maio 23, 2005

E AÍ, BELEZA?

Não seja muito franco, é feio. Não se deve fazer nada feio. A beleza deve ser sempre o maior dos critérios. Se os critérios estéticos estivessem acima das vontades, seria um progresso. O topless, por exemplo, deveria seguir apenas os critérios da beleza. Se for bonito, deve mostrar, esconde o feio. Com isto evitaríamos pelos menos a maioria das bienais de arte e dezenas de programas de TV. Seria ou não seria um enorme progresso? A honra, por exemplo, é linda. Se abríssemos mão da honra não se escreveria centenas de magníficos romances nem se faria centenas de filmes maravilhosos. Nem sei se é possível abrir mão da honra e do respeito ao adversário e fazer um filme de caratê. Não tem como, porque as lutas marciais só são bonitas por isto, uma obediência irrestrita a várias regras de cortesia. Mesmo os vilões mais malvados têm vergonha da cara. Sem isto, não haveria beleza na briga. A honra, a delicadeza, o respeito, a polidez são coisas belas porque onde há, também há a beleza. Então voltamos ao começo do texto. Não seja muito franco. Muita franqueza é falta de educação. E a falta de educação é feia. Diga apenas até onde sua fala puder ir com fineza. Não seja mal educado inclusive com quem não merece sua educação. E quer saber, a educação irrita e desarma os mal educados. Esse meu sonho de pancalia é meio complicado porque ocorre uma coisa interessante. É o fato de que o que é belo para mim pode ser feio para você. E ocorre também coisa pior, tem gente que acha bonito ser feio. Lembro de um cantor de rock pesado que dizia que colocava farinha e maçã na boca enquanto cantava para o som ficar ainda mais feio (usava exatamente essa palavra “feio”). Na música normal, isto é, na menos barulhenta há também escolas, correntes e movimentos no sentido deliberado de tornar mais feio o que existe. Desde o “preparo” de instrumentos, tipo colocar parafusos e pregos entre as cordas dos pianos, até idéias bizarras como uma “peça” que consiste no silêncio, tudo isto são ensaios propositais de tornar feia a música. Essas manifestações artísticas certamente não ficam feias e desagradáveis assim do nada. Há todo um esforço, laboratório e muito estudo. Os compositores seriais/dodecafônicos são músicos tecnicamente bem preparados. São maestros, doutores dos sons. Se um Zé Mané qualquer propuser uma sinfonia de pausas ninguém lhe dará ouvidos (em sentido figurado ou não). São, mal comparando, como a maioria dos intelectuais que estudam a vida inteira para se tornarem as maiores bestas da paróquia. O intelectual padrão de hoje em dia é aquele que adotou o método mais dispendioso de se tornar um idiota. Tornou-se idiota depois de muito e arduamente estudar, o que o torna duplamente idiota. Interessante é que essa burrice estudada, essa bizarrice preparada só é possível nas artes, pois é absolutamente impossível em qualquer outro ramo do conhecimento. Um engenheiro civil que se torna doutor ou um médico depois de dezoito anos de vida acadêmica, pessoas assim são em regra especialistas confiáveis em suas áreas, a quem damos nossa vida em confiança. Um intelectual, porém que admira Stalin e Fidel, não é digno que se confie nem um tostão. E um compositor de barulhos não é nada diferente do compositor de silêncios.

Posted by César Miranda at maio 23, 2005 07:03 PM
Comments

Alfredo, estamos todos ansiosos por sua estréia no Oito Colunas.

Posted by: César Miranda at maio 24, 2005 11:05 PM

Oi, César; vi em vídeo uma vez o próprio Cage tocando 4'33'' ao piano numa esquina de Nova York :-)

Tem até mp3 para pegar na Internet! (nunca peguei...)

Apesar de gostar de muitas das coisas "feias", eu concordo com as suas colocações, para falar mais sério.

Posted by: Alfredo at maio 24, 2005 10:52 PM

Não quer calar: pode um piano preparado salvar um pianista despreparado?

Posted by: Grenadier at maio 24, 2005 04:25 PM

Francamente, mas, assim, com todo o respeito: eita texto bonito, rapaz!

Posted by: thata at maio 24, 2005 12:11 PM

Alfredo, pena que eu não tenha ouvido nenhuma obra de Cage. Mande-me algo. Aliás, 4'33" nem eu nem ninguém ouviu. Um grande abraço.

Posted by: César Miranda at maio 23, 2005 10:03 PM

Cage é legal, César :-)

Piano preparado é exótico. Quanto ao 4'33'' (do silêncio), hoje soa muito anos 50 :-)

Posted by: Alfredo at maio 23, 2005 08:39 PM
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