junho 01, 2004

ELOMAR - OS POBRES, MISERÁVEIS E DESVALIDOS


Na obra de Elomar, cantar o pobre, é cantar o ser humano, pois nada mais miserável do que a condição humana nesta prisão escura das três dimensões. Cantar o pobre em Elomar não é, jamais, cantar lutas revolucionárias ou coletivistas. O pobre em Elomar diz “Vô corrê trecho, vou percurá uma terra pr’eu pudê trabaiá.”, (e não “vô corrê trecho, vou percurá uma terra pr’eu pudê invadir...”, como uma versão MST da canção seria). O pobre em Elomar tem apenas a espada dos justos, mansos e humildes de coração, “te dêxo intregue nas guarda de Deus”. É um pobre que sonha em “num sê mais impregado / e tomem num sê patrão” e de “um dia arresolvê jogá a carga no chão” mas que, resignado leva a vida como a cigarra e a formiga, cantando e ganhando o pão. Ele considera o sonho de abandonar as dificuldades da vida, uma “cegueira”, que é o mesmo que falta de lucidez, ou de inteligência, de bom senso, etc. E quando pensa nessas coisas lhe dá um “pirtucho na guela e um nó no coração”, afinal, (surge de novo a resignação perante o Criador), comer o pão com o suor do rosto é uma Lei de Deus, e, mesmo Jesus também foi pião. O pobre na obra de Elomar, é como Elomar, pleno de misticismo, por que não dizer, de cristianismo. Um pobre que não vê saída e se resigna, pois sofre não por ser pobre, mas por que é humano.

Canções relacionais: Curvas do Rio e O Peão na Amarração

Links: Os pobres... e Elomar - O X da questão

Posted by César Miranda at junho 1, 2004 08:05 PM
Comments

Incrível como o brasileiro ignora muitas vezes seus gênios..Salve Elomar

N. do E.: Nem todo brasileiro, né Daniel? Nós, por exemplo, não ignoramos.

Posted by: Daniel at março 3, 2006 04:45 PM

Foi naquele festival que conheci Elomar também. Foi demais para a cabeça dos jurados. Serviu para despertar milhares de pessoas que viraram elomarianas e nem se lembram mais das outras canções do festival.

Posted by: César Miranda at junho 3, 2004 07:59 AM

São lindas imagens, como tantas outras. Observe a força da imagem "ponta d'unha risca no céu" que no entanto é simples, dia a dia, e transmite aquela idéia que todas as grandes criações transmitem, de "porque não pensei nisto antes?" Voltando ao Peão na Amarração, você deve lembrar que ela participou de um festival da globo defendida por Décio Marques. A interpretação usava elementos já bastante conhecidos, paralelos a ponteio, por exemplo, porém é imperdoável que o júri não tenha tido a acuidade de perceber o trabalho harmônico e poético da música, que a colocavam como algo totalmente novo no nosso cenário. Procurei, alí, conhecer Elomar, enquanto a música passou despercebida no festival.

Posted by: Naldinho at junho 2, 2004 09:05 PM

Naldinho, o pior é que muitos acham mesmo que O Peão na Amarração é uma música de protesto. Elomar felizmente ainda não foi cooptado pelas
ilusões deste mundo. Que Deus queira que jamais o seja.
Chamo a atenção para duas figuras belíssimas, originais e maravilhosas, da canção de Elomar "Arrumação" que verifiquei quando procurava o glosário da canção para meu amigo Zadig:
Fôrro ramiado: Céu nublado, que anuncia chuva, isto é, é como se o céu fosse um teto (um forro) que estivesse com ramos...
Ponta d'unha lua fina risca no céu: Imagem poética da lua nova quando aparece no céu, que lembra um pedaço da unha.
Arrumação deve ser a canção mais popular de Elomar. Nos shows geralmente é a única canção que ele permite que o público cante, pois é o refrão
é irresistível mesmo: "futuca a tuia, pega o catador, vamo plantar o feijão no pó".

Posted by: César Miranda at junho 2, 2004 07:55 PM

Se um nordestino escreve sobre sua terra, logo dizem que está abusando da estética da fome (como Diogo Maynardi em Polígono da Seca). Quem olha de longe não entende que esta realidade é viva, e que o medievo ainda existe aqui. Elomar consegue mostrar esta realidade sem apelações (que estimulam o errado preconceito acima), com suas cores vivas, pessoas de sentimento e osso. É bom encontrar pessoas que escutam Elomar, normalmente encontramos as que dizem que escutam. O Peão na Amarração sempre me pareceu o mais perto de uma música de protesto dentro da produção de elomar. Porém, como citaste, "Não sê mais empregado, de tomém não ser patrão" remete a um mundo superior e não a uma promoção social. Ah mundo cruel, tão pouco tempo e tanto prá comentar! Volto.

Posted by: Naldinho at junho 2, 2004 01:07 PM

Ave César: Que maravilhoso courrier, seu moço. E o link correlato ("O X da questão...") ainda mais.
Ainda hei de compreender estes séculos de X a Xii...como quer mestre RMF.
Abraço fraterno do
BetoQ.

Posted by: Zadig at junho 2, 2004 10:17 AM

Como gosto de seus textos indiquei a leitura deste no meu desválido blog!
Abraços deste malungo.

Posted by: Elton Quadros at junho 2, 2004 09:46 AM
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