novembro 26, 2004

O MORNO

“Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” Apocalipse 3, 16
Morno é aquele que adora uns “pecadinhos” e umas “virtudezinhas” tudo ao mesmo tempo. É um cara legal, que se permite certas contravenções, que é o nome que se dá a “criminhos”. Enfim, o morno, é o brasileiro típico, o sujeito “esperto”. Sai do terreiro de macumba e vai para a Igreja se confessar. Imagine se o filho pródigo, da parábola evangélica, não fosse tão pródigo assim, isto é, se ele pegasse a sua parte da herança, montasse um grande negócio e se transformasse no maior vendedor de camelos de toda a Mesopotâmia? Pior para ele, pois, morno como teria sido, não teria histórias para contar nem voltaria para os braços amorosos do pai, tratar-se-ia de alguém morno, de um pecador ardiloso, de um pecador pecador, isto é, de alguém sem sinceridade. Se Jesus no último minuto fugisse da cruz seria um morno e tudo o que disse, todos os milagres que fizera nada significariam. Um morno não é sincero. Um morno é político. Um morno é morno porque não segue os planos de Deus, segue os próprios planos (e nossos planos são arremedos de correção). Agita, agita e na hora tira o dele da reta. É uma cigarra que se disfarça de formiga só para ganhar dinheiro. Um morno é um nojo. O autêntico, mesmo quando faz besteira, têm um destino certo aos braços de Deus porque ele é obra das mãos de Deus e tudo o que Deus faz é bom, sendo o homem, o único que pode arruinar a obra de Deus, pois cede às seduções de se tornar morno (ser morno é mais seguro, há um livro de Alan Watts chamado “A sabedoria da insegurança”, leiam!). O mal em alguém autêntico, não raramente, é apenas uma fase, é uma busca da verdade. Já o morno vive em eterno mal, pois no seu orgulho se julga esperto. O orgulho é o afastar-se de Deus e aproximar-se de si, é se exaltar e humilhar a Deus. Eis um grande pecado: não ser autêntico. Ser morno. Quando Jesus disse “vinde a mim as crianças porque delas é o reino dos céus”, clamava por autenticidade. Não existe criança morna. Há interpretações diversas dessas frases, alguns dizem que Jesus clamava por obediência, outros dizem que Jesus clamava por pureza. Well, isto não vale para as crianças de hoje em dia. No caso da autenticidade ainda vale, pois os meninos continuam fazendo o que querem, apesar dos hipnotismos vários. Que Jesus volte antes que as crianças fiquem mornas. Os fariseus eram mornos, Jesus pegava muito no pé deles, homens obedientes às leis, metódicos e certinhos. O morno é metódico. Enquanto isto, Jesus perdoava prostitutas, visitava cobradores de impostos, etc. O morno se importa com as conseqüências. Vive pensando nas conseqüências e morre de medo delas. É um covarde, o morno. Morno é aquele que o que tem de inteligente, tem de burro.

ps - Dá para escrever um livro sobre isto, me ocorreu agora que o morno é holístico, o morno é uma pessoa que “detesta rótulos...”, ter um rótulo é um bom sinal de que não se é morno... O morno é “de centro”. O morno é oportunista como os políticos brasileiros.

Posted by César Miranda at novembro 26, 2004 08:44 AM
Comments

Não fique triste, Marcos. Eu também sou morno. Somos um bando de mornos. Devemos ter consciência disto e lutar contra a mornura o tempo todo. Que Deus nos ajude.

Posted by: César Miranda at dezembro 3, 2004 08:49 AM

Triste, muito triste. Descobri que sou morno.

Posted by: Marcos at dezembro 3, 2004 04:04 AM

Ótima resposta, César. Já não me lembrava desse seu post.

Posted by: Ruy at novembro 26, 2004 10:58 PM

Ruy, ótima provocação. Acho que o Ari não era morno não, já até afirmei aqui que "a ética de Aristóteles é o meio termo levado ao extremo", isto é, ele era um radical (um quente) do meio termo.

Posted by: César Miranda at novembro 26, 2004 10:41 PM

Pergunta-provocação, meu querido César: Aristóteles era morno? :) Bom vê-lo recuperado. Abração.

Posted by: Ruy at novembro 26, 2004 10:12 PM

"Que Jesus volte logo" ...Rapaz, gostei disso. Quem tem isso em vista, tem ponto de referência.
Abraço.

Posted by: JosuEmerick at novembro 26, 2004 03:34 PM

César, meu caro.
Chicote, meu amigo, chicote!
Falo de temas mais amenos lá no 8. Aguardo você e desejo melhoras, meu amigo.
Abraço fraterno do
BetoQ.

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Posted by: Zadig at novembro 26, 2004 03:33 PM

Eu ADORO essa parte. É a melhor de todas do livrão. Tudo na minha vida é assim: adoro ou odeio. Daí é que vem meu nome infame.

Posted by: Carol Nogueira at novembro 26, 2004 02:48 PM
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