setembro 10, 2004

CANÇÃO CALADA

A canção morreu, disse o Tinhorão na Folha. Talvez tenha morrido a moral da canção nestes tempos. Estes não são tempos de canções perenes. Só vive de canção hoje os compositores de grandes sucessos do passado ou quem faz canções descartáveis. Qual será a última canção minimamente perene feita? Beatriz? Tocando em Frente? São canções com quase 20 anos. Mas não se pode simplesmente dizer que a canção morreu quando se ouve, por exemplo, as canções de Vander Lee ou de Moacyr Luz, compositores na plena atividade de fazer canções. Quer dizer, morta a canção não está. Algumas estão apenas quase mudas. Quem calou essas canções? Será que o jabá funcionaria com canções que as pessoas realmente detestassem? Ou mesmo na indústria do jabá não haveria ali uma disposição em agradar aos ouvidos dos ouvintes? Alguém compraria abadás em 12 vezes pelo cartão para seguir um trio elétrico que tocasse canções que ele odeia? Encheriam os rodeios para ouvir breganejos se as canções realmente desagradassem aos ouvidos? Não se pode subestimar o gosto de quem consome a música descartável e reduzir tudo ao poder de quem compra espaço no rádio e à submissão de quem vende esse espaço. E se tipificassem essa prática como criminosa (no intuito de "elevar" o nível músical das rádios) e os ouvintes continuassem a pedir as mesmíssimas canções?! Seria divertido.

Posted by César Miranda at setembro 10, 2004 08:04 AM
Comments

Ótima frase Naldinho.
Obrigado pelo Pró Tensão figurar dentre os "blogs de todo dia" no seu excelente Singrando.
É uma honra.

Posted by: César Miranda at setembro 11, 2004 08:28 PM

Calar vem a calhar.

Posted by: Reginaldo at setembro 11, 2004 08:26 PM

I) Livro de JRTinhorão, “História Social da Música Popular Brasileira”/1990: “Rock in Rio... 70000 watts de som, 100 toneladas de equipamentos, energia em 3500 KVA... reggae, funk, heavy metal, punk, newwavw, tecno-pop, break, rap, hip hop, twist, lambada, ti ti ti, deboche, dança da galinha, do macaco, do pezinho, ...”

II) O leitor já esteve num eventos de rock que inicia pelas 18h de sexta-feira e vai até o amanhecer de sábado e, retorna às 18h até amanhecer de domingo? Uma sucessão de bandas e astros e figurações para o quê? Ora praquê! Prá cantar, pular, dançar, agitar, mexe&remexe... além de bebericar e bulir e fazer gatos&sapatos... rolar frenético.

III) JRT/1998: “... a música popular do século 21 vai desempregar músicos, dessacralizar a criação artística e consagrar samplers e engenheiros de som... só restará sertaneja e criadores independentes... a maioria é alienada, vive para sobreviver, ao pobre de informação resta a arte pobre... os bossa-novistas eram fascistas, pretendiam ser o marco zero da MPB... em 1962 Tom Jobim ‘conquistou’ o Carnegie Hall numa platéia de latinos... em 1964 a juventude se apercebe alienada e, se revolta e racha a bossa nova... pra quê falar da bossa nova se ela só continua a existir no pais de origem: os EUA...”
[nota: JRT vive em quitinete/SAO, 7 mil livros, 10 mil partituras, 6 mil discos]

Posted by: BiaBerna at setembro 11, 2004 12:35 PM

Reginaldo, os tempos são outros. Os consumidores são outros e não gostam mais tanto assim de MPB, gostam de axé, breganejo e pagode. Isto faz toda a diferença. Nem o Chico-Cae-Gil de hoje são mais os mesmos. Mas que há excelente música popular brasileira em franca produção, isto há. Celso Viáfora, Moacyr Luz, Guinga são tão bons quanto o outro trio, apenas vivem em outro momento histórico, infelizmente para a conta bancária deles. O Paulinho sim, que é um príncipe, continua o mesmo, inclusive só aparecendo quando tem algo maravilhoso para nos mostrar. Viva a marcenaria! De que adianta lançar um disco a cada dois anos como os discos do Djavan?! Como diz o Falcão, melhor calar.

Posted by: César Miranda at setembro 11, 2004 10:18 AM

O custo da produção influenciou muito a qualidade da música produzida. Até final dos anos setenta o custo de gravação era alto, daí a indústria planejar o máximo possível um lançamento, investindo na qualidade. Com o barateamento da tecnologia todos puderam gravar, desde o demasiado popular até aquela música de qualidade que de tão trabalhada não conseguia espaço. Só que a música popularesca sufocou o mercado de distribuição. Claro que tem muita gente boa fazendo música e gravando a migué. Mas no nível de Chico-Cae-Gil não tô vendo ninguém. E Paulinho ainda inventa de virar marceneiro....

Posted by: Reginaldo at setembro 10, 2004 06:47 PM

Aqui, CM, eis um exemplo de um post com o qual concordo totalmente.

O pendor dos ativistas sociais, seja de esquerda seja de direita, para atirar bens de mérito sobre quem não precisa deles, é uma das coisas mais irritantes do nosso e de todos os tempos.

Na verdade, há teorias econômicas _ "rational addiction" _ que tentam explicar a formação do gosto como uma exposição contínua a um elemento estimulador que cria feedbacks positivos. O problema é, "e daí", pois mantém-se a questão de quem é que cria a regra de decisão para resolver a qual estímulo as pessoas devem ser expostas. Eu acho melhor deixar a natureza e o acaso agir e a inteligência funcionar, pois também acho que exista a "rational disaddiction"....abçs.

Posted by: smart shade of blue at setembro 10, 2004 10:46 AM
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