou qual é o apótema do hexágono circunscrito em um circulo. Essa prática dos cursinhos é magnífica. Intuitivamente eles juntaram o que de mais inútil existe – arte e informação irrelevante - para um fim supostamente útil – passar no vestibular. É importante ter feito uma faculdade caso algum dia você seja preso. Nessa condição de graduado, lhe dão uma cela especial, isto é, uma sala com uma cama onde fica sozinho, enquanto os presos comuns dão churrascos e falam ao celular, você fica lá maldizendo o fato de ter feito curso superior e canta aquela velha canção que aprendeu no cursinho “espongiário, celenterado / platelminto, nematelminto / anelíííídio...”. Se na escola se ensinasse aquilo que tivesse alguma função na prática da vida, ninguém precisaria perder tempo a fazer canções cujas letras são tiradas dos livros de química orgânica. Quanto mais canções houver, mais inútil é a matéria, pois se para aprender algo útil nem de escola precisamos, imagine de canções. Nas escolas de música, será que quando surge uma peça bem difícil de ser memorizada, eles inventam uma musiquinha para facilitar?! Nas cozinhas na roça, será que as mães inventam canções para que a menina aprenda fazer o arroz?! Seria Caymmi um professor de culinária?! Não, Caymmi é um gênio do nosso cancioneiro e quem faz vatapá não é obrigada a gostar de música boa. Fazer música ensinando alguma coisa é pura falta de assunto de compositor. A arte não deve ser prestar a essa coisa de ensinar alguém o que quer que seja. Ensinar é lá na escola. Qualquer coisa que contamine a arte com alguma utilidade, tira da coisa a característica de arte. Um poema épico é um épico, não é um poema. Uma música-aula é uma aula, não uma música. Um jingle não é uma canção (jingle não é arte). (mais um parênteses, muitas canções por aí são puro jingle, são escritas puramente para vender ou a si mesma ou o artista, não são arte, são jingles - falarei mais disto em futuro post). Um samba-de-roda receita, é uma receita, não um samba-de-roda, salvo se esse samba-de-roda for de Caymmi. Duvido que alguém pegue a música de Caymmi e vá fazer um vatapá, principalmente porque mestre Dorival vai logo dando uma de mal-humorado de cara “quem quiser vatapá, que procure fazer (ora bolas)” e indica o caminho das pedras “procure uma nega baiana que saiba mexer”. Então “Vatapá” (a canção) como receita é uma bela canção praieira. Se alguém fizer uma receita de bolo naqueles moldes não ia dar certo. (quebre um ovo, um bocadinho mais, farinha de trigo, um bocadinho mais), como assim “bocadinho”? O que é um “bocadinho”? Talvez um cozinheiro saiba do que se trata um bocadinho. Dito isto, me lembrei de quando fiz o meu cursinho para vestibular. Lá, instituímos que “uma porrada” corresponde a 20 unidades. Quando alguém dizia, “fui lá naquela livraria e comprei uma porrada de livros”, significava que comprara 20 livros. Terminou o cursinho e não chegamos a conclusão quanto à quantidade de “um magote”, “uma pancada” etc Deveriam instituir essas coisas “um bando de gente”, por exemplo, poderia ser definido como 1256 pessoas. Mas é só uma idéia que me ocorreu.
ps - evidentemente que este post é dedicado a meus amigos de toda a vida Adalberto de Queiroz e Flávio Godinho que conheci no Método, nosso cursinho de vestibular.
Posted by César Miranda at junho 10, 2005 06:35 PMParece que foi ontem e já vai para uma porrada de anos. No cursinho tinha macete para não se esquecer um magote de coisas. Mas o que de mais inesquecível ficou mesmo foi esta nossa amizade!
Posted by: O!/\@|£ at junho 13, 2005 04:37 PMCaro amigo CÉSAR,
Merci! Bons tempos aqueles do Método.
Aparece lá no Verbeat. Hoje à tarde deve ter un nouveau courrier.
Amitiés, BetoQ.
Então o Jingle Bells vende o quê? Sinos?
Um tanto assim, com o falante mexendo os dedinhos, significa dez, certo?
Abraços,
Felizmente, não ando ouvindo muitas trilhas sonoras de cursinho. Agora sei o quão privilegiado sou, sendo um vestibulando nada musical. Acho que também irei adotar valores fixos pra "porrada", "monte" e "pra cacete". Desculpa plagear a idéia.
Posted by: Altamiro Diniz Neto at junho 10, 2005 11:52 PM