junho 06, 2004

JÚLIO VERME

(Com a notícia de que "Atirador do shopping é condenado a 120 anos de prisão", lembrei desse texto que escrevi na época e que pensei jamais haveria oportunidade de mostrá-lo. Acho que esta é a última, pois quando o sujeito for solto, em 2119, este blog já deve ter saído do ar.)

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Desde que tomei aquelas três cervejas, comecei a ouvir vozes. Duas horas depois das cervejas, mais ou menos, as vozes começaram. Agora me lembro que não foi a primeira vez que ouvia vozes. Sempre que tomo umas cervejas, duas horas depois mais ou menos, ouço vozes. Elas dizem: "você tem que mijar", "você precisa mijar", coisa do tipo. Naquele dia não foi diferente, as vozes me ordenavam que eu devesse imediatamente mijar. Achei natural, afinal todo mundo deve mijar duas horas depois de três cervejas, isto é, as vozes não diziam nenhuma asneira, estavam certas, por isto concordei e segui em frente. Sei lá, se as vozes dissessem, "compre uma metralhadora e mate uns três no cinema", eu estranharia, discordaria, ponderaria, argumentaria que isto seria uma loucura, que seria preso, mas não foi nada disso, eram vozes sensatas que me instavam a dar uma boa mijada, afinal estava com um bucho cheio de cerva. Então eu deveria escolher o lugar para atender as ordens das vozes. Um shopping me pareceu perfeito, afinal lá tem banheiro.

As vozes aumentavam, ficavam mais altas e insistentes "você tem que mijar agora", "AGORA, AGORA". Pedi para elas, as vozes, me deixarem em paz, afinal não havia motivo para agressividades, eu concordara com elas e estava providenciando o atendimento de suas ordens, elas não quiseram saber, começou um bate-boca entre mim e as vozes, ameacei não mijar coisa nenhuma, ameacei ficar emburrado, o pau começou a quebrar, uma das vozes começou a discutir com as outras, virou uma bagunça, eu tive que botar ordem na casa segurando o fôlego. Trinta e oito segundo sem respirar e elas se calaram. Então me dirigi ao banheiro do shopping. Estava cheio tinha fila em todos os vasos porque eu não mijo naqueles sifões só para homens nem que me matem, fico nervoso e nada sai. Então me ocorreu a genial idéia de fazer o serviço no banheiro do cinema. Entrei no cinema e já tinha começado um filme inspirado em um livro de Júlio Verme (sic), ou coisa do tipo, achei apropriado mijar em um cinema onde passava aquele tipo de filme nojento. Entrei no banheiro, tirei o instrumento para fora e mandei uma golfada de urina na minha imagem no espelho. Então o resto todo mundo sabe, entrei no cinema e na hora da cena em que está havendo um dilúvio de uma chuva amarela, me pus na frente na tela já com o instrumento à mostra e atendendo às malditas vozes, mijei em direção à platéia. Dizem que teve mijo para todo mundo das três primeiras filas. Enquanto eu fazia o serviço ninguém teve coragem de se aproximar. Quando terminei, uns seguranças me dominaram. Agora ouço vozes me dizendo que devo procurar um advogado. Malditas vozes.

(cesar miranda 25.11.99)

Posted by César Miranda at junho 6, 2004 05:05 PM
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