abril 22, 2005

O LIVRO LÊ

Marcel Proust dizia que jamais duas pessoas lêem o mesmo livro. Grande verdade. Quando me perguntam que livro estou lendo, me pergunto que serventia teria essa informação para a pessoa. Quando me pedem para recomendar algum livro, fico mais perplexo e não entendo como isto poderia importar. Um dia desses uma amiga me dizia que alguém indicou um livro tal para ela para tal e tal propósito e por coincidência eu já tinha lido o tal livro. Tive que pensar bastante para entender a razão da indicação, pois para aquela tal coisa, o livro a mim não disse nada. Depois buscando, buscando, lembrei de alguma coisa que talvez fizesse sentido na indicação. Se a mim ela pedisse a mesma coisa, eu jamais indicaria aquele livro. A indicação de um livro por quem respeitamos só nos fará tentar repetir a experiência dele e assim abdicamos da nossa. Um livro é lido e lê ao mesmo tempo. Se todo mundo escrevesse um livro a respeito do livro que leu, muita coisa interessante se veria. E não estou falando da burrice de vários leitores. Estou falando mesmo é da necessidade de cada um enquanto lê um livro.

Posted by César Miranda at abril 22, 2005 10:06 PM
Comments

Em "Le vol du vampir - notes de lecture", Michel Tournier diz (pp. 10-11) que "a vocação natural, irreprimível do livro é centrífuga. Ele é feito para ser publicado, difundido, lançado, comprado, lido. A famosa torre de marfim do escritor é na verdade uma torre de lançamento. Volta-se sempre ao leitor, como ao indispensável colaborador do escritor. Um livro não tem um autor, mas um número indefinido de autores. Pois ao que o escreveu se ajuntam de pleno direito no ato criador o conjunto dos que o leram, o lêem e o lerão. Um livro escrito, mas não lido, não existe plenamente. Não possui senão uma meia-existência. É uma virtualidade, um ser exangue, vazio, infeliz, que se esgota num apelo de ajuda para existir. O escritor sabe disso e, quando publica um livro, solta na multidão anônima dos homens e das mulheres um enxame de pássaros de papel, de vampiros secos, sedentos de sangue, que se espalham ao acaso em busca de leitores. Mal um livro cai sobre um leitor, incha-se de seu calor e de seus sonhos. Floresce, expande-se, torna-se enfim o que é: um mundo imaginário abundante, onde se misturam indistintamente - como no rosto duma criança os traços de seu pai e de sua mãe - as intenções do escritor e os fantasmas do leitor. Em seguida, terminada a leitura, o livro esgotado, abandonado pelo leitor, esperará um outro ser vivo a fim de fecundar por sua vez sua imaginação, e, se tem a sorte de realizar sua vocação, passará assim de mão em mão, como um galo que carimba (tamponne) sucessivamente um número indefinido de galinhas".

Posted by: Grenadier at abril 27, 2005 02:43 PM

César, meu caro:
Esse seu courrier motivou-me a rabiscar um texto lá no Zadig. Amitiés, BetoQ.

Posted by: Zadig at abril 27, 2005 10:55 AM

Oi Magaly, obrigado pela visita. Você pode fazer o que quiser com meus textos. São seus.

Posted by: César Miranda at abril 23, 2005 05:42 PM

César
As complicações da vida tiram a gente da jogada. Nunca mais havia vindo cá como a outros blogs que costumo visitar. Resultado: perde-se muita coisa interessante em matéria de informação, de produção literária, de passagens lúdicas, tanta, tanta coisa boa!
Essas considerações que vc teceu em torno da leitura de um livro são observações interessantes que nunca me tinham passado pela cabeça. Oa argumentos com que o comentarista rebateu também pertinentes, abrindo portas para outros aspectos, novos julgamentos. Vocês são realmente de um nível intelectual apurado. E isto é que é excelente na internet.

Adorei e até copiei pra mim, seu poema Sinais, muito bom mesmo e o microconto do farmacêutico. Posso divulgá-los?

Já falei demais. Mas é que me entusiasmo quando encontro coisa boa na internet.
Abraços.

Posted by: Magaly at abril 23, 2005 05:28 PM

Martim, você matou a charada, eu realmente acho que o autor foi para o brejo. A “leitura em si” é uma experiência platônica, mas a realidade não é platônica. Muitos poemas herméticos assim permanecerão para sempre! Até coisa reles como um post eu já fiz só para mim e, para todo o sempre, a possibilidade de alguém entender “o que eu quis dizer” é ínfima. Por outro lado, há livros que são verdadeiros oráculos e cada um encontra dezenas de significados ali dentro e as marcas que o tal livro deixa em alguém são de conseqüência maiêutica e voltamos a Platão novamente (ou seria Sócrates?!), levando o autor para o brejo. Qual o autor que não vai para o brejo? O absurdamente hermético ou aquele que lê a si mesmo (quando o fizer), isto é, duas criaturas pra lá de raras. Que coisa, hein! Saudade de você, de verdade. De você pessoalmente e de seu texto, que todos nós gostamos muito. Quando for a São Paulo, gostaria de vê-lo novamente, com mais calma desta vez.

Posted by: César Miranda at abril 23, 2005 09:37 AM

Prezado César:

A sua observação é pertinente, mas creio que vc confundiu duas coisas. A primeira é a experiência da leitura; a segunda é a leitura em si. Na experiência da leitura, é claro que o sujeito deve estar "aberto" para ler um determinado livro; entenda-se que ele deve estar num determinado momento de sua vida ou numa determinada disposição para entender exatamente o que o autor quis expressar. Na leitura em si temos os dados objetivos; ou seja, o modo pelo qual o autor conseguiu expressar seu pensamento e, com isso, afetar a consciência do leitor.

Se vc acreditar que cada leitor lê um livro diferente, então o autor, com toda a sua técnica e todas as suas intenções de atingir o leitor, foi para o brejo.

Lembre-se que, seja em romance, poesia ou ensaio (e até mesmo em filosofia), há sempre alguém querendo ser comunicado a outra pessoa através de uma expressão - e esta expressão obedece a certas regras e métodos. Agora, quanto à experiência de leitura, sempre ficamos dependentes do que ocorreu e do que ocorre nas nossas vidas para entendermos a experiência que o autor quis transmitir - mas a expressão desta mesma experiência permanece com todas suas consequências explicítas ou sugeridas, independentemente da nossa "abertura".

É por isso que, quando lemos um poema aparentemente hermético, não o entendemos numa primeira leitura e somente perceberemos a clareza de sua expressão com o passar do tempo porque, afinal, a nossa experiência de vida nos deu os meios necessários para entendê-lo devidamente.

Abraços

Martim

Posted by: martim vasques at abril 22, 2005 10:28 PM
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