Eu falo póst (e não pôst como a maioria). Os moradores de Pernambuco falam Pérnambuco (e não Pêrnambuco como a maioria). Ora, os pernambucanos sabem muito bem o nome do próprio Estado. O sotaque para muita gente é "a fala diferente". Diferente de quem, cara-pálida? Eu não sabia que falava com sotaque, até chegar em Goiânia. Ora, goiano também fala com sotaque, mas para eles era eu quem falava diferente. Só um robô não tem sotaque. Robôs do futuro terão sotaque para ficarem mais parecidos com gente. O pessoal do interior paulista "puxa" o "R" mais do que os goianos, que nesse particular chegavam a soar irritantes para mim quando cheguei a Goiânia, cheio de "meu" sotaque de filho de maranhenses. No Nordeste, os paraibanos percebem o sotaque dos pernambucanos, os alagoanos devem ter algum preconceito com o "fala diferente" dos piauienses, etc. Nós aqui, não. Para nossos ouvidos preconceituosos, todos são nordestinos, isto é, são todos do "mesmo lugar". Depois reclamamos quando os americanos nos colocam no mesmo balaio dos argentinos, bolivianos, chilenos, peruanos etc. Não é diferente como o resto do país trata o sotaque do nordeste. Eu vim do Pará. Muita gente em Goiás, cheia de (falsa) razão, confunde o Pará com a Paraíba e o Norte com o Nordeste. Qualquer pessoa que tenha conhecido um desses lugares sabe o quão são radicalmente diferentes, muito mais do que o Rio com São Paulo, no entanto ninguém confunde o Rio com São Paulo ou com Porto Alegre. Quando alguém diz que Nova York fica na Europa todos riem e colocam logo o chapéu de burro na pessoa. Pois eu já vi uma senhora paraense indignada porque disseram que ela se parecia com uma nordestina. Parecia mesmo, mas não era e ela não gostou nem um pouco de não ser identificada com o que realmente é, uma belenense. Dizem que os baianos não gostam de ser chamados de nordestinos. A Bahia, que não é um Estado, é uma gravadora, apenas têm mais voz que os outros Estados do nordeste e assim pode deixar marcado em todos os ouvidos, a cor exata de seu sotaque. Mas todos os Estados são diferentes entre si e até dentro de si. A própria Bahia tem vários sotaques. Caymmi e Elomar, por exemplo, são dois mestres da música baiana e são bastante diferentes entre si, um é do mar e outro do sertão da Bahia. Sotaque deve existir tantos quantos serem humanos somos. Talvez a questão é de se ter uma gravadora ou não.
Posted by César Miranda at janeiro 23, 2005 09:00 AM