janeiro 30, 2005

CRÔNICOS

Cronic1.jpg
Capa do livro “Crônicos” de Daniela Abade (Agir, 2004).
Capa: Sibely Silveira.
Foto da Capa: Christian Madrigal.

Jesus disse que não queria sacrifício, só caridade, amor essas coisas, frase que sempre lembro quando ouço falar em promessas, quaresma, jejum, essas coisas doloridas e desconfortáveis. Ele porém, o JC, fez o maior dos sacrifícios. Para nós, especialmente para alguns céticos, parece que quando se faz um sacrifício, alguma coisa de bom tem que acontecer, por exemplo, quando você se mata de trabalhar ou quando estuda pá caramba. Ora, para ser assim, deveria existir um Deus que tivesse ditado tal lei. A verdade é que gostamos de sofrer por quem amamos (nesses exemplos aí de quem se mata de trabalhar, o objeto amado é o dinheiro ou a simpatia do chefe). Quem ama é masoquista. Quem não é masoquista não ama. "Eu te amo" significa "eu sofro por você e gosto" ou "não me importo em sofrer por você" ("Não te amo mais" significa "não gosto mais de sofrer por você"). Malhar e fazer dietas são modos de sofrer antecipadamente por quem queremos amar. Deus é uma prova deste "amor-sofrer", pois fez o próprio filho morrer com requintes de crueldades por amor a todos nós. E nós dizemos, "ora, não merecemos todo esse sofrimento de Deus, nós é que deveríamos sofrer, vou fazer um jejum!". E vem Jesus e diz "não quero sacrifício de vocês, sou eu quem deve se sacrificar". E fica aquela briga entre masoquistas, quer dizer "amantes", cada um querendo sofrer no lugar do outro, isto é, cada um querendo amar mais, como o amigo que matou o outro porque cada um queria pagar a conta. Há também aqueles que são obrigados a sofrer pela própria causa. São os crônicos. Os crônicos que, do outro lado, ficam putos com isto, de gente querer sofrer. Pois os crônicos já sofrem sempre e o tempo todo, mas não por alguém especial, apenas por si próprios. Por exemplo, quem tem tinitus. Tinitus é um zumbido constante. Deve ser uma tortura terrível, algo desconfortável e nada invejável. Uma pessoa com isto, tenho certeza, que pelo filho, ela sofreria do mesmo tanto, até com algum prazer. Porém sofrer por ela mesma, assim de graça, torna sua vida um pesadelo e ela só fala em e só quer encontrar uma cura para o mal. A dor é assim. É bom sofrer por quem amamos, mas nós nos conhecemos e sabemos que não somos dignos de amor (nem de sofrimento, o que vem a ser a mesma coisa), nos resta torcer para que outra pessoa queira sofrer por nós, e a isto chamam ter sorte no amor.

Posted by César Miranda at janeiro 30, 2005 12:16 AM
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