novembro 20, 2004

A HISTÓRIA DA SONATA (conto curto)

Piando de tanto medo, a sonata chora. Lembra-se do tempo em que, com apenas alguns compassos, era ainda pequena. E recorda como tudo se orquestrou. Da capo, se lembra de cada acidente, contraponto, contratempo, interlúdios e consonâncias. Seu prelúdio foi prestíssimo, muito breve, mas era um allegro só. Então os compassos se tornaram compostos e, sabe como é, o tempo voa e não tem concerto (sic). Passaram-se os cravos, cornes, espinetas e a cada escala, harmonicamente, a sonata, cheia de cromatismos e intervalos, vivia uma fantasia giocosa. Levava a vida na flauta, como se diz. Mas em três tempos mudou o ritmo, o tom, as variações e a tessitura. A tônica hoje é outra e os tons vizinhos estão a bocca chiusa. Realidade tosca, trágica, um uníssono troppo triste. Já lhe propuseram uma fuga, mas a sonata recusou, apesar do medo e do choro perene. Está um pouco confusa. Não só com fusa, está também com semicolcheias, semínima e semibreve. Em sua mente giram os pensamentos seriais, dodecafônicos, de um réquiem. Uma marcha fúnebre lhe toca a alma. A sonata tem medo, mas nada poderá fazer. É chegado o dia. Amanhã será executada.

Posted by César Miranda at novembro 20, 2004 11:18 AM
Comments

Jules e Bruno, wunderfelows, obrigado.
Bruno, estou muito feliz também com suas críticas semanais literárias e teatrais nas sextas-feiras na Gazeta Mercantil. Parabéns. O caderno Fim de Semana continua sendo o melhor caderno de cultura que temos.

Posted by: César Miranda at novembro 25, 2004 10:52 PM

César, meu caro, me junto a Jules, estupefato e feliz. Gostei muito. Abração.

Posted by: Bruno Garschagen at novembro 24, 2004 11:28 PM

Pequenas frases, grandes verdades...

Posted by: Grenadier at novembro 23, 2004 06:46 PM

César, isso está sublime. :)
E, Grenadier, ainda lembra disso? :)

Posted by: Jules at novembro 23, 2004 06:29 PM

Mon cher Zadig, si vous me permettez,
sei que P. Leminski é, como escreveu Miss Veen, se a memória não me trai, "um poetinha para agendinhas", mas gosto dum trocadilho com que ele titulou uma crônica na "Bolha" há bastante tempo: quem ama Deus, ama a música. Espero não estar aborrecendo com tantos comentários (quem dera pudesse fazê-los em feitio de oratório!...). A novela do Conde é um capolavoro assoluto, tem mais percepção psicológica do que duzentos congressos de lacanetas.

Posted by: Grenadier at novembro 23, 2004 06:22 PM

Mon cher ami,
Chamo por Santa Cecília, por São Francisco e outros santos musicais.
Que "le jongleur de Dieu" nos ajude a compreender até o mais tosco intérprete em sua bela intenção, contra nossa subjetividade harmônica.
Fiquei interessado na conexão citada pelo Grenadier e conferir a pertinência.
Deixo-vos meu abraço fraterno.
Zadig.

Posted by: Zadig at novembro 23, 2004 11:58 AM

Santa Cecília, São Francisco... Gostei de ver, estamos bem acompanhados. Lembro-me de Mozart entrando no céu, na visão de Bandeira. Mesmo estes jagunços são "do bem", pois eles, para usar o jargão aristotélico, atualizam o que era inspiração presa na partitura. Se bem que a "Sonata Kreutzer" de Tolstoi mostra que a música mais sublime pode ter conseqüências adversas.

Posted by: Grenadier at novembro 23, 2004 10:25 AM

Grenadier, os intérpretes são justamente os assassinos, pois são eles quem, qual jagunços, executam a pobre peça.
Porém, neste caso, podemos dizer como São Francisco que é morrendo que se vive para a vida eterna.
Lembrei de outro conto curto que tenho que é gêmeo deste. Qualquer hora, publico.

Posted by: César Miranda at novembro 22, 2004 09:05 PM

Sim, Cesare, mas eles criaram para ser executados. São os intérpretes que, também criadores a seu modo, os "ressucitam". Pense nisso neste dia de Santa Cecília, padroeira da música.

Posted by: Grenadier at novembro 22, 2004 07:08 PM

A execução de qualquer peça - cênica ou musical - é mesmo a morte da peça. Se Shakespeare visse suas peças hoje em dia, daria um ataque (e seria enterrado no dia seguinte com pompa e circunstância de Elgar). Mozart também caso ouvisse sua música na voz do Edson Cordeiro talvez não se reconhecesse.
O destino de todo morto é se revirar no túmulo. Os criadores mais do que todos.

Posted by: César Miranda at novembro 21, 2004 09:54 AM

Desconcertante, mas bem temperada...

Posted by: Grenadier at novembro 20, 2004 12:57 PM

hahahaha!

Posted by: Jorge Nobre at novembro 20, 2004 12:46 PM

Bravo!

Posted by: Rafael Caetano at novembro 20, 2004 11:55 AM
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