Ontem vi um filme nacional no DVD, não vou dizer o nome, garanto que é de diretor de prestígio e fez relativo sucesso. Minha mulher pegou emprestado, "vamos ver hoje?", "vamos". Vimos. Durante o filme havia sempre a sensação de que poderia acabar a qualquer momento que não ia fazer diferença. No final, ela comentou comigo, "a gente tenta prestigiar, né?! mas um filme desses...". No filme cada ator fazia pelo menos três papéis, o que demandava muito boa vontade do espectador para continuar vendo aquela obra. A história lá no meio de encaixava, claro, contando com a boa vontade da audiência. Claro que um diretor que aceita um roteiro daqueles é uma pessoa muito legal, gente boa, com muito boa vontade, que “tenta prestigiar” os roteiristas e assim caminha a humanidade. Fica combinado assim, todos nós contaremos com a "bondade" do outro e todos nos damos bem. Somos, afinal, um povo cordial. Antes de mergulhar nesse assunto, o da cordialidade brasileira, falarei mais de filmes mesmo.
Lembro-me de uma entrevista em que Millôr Fernandes dizia querer diretores burros para suas peças. Um dos problemas das artes cênicas nacionais – um dos poucos - é o excesso de diretores "inteligentes". Não sei por que tais gênios imaginam que o público vai entender suas idéias. Parte do público vai a suas montagens mesmo e vê seus filmes mesmo, algum pelo motivo do “a gente tenta prestigiar", outro porque é tão "inteligente" quanto o diretor. Resta a imensa maioria do povo, que passa longe de nossos teatros e nem pensa em assistir os filmes nacionais. Para essa imensa maioria que, lota Matrix e O Senhor dos Anéis, filme nacional é filme americano. O filme brasileiro quando se restringe a contar uma história simples, direta com começo, meio e fim, também tem um público satisfatório. Um filme com uma boa história com começo, meio e fim, basta isto. O problema é que os diretores não são inteligentes, coisa nenhuma. São uns coitados que não sabem contar uma história. Não sabem desenhar figuras, então saltam logo para a arte contemporânea e produzem fitas que são quadros de Pollock. O público não gosta de Pollock, o público gosta de Rubens, Velasquez e Rembrandt. Algo para onde eles possam olhar e entender. Nada demais. Os diretores "geniais" contam então, primeiramente com o dinheiro público gratuito e toda lei de incentivo possível, inclusive garantia de percentual de salas etc. Segundamente, contam com a turma do "a gente tenta prestigiar". Comigo não. Eu não "tento" prestigiar nada. Se me quiser como consumidor, deve me oferecer um produto que eu queira de verdade. Este é o verdadeiro assunto deste texto, nossa "bondade". Enquanto o brasileiro só puder contar com a "bondade" do outro ou for "bom" para o outro somente “para tentar prestigiar”, seremos esta porcaria de país que somos. "Bondade" de consumidor é algo tão bizarro, que se contarmos para algum estrangeiro de um país bem sucedido, ele certamente se boquiabrirá. "Quer dizer então, que o consumidor não precisa ser conquistado? Ele compra por bondade? em minha terra chamamos isto de outro nome, burrice". Isto nos torna também um mercado mascarado. Quanto mais chato (exigente) for o consumidor, melhor será o mercado. O menino que vende porcaria no sinal cresce imaginando que qualquer negócio que ele fizer, quando crescer, as pessoas se tornarão seus fregueses "só para ajudá-lo" "Compra tio, só pra me ajudar", ora, se quiser ser ajudado, venda algo que eu quero comprar. Aliás, os vendedores de rua, são isto mesmo, “vendedores”, não pedintes, vendem até binóculos. São lojas virtuais. Você quando vai a uma farmácia, o vendedor não pede “oh, leva pelo menos umas aspirinas para me ajudar...” Enquanto agirmos baseados em outra coisa que não nosso juízo, enquanto comprarmos mercadoria, "só por que é nacional", teremos produtos nacionais como o cinema nacional. Um cara no Rio ficou rico vendendo angu. Ninguém comprou o angu para "dar uma força", comprou porque era um bom angu! Um belo angu, sem caroço, daqueles que fazia algum morador do Rio recordar sua Campina Grande querida. Nossa cordialidade tem nos feito andar pra trás, optamos sempre por aquilo que será melhor para nossos pares, ninguém quer a ALCA, porque possivelmente alguma empresa nacional quebrará. É claro que muitas quebrarão, aquelas que produzirem produtos que não consigam concorrer com produtos estrangeiros melhores e mais baratos. Fechemo-nos e certamente a situação vai piorar, pois nossos empresários não passarão a fabricar produtos melhores só porque dissemos não à ALCA. Bondade cabe em caso de urgência, necessidade, calamidade, fora isto, se todos sustentarmos as próprias casas, tudo estará bem. Essa nossa cordialidade é na verdade uma confusão que fazem entre solidariedade e fraternidade. Coisas que nada tem de relação com bondade, é uma falsa bondade, pois impede as pessoas de crescerem realmente. O único jeito de alguém enriquecer é primeiramente não ser rico, deixe que as pessoas sejam pobres, não fique com pena, deixe que aprendam que devem agradar o gosto de seus clientes, foi assim que os países ricos ficaram ricos, os EUA já tiveram um PIB menor do que o do Maranhão até que chegou o capitalismo e resolveu o problema. A cordialidade nacional atinge outros campos e assume outras formas, a principal e mais terrível é nosso corporativismo que faz com que os policias e juizes corruptos, médicos assassinos, e toda a gama de seres ineficazes se perpetuem prestando seus serviços impunemente sem que seus pares digam um "A". Só quando algo terrível acontece a alguém importante, tem-se alguma chance, mas a regra é passarem a mão na cabeça de incompetentes de nossa laia. Aqui é uma terra fértil para as doutrinas coletivistas também por causa dessa nossa cordialidade. Nosso sistema educacional, não fôssemos cordiais, jamais aceitaria essa metodologia que proíbe a repetência, coisa que gera analfabetos na oitava série e semi-analfabetos defendendo teses de mestrado. O comunismo, como se sabe, só tem de bom as intenções e nossa cordialidade é isto, um poço de boas intenções. Todo mundo acha que todo mundo é coitado. Coitado é um país com um povo tão condoído, que age "só para prestigiar". O que significa também que somos um bando de falsos. Eu, euzinho, tudo o que faço é sincero, jamais faço nada "só para dar uma força" e não quero que façam assim comigo. Tenho verdadeiro horror à idéia de que alguém fez algo por mim só porque eu sou gente boa, isto é, por pena. Cada vez que você adquire algo, você dá um recado para o mercado, que se compõe de uma enorme cadeia de produção e distribuição, de que ele deve produzir mais daquilo, pois você consumiu o que havia ali. Quando você adquire algo, o mercado vê este algo como valioso e fruto de sua livre vontade de consumi-lo, tal fato constitui-se em um termômetro que tem conseqüências tão sérias quanto aquela alegoria da borboleta que causa um terremoto com o bater de suas asas. Assim, toda vez que você fizer algo "só pra dar uma forcinha", isto é, sem vontade sincera e sem nenhuma intenção de tornar a fazê-lo, você está mascarando todo o processo mercadológico, que envolve no final das contas você mesmo. Um parêntesis, quando eu falo "mercado" substitua por "pessoas comprando o que precisam e vendendo o que os outros precisam", não se trata dos banqueiros e do FMI não, trata-se sim de gente como você que, de acordo com suas posses, adquire comida, roupa e diversão. Se você sente pena de tudo e de todos por qualquer motivo, você tem algum problema. Quem lhe garante que aquele a quem você chamou "coitado" não é muito mais feliz do que você? Não seja cordial, seja educado à moda brasileira, não sinta pena, não dê nada para ninguém que nada lhe pediu, não compre o que não precisa embora apareça barato, seja menos "brasileiro", seria ótimo para o Brasil. Para finalizar, antes de assistir ao próximo filme nacional procurarei me lembrar de perguntar a minha mulher se ela está apenas "tentando prestigiar". Se titubear, convido-a a prestigiar um filme do Woody Allen.
Posted by César Miranda at maio 13, 2004 08:13 PM
Obrigado pela força, Diogo. Você sabe o quanto gosto do seu blog também. O Saccamano é 10. Um grande abraço.
Posted by: César Miranda at maio 17, 2004 06:19 PMSeus posts têm feito do seu, o melhor blog do ano. E não digo isso por te achar gente boa, não.
Abraços.
Posted by: Diogo Costa at maio 17, 2004 12:38 PMObrigado a todos pelos comentários.
Cumpanhêro Ffoareff Ffilva, novas deffpeffas ffó com o aumento da arrecadaffão. Comente mais aqui.
Aquimimo, não incluo diretores nenhum na lista, incluo filmes, é bom deixar em aberto uma chance de uma redenção de nossos diretores. Eles devem parar de pedir dinheiro ao governo e fazer bons filmes.
Ah, o post que está bom demais é o teu, não o meu.
Posted by: Igor (Aqui eu falo do meu senso de ridículo) at maio 14, 2004 12:28 PMOlá, César. Peguei essa mania de link no nome do Alexandre, acho um vício razoável para quem quase não os tem. Se quiser, clique. Ora, este post está bom demais.
Posted by: Igor (Aqui eu falo do meu senso de ridículo) at maio 14, 2004 09:39 AMMuito, muito bom! Vejo que vc nunca perde a capacidade de se indignar, o que tb é muito bom.Parabéns pelo texto, pela crítica e pela inabalável capacidade de se indignar.
Posted by: 0!/\@|£ at maio 14, 2004 08:53 AMA diferença é que nos outros países as pessoas fazem de tudo para sair da condição de merecedoras da caridade alheia, enquanto aqui elas fazem de tudo para ficar nessa condição a vida inteira.
Posted by: Marcelo De Polli at maio 13, 2004 10:38 PMAinda que não tenha, com elegância, citado nomes, gostaria de saber se inclui na "lista" diretores como Walter Salles e ainda Jorge Furtado. Caso não queira responder aqui, poderia dar a sua opinião por e-mail? Gostei do que escreveu, mas como gosto dos diretores (claro que nada incondicional)citados, gostaria de sua visão sobre filmes de tais diretores.
Um abraço,
Você tem escrito uma bela sequência de posts, César. Me declaro o seu André Singer.
Digo, particularmente boa. (Me cansei um pouco de elogiar mulheres dizendo "Você está tão bonita!", só para ouvir "Estou? Não sou sempre?", de modo que esclareço, seus posts sempre são bons, mas os dos últimos dias estão particularmente bons.)
(Segue email em privado pedindo dinheiro emprestado.) ;>)
Posted by: Alexandre (André Singer do César Miranda) at maio 13, 2004 09:26 PM