maio 18, 2005

FRUGAL

A fábula da lebre e da tartaruga é uma das mais sábias. As duas fazem uma aposta de quem chegaria em primeiro lugar na maratona de São Silvestre da selva. A lebre certa de que ganharia trata a tartaruga como se ela fosse uma lesma. A tartaruga nem um pouco preocupada, trata a lebre como uma igual e passa sebo nas canelas. Baltazar Gracian diz que devemos tratar o fácil como difícil e o difícil como fácil. A lebre da história não leu o sábio padre, não por insensatez, mas pelo curioso fato de que a frase nasceu século depois da história. Por isto, aconselha-se às lebres de hoje que leiam as sábias letras. A tartaruga, não que tenha lido Gracian, talvez por ser assim uns três séculos mais velha e por isto mais sábia que a outra corredora, tratou o difícil como se fosse fácil jamais se esquecendo que o tratava como fácil justamente por ser muito difícil e assim se deu muito bem. A disciplina da tartaruga vence a soberba da lebre que perde uma corrida ganha segundo todos os Institutos Esopo de Pesquisa. O autor da fábula dá à indisciplinada lebre também uma empáfia que faz o leitor antipatizar-se com ela ao primeiro contato. Porém, a indisciplina é característica de muita gente boa e a disciplina de muitos obstinados que são insuportavelmente chatos, mas deixando de lado a chatice, o ideal é que tenhamos a disciplina da tartaruga e a rapidez da lebre. Se, porém pudermos escolher é melhor ter disciplina, pois a falta dela é um tipo de lerdeza. O que é uma lebre sem disciplina? Uma lesma, isto é, um bicho mais lento do que uma tartaruga. O certo é que devagar se vai ao longe, como diz minha mãe, muita gente vive como se não acreditasse nisto. E essa sábia frase serve para muita coisa. Para o fazer e para o deixar de fazer. Para o fazer o bem e para o fazer o que é errado. Tudo que é feito de forma reiterada mesmo que vagarosamente, rende muito. Desde uma pequena poupança até um pequeno esquecimento. O brasileiro, creio, não acredita direito nisto, já perdemos até copas do mundo de futebol porque tratamos o fácil como fácil (não sei por que, mas quando reli essa fábula achei a lebre muito parecida com o Romário).

O brasileiro é a lebre da história, aliás com tantas outras características que se dão às lebre, inclusive a promiscuidade. Uma dos exemplos de que o brasileiro não crê que quem segue devagar e com constância sempre chega na frente é a nossa pouca prática de poupar. O brasileiro para poupar precisa ir para o Estados Unidos lavar pratos, enquanto isto os brasileiros que lavam pratos aqui seguem reclamando da vida e vivendo como se o salário que ganha fosse menos do que merece. Na verdade é uma característica de país pobre o não costume em poupar. E como o Brasil, o país que não poupa é pobre porque não poupa, embora diga sempre que não poupa porque é pobre. Guarde cinco ou dez por cento do que ganha todo mês e veja o que acontece. A inércia é algo poderoso. Jamais se recuse a poupar um dinheiro somente porque é pouco. Esqueça que seu salário é cem, faça as contas para viver com noventa e guarde dez. Fácil assim, não é um esforço tão grande e a médio ou longo prazo você terá deixado de ver vários filmes vagabundo, pois será mais seletivo já que só ganha noventa, terá ido só a lugares realmente interessantes, lido somente ótimos livros, tudo porque tinha que economizar os dez. Dez que acrescidos de outros vários dez lhe permitirão talvez trocar de carro ou comprar. É fácil assim, acredite, você ainda vai me agradecer por ter perdido minhas noites de sono escrevendo estas linhas. O contrário também é verdade. Se você gastar todo mês dois por cento a mais do que ganha, em breve estará quebrado. Se você ganha cem e gasta cento e um em breve estará fazendo papagaio em banco sem entender porque seu amigo que ganha o mesmo tanto que você acaba de trocar de carro. Pergunte a ele, ele lhe dirá e você descobrirá que nos cinco anos que trabalham juntos, você gastava cento e um por mês e ele gastava noventa e cinco. Diferença pequena, mas suficiente para em cinco anos permitir a ele trocar de carro e a você tomar dinheiro emprestado para pagar as dívidas. A matemática é implacável, não existe pouco ou muito neste caso e sim mais e menos. Assim como é uma minúscula rachadura a responsável pelo afundamento do grande navio, assim os pequenos gastos quebram e as pequenas poupanças salvam. Do mesmo jeito, absolutamente igual é a alimentação. Se você já almoçou, recuse-se a comer qualquer coisa. Se não tem fome, não coma. A impressão que tenho é que há uma fome eterna nas pessoas, certamente não é de comida, mas elas acham que é e se recusam a parar de comer. O problema é que comida engorda e ninguém quer ser gordo justamente porque quase todo mundo é, até os pobres. Não é só a qualidade do que se come que engorda. Qualquer bobagem se você comer demais, vai lhe tornar mais gordo. Esqueçam vilões como as pizzas, o chocolate, a costelinha de porco, o que mais engordam as pessoas pelo primeiro, segundo, terceiro, quarto e quiçá quinto mundo são as coisas mais ensossas e sem graça que se pode imaginar. Aquele ser humano normal que não liga para o politicamente correto da alimentação e almoça um pratão de arroz, feijão, macarrão, picanha e batata frita acompanhado de uma Coca-Cola, provavelmente depois da ingestão dessa bomba calórica fica com dor na consciência e só come novamente no jantar e talvez o tal jantar seja uma boquinha bem light. Porém o outro que dá ouvidos a nutricionista e está com uns quilinhos a mais, não quer ficar com dor na consciência, almoça um pratinho bem leve com muita cenoura, alface, um bife magro de frango e um suco de mamão, pronto, fica todo cheio de razão com o moral elevada por ter feito algo correto para a saúde e, com fome duas horas depois, o que faz? Abre um pacote de bolacha de água e sal (a top one das invenções bizarras, logo à frente da pipoca) e passa a tarde inteira comendo aquela coisa insípida crente de que não está comendo nada. No final das contas não emagrece nada (porque passou o dia comendo) e nem teve prazer ao se alimentar. Seria melhor se as pessoas se restringissem a tomar café, almoçar e jantar, mas comer, parece, é a razão da vida da maioria das pessoas. O povo vai para o estádio para comer, para a praia para comer, para o cinema para comer (como alguém pode trocar uma pizza por pipoca?), há até tarados que vão a motéis para comer. Quando enfrentam a balança pensam sinceramente, "não entendo, eu quase não comi". Pois sim! Quase mesmo. Esse negócio de emagrecer é muito fácil. Quer emagrecer e sente fome, o que fazer? Nada, meu amigo. Se você quer emagrecer e está com fome, significa que você está emagrecendo, fique feliz por isto. Você engordou porque comeu demais, logo a única forma de emagrecer será passando fome mesmo. Mamar no boi não quer, né?! A fome em um gordo deve ser almejada, buscada e dada boas-vindas quando chegar. Você escolhe, quer continuar gordo ou passar fome? Resumindo, para emagrecer há que se parar de comer tanto, para isto há se ter a consciência pesada por ter comido bem. Aí está um ótimo exemplo prático daquela frase de Blake de que o caminho do exagero leva ao palácio da sabedoria. Não aprenderá nada quem não mergulhar fundo naquilo que lhe interessa. A frugalidade, ao contrário, é uma fuga em direção a um atalho que levará ao palácio da frustração.

Posted by César Miranda at maio 18, 2005 07:19 PM
Comments

A arte da fruga.

Posted by: Grenadier at maio 19, 2005 01:33 PM

Esse texto poderia estar na parede de algum SPA.

Vou lhe dizer, César, se as pessoas fizessem mais sexo do que comem (sem trocadilho) seriam mais esbeltas. (esbeltas...palavra estranha)

Posted by: Fernando Henrique at maio 19, 2005 10:20 AM

Duas coisas inúteis, comer e dormir, o tempo que perco fazendo essas inutlidades, poderia estar, quem sabe, lendo "A Arte da Prudência", que é pequeno, confesso, mas o tempo é menor ainda.

Posted by: J. Alencar at maio 18, 2005 11:47 PM
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