A Daniela Abade
Não sei quando nem onde a arte ganhou esse status de ... de ... de arte. Olham para a arte como se fosse algo superior aos outros ramos da cultura e para o artista como o mais abençoado dos seres. A grande qualidade do artista talvez seja o fato de assinar seu produto. Deve ser só isto que o difere dos demais produtores. Se um cozinheiro assinasse sua obra, você anotaria em um papelzinho e quando voltasse lá no restaurante exigiria outro prato com aquela assinatura. Assim também seria se você soubesse exatamente quem fez ou montou seu micro, fez seu copo, encadernou o livro que você lê. Mas não há como saber, já a música que você gosta, você sabe quem fez. O livro que você ler, você sabe quem escreveu. Algumas idéias que você tem talvez não saiba de onde vieram, mas se o sujeito não for como aquele meu amigo que diz que se pode usar a vontade o que ele escreve contando que não citem a fonte, certamente foi alguém facilmente identificável e possível de que você venha a concordar ou se interessar pelas outras coisas que ele escreve ou diz e estará lá você endeusando o sujeito, sem perceber que isto é, literalmente, pré-conceito. A arte é responsável por boa parte do preconceito no mundo. Quando você ouve uma música do Chico Buarque e gosta, ouve outra e gosta, ouve outra e mais outra e mais outra e mais outra e vai gostando, você conclui perigosamente que tudo o que ele fizer é bom. Isto é preconceito. O mesmo raciocínio vale para o Wando, que você preconceituosamente julga um artista menor porque toda música dele que você ouviu até agora não lhe agradou. O artista é também o inventor do direito autoral, um mal, obviamente. Com o direito autoral, proíbem até que alguém cante uma canção. Com o direito autoral engendra-se uma adoração digna dos deuses aos seres humanos mais reles. Gente da pior espécie, que por acaso escrevia boas peças, são exaltados como se fossem superiores ao resto da humanidade, quando, em alguns casos, são na verdade muito piores e esse endeusamento apenas piora ainda mais o caráter da besta, pois infla o ego do artista (mau caráter ou não). Há também a bilheteria, grande invento, o que torna o artista o ser menos generoso da história. É esse o sujeito que todos gostariam de ser. É essa adoração que todo profissional gostaria de ter, essa adoração que tem alguém dono da profissão das mais danosas à alma humana. O ser humano, pelo jeito, não apenas quer a morte como dizia Freud, como, pelo jeito, quer também a danação eterna. Então se vê todo tipo de gente querendo ser chamado de artista. Flanelinha, cozinheiro, jogadores de futebol (há até o futebol-arte, seja lá o que isto signifique), serial killers, todos loucos para ser "artista", cada um a seu modo. Falando em serial killer, tenho nítida essa impressão do ideal artístico que têm os criminosos.Não é à toa que as pessoas assistem a brigas (o boxe, os filmes de lutas marciais) como quem vão a um concerto de rock. Tudo o que um serial killer almeja é que o chamem de artista. Para isto ele terá que fazer por merecer. Terá que fazer com que as pessoas vejam além do macabro de suas ações. Ele quer que “o entendam”, como todo artista. Até chegar ao ponto que muitos chegaram, de entrar para a história real e do cinema e poder viver tranqüilamente fazendo suas artes por aí (por falar nisto, nos velhos é que está a sabedoria mesmo, afinal quando diziam que um menino “faz muita arte” não se trata de elogio e sim de uma repreensão das mais sérias, menino que fazia muita arte geralmente entrava na surra de cinto com freqüência, para corrigir esse desvio de conduta que é essa vontade de ser artista). Voltemos ao assassino de cereais (fiz um trocadilho, perceberam? “cereal killer”, que é um sujeito que costuma tocar fogo na plantação dos vizinhos, hoje eu estou de morte). Um serial killer experiente, alguém assim com uns cinqüenta crimes nas costas, ídolo dos criminosos juvenis e mirins, de quem os outros criminosos invejam e tentam bater os macabros recordes, pois bem, alguém assim não o faz por mero divertimento, é alguém que tem amor ao que faz, alguém que quer levar a maldade ao status de arte. Além disto é um especialista naquilo que faz. Estuda, pesquisa, faz laboratório antes de executar sua vítima. Estuda também forma de mascarar cada corte, cada tiro, cada mínima tortura. Trata-se também de um jogador, pois ele sabe que do outro lado também há um especialista como ele, porém com muito mais infraestrutura. Esse oponente do serial killer é alguém que estudou com os melhores professores, que passou em um concurso onde centenas concorriam e se passou é por que realmente é alguém excelente naquilo que faz. Um assassinato é apenas um jogo de xadrez entre o serial killer e o legista e os homens da lei que têm como função reconstituir o crime a fim de descobrir quem o cometeu. Então imaginemos um assassinato cujo executante queira entrar para a história e ser visto com admiração e respeito. Ignoremos o sofrimento da vítima, não é disto que se trata estas elucubrações. Então imagine uma cidade onde ocorrem dezenas de crimes cujo executante é... o legista da cidade. Um legista assassino, um serial killer que sabe tudo de crime, e se vê com freqüência perante corpos que foi ele mesmo quem trucidou e deve fazer a autópsia. Enquanto um criminoso que não ele mata, pensa “dane-se, eu não sou o legista”. Mas é ele o legista. Que deverá pegar o corpo do morto e fazer um relatório detalhado de como foi o tenebroso crime. Ele se cansa daquilo antes de começar. Pensa em tudo o que fez, no prazer que teve ao fazê-lo, em cada corte, cada punção, enfim e pensa o quanto o mundo é cruel, o quanto a vida é injusta, o quanto a existência é irônica e se enfurece porque evidentemente que aquilo é exigir muito de um ser humano. Tudo é possível e aceitável, menos alguém ser legista dos crimes que cometeu. Tudo o que ele sonha é que contratem um legista para o seu lugar. Ele gosta de legislar, digo, de fazer autópsias, aquilo lhe ajuda na sua carreira principal de serial killer. Ele jamais abandonaria a autópsia porque é lá que lhe vem a inspiração, é lá o melhor laboratório para seu hobby. É lá, pode mesmo se dizer, de onde brota toda sua felicidade. Sem a autópsia sua vida seria vazia e sem nenhuma poesia. Porém, tudo tem limite, fazer autópsia do próprio crime é um crime, é uma tortura pela qual não se deve submeter um ser humano normal como ele, mero serial killer que quer apenas levar sua vida sem ser incomodado por ninguém. Essa história me ocorre sempre a ponto de se ter tornado recorrente quando que tenho que corrigir o que escrevo. Sempre que devo ser meu próprio revisor. O certo é que não se pode confiar em revisores. Todo livro sai cheio de erros. Erros de revisão saltam aos olhos sempre que o escritor abre seus próprios livros e se prepara para impressionar alguém. “Veja, Nicole, que belo palíndromo este que escrevi”, Nicole olha e diz “mas, isto aqui não é palíndromo, tá sobrando um agá”. E a culpa é sua que não revisou devidamente seu livro e acreditou naquele miserável que trabalha na editora. Todo autor sonha em esganar um revisor, assim como todo escritor de televisão sonha esganar atores. Então, não tem saída. Depois de escrever um romance de quinhentas páginas, você mesmo deverá levá-lo ao necrotério e analisar detidamente o que foi feito. É assim que me sinto ao escrever um texto enorme – como este - depois ter que ler letra por letra analisando cada sintaxe, putz. É o mesmo que matar alguém e ter que fazer a autópsia.
Posted by César Miranda at abril 28, 2005 08:00 PMoi eu sou a ana e axo k deveriam por mais assuntos destes na internet. pois axo k sao axuntos onde nos podemos ver realmente kem nos rodeia.. bjx continuem..
Posted by: ana at setembro 24, 2005 11:26 AMtenho o nome do diagramador do meu "os maias". chama-se edinilson ferreira gorgulho, nasceu em 1945 e morreu em 2002, de câncer na próstata. você não viu ele na capa da cult?
comprei outros livros que ele diagramou. de calrice lispector em sânscrito a uma edição pornô de "quem mexeu no meu queijo?". estou esperando as obras póstumas e completas, pela companhia das letras, 59,00 cada uma, capa dura.
prefiro ele a camões. que, por falar nisso, não sabia diagramar.
Posted by: rodrigo lemos at abril 29, 2005 06:36 PMNão, FH, sou um biófilo.
Posted by: César Miranda at abril 29, 2005 11:33 AMVocê é um necrófilo.
Posted by: Fernando Henrique at abril 29, 2005 11:10 AMUm preconceito contra o Wando é algo saudável. Ele pode vir a compor algo que preste, mas é melhor nunca arriscar. Claro que os nazistas podiam julgar que o preconceito contra judeus era tb algo saudável, mas canções se prestam a classificações categóricas - seres humanos, não. Ok, alguns seres humanos se prestam a classificações categóricas. Pode me classificar como chato, que é o que estou sendo agora.
Abraço.
Posted by: ludovico at abril 28, 2005 10:38 PMO problema é quando você perde TODO o documento no computador e pede para um dito profissional redigitar. Cada vez que você faz a autopsia de seu suposto crime, vê que há muito de crime alheio por lá.
Mas deixa estar. Não vou me aborrecer mais com isso.
Beijo.
Posted by: Daniela at abril 28, 2005 09:36 PM