Um dia ele acordou sabendo tudo. Tudo mesmo. Coisas como os nomes das luas de saturno, os afluentes do Amazonas, o apótema das figuras geométricas etc. Sabia tudo, exceto quem era. Sabia quem era a filha, quem era a mulher, o filho, o patrão, o emprego, a empregada, o porteiro, o frentista, o cantor, a canção que tocava no rádio, o compositor da canção, o arranjador, os músicos que tocavam, o produtor do disco, o nome do estúdio, o fotógrafo que tirou a foto da capa, o nome do locutor, da mulher do locutor, da filha do locutor, do prédio onde o locutor morava, o nome do porteiro do prédio onde o locutor morava, o endereço do barraco onde o porteiro do prédio do locutor morava. Tudo, ele sabia tudo. Tudo, exceto quem era. Sabia onde trabalhava, sabia o que deveria fazer, e fazia como nunca. Levava a filha para a escola, trazia, cumprimentava os passantes pelo nome e sobrenome, afinal sabia tudo. Tudo, menos quem era. Sabia quando e onde nascera, sabia o nome do médico que fez o parto de sua mãe, o nome dos filhos do médico etc etc. Mas não sabia quem era. Faltava alguma coisa por saber e essa coisa era a mais importante. Ele, que respondia tudo com exatidão e de tudo sabia com precisão, vivia se perguntando, “quem sou eu, meu Deus?”. Sentia a enorme angústia da falta de cumplicidade consigo mesmo.
Posted by César Miranda at agosto 27, 2004 07:45 AMA série até começou com uma proposta intrigante mas degringolou e acho que acabou cancelada...
Posted by: Claudio at agosto 28, 2004 03:50 PMPois é, Cláudio, o cara não tem tv a cabo em casa e sai por aí escrevendo coisa que já existe.
Posted by: César Miranda at agosto 28, 2004 11:14 AMParece com o roteiro da série "John Doe". :-)
Posted by: Claudio at agosto 27, 2004 07:59 PME se ele soubesse de tudo, fosse o maior sábio, porém vivesse desesperado a perguntar: eu, quem é meu Deus?
PS: vi teu haikai lá na Meg. Queria ter esse estalo.
Abraços.
PróTensão: "... Ele, que respondia tudo com exatidão e de tudo sabia com precisão, vivia se perguntando, 'quem sou eu, meu Deus?'...".
1. Há 2400 anos -Ocidente a partir do trio Sócrates&Platão&Aristóteles-, que a questão está colocada. Evidente que caso o indivíduo-ocidental se deparar com tal questão no cotidiano, tudo trava: trem não chega na estação, pão não chega à mesa, construção não sai da planta, blog não se estende...
2. No Ocidente a questão existe, irresolvível, em cada mente, sintetizada no "Conhece-te a ti mesmo". Porém no Oriente o espírito tomou outro rumo, há hegemonia do considerar que tal questão inexiste, aliás nunca existiu. Assim pode ser dado o diferencial entre Ocidente e Oriente.
Sei lá, a angústia de saber tudo menos uma das coisas mais importantes parece maior.
Autoconhecimento de novo, César? :)
A amnésia ideal. Sem identidade = sem responsabilidade. A se pensar.
Posted by: Daniela at agosto 27, 2004 07:59 AM