janeiro 16, 2005

GENTE E ANIMAL

Eu disse um dia aqui que nos filmes do Tarantino só tem bicho. A Lele disse, nos comentários, que nós também somos bichos, apenas estamos no topo. Um dia depois, por coincidência, assisti um filme de Vincente Minnelli chamado “Sinfonia de Paris” (Oscar de melhor filme em 1951) pela milionésima vez e vi justamente a diferença entre a gente e o bicho de que eu falava quando disse dos filmes do Tarantino. Agora que já viram Kill Bill 2, posso explicar melhor e comparar os dois filmes. Um animal é predestinado. Quem escreve sua história é Deus. Um escorpião será sempre um escorpião, ele não vai se arrepender em determinado momento de vida e parar com aquela coisa de ficar mordendo as pessoas. Uma cobra, uma leoa, um cachorro, todos os animais não têm liberdade para escrever sua própria história. O ser humano escreve sua história junto com Deus. É isto que faz um ser humano ser humano e aquilo é o que faz um porco ser um porco. As personagens de Uma Thuman no filme do Tarantino e de Gene Kelly no filme de Minelli são os exemplos perfeitos de bicho e gente. Quando Uma encontra a filha (o filme é sobre uma assassina que mata todo mundo pela frente porque perdeu uma filha) surge um momento em que se imagina que ela vá baixar as armas. Nem assim, no mesmo dia ela mata o pai da menina e foge com a cria. Não há durante o filme um único ato de abnegação de quem quer que seja. Todo mundo ali age como se fosse cegamente destinado ao ódio e qualquer ato que possa parecer de amor é apenas um disfarce do egoísmo. Agora mudemos de filme. Jerry Mulligan (Gene Kelly) é o pintor americano que vive em Paris, no filme de Minnelli é justamente o contrário da Beatrix (Uma Thurman) de Tarantino. Pobre, vive para sua pintura. Pobre, recusa-se a ser usado. Pobre, se apaixona e ama. Abandonado pelo seu amor, ensaia uma rebeldia se comportando de modo vil, mas na cena seguinte percebe o quanto está sendo ridículo e aceita os problemas que têm sem se comportar como um bebê chorão. Como deve acontecer nos musicais produzidos por Arthur Freed, tudo acaba bem. Vale a pena amar e agüentar os trancos da vida. Gente é isto. O resto é personagem dos filmes do Tarantino. O ódio puro só pode existir como exceção ao amor, que é a regra.
ps – vou correndo avisar ao Milton sobre este post.

Posted by César Miranda at janeiro 16, 2005 10:41 AM
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