A poesia é mais antiga do que a prosa. Não sei se isto torna uma delas superior. Tinha que ser assim porque só a poesia poderia eternizar uma história naquele tempo sem a memória de papel ou silício que hoje temos. A poesia é música, isto é, mesmo subjacente, vive uma bela de uma melodia em todo poema. Há, ou deveria haver, na poesia, métrica e ritmo. A melodia de toda poesia é o timbre de cada um. Assim, como um rap, as histórias iam passando por meio das gerações. Lembro de um verso que li quando criança em um desses romances de cordel (acho que foi “a chegada de Lampião no inferno”) que dizia: Um cabra de Lampião Chamado Pilão Deitado Que morreu numa trincheira Um certo tempo passado Agora pelo sertão Anda correndo visão Fazendo mal assombrado É pouco provável que eu lembrasse cada sílaba se a história fosse em prosa, algo assim: “No sertão dizem que um dos homens do bando de Lampião chamado Pilão deitado, um que morreu em uma trincheira, tem sido visto assombrando as pessoas.” Não lembraria talvez de nada, nem dessa história muito menos de cada palavra, porque quando você lê uma história escrita em prosa, você capta as imagens apenas. Quando vemos versos em nossa frente, porém, temos uma compulsão, um desejo, de memorizar aquilo e sair por aí recitando, como quem canta uma música. Não só a mensagem, mas o meio também nos conquista. Quando é instrumental a música é meio puro, sem mensagem. (quem disser que Mozart quis dizer isto e aquilo com um concerto para piano e orquestra está chutando, quando ele queria dizer algo, fazia uma ópera). Hoje que não precisamos mais memorizar nada para que a mensagem seja transmitida para as próximas gerações, só um ou outro romântico escreve poesia com ritmo e métrica e só um ou outro romântico perde tempo memorizando o que quer que seja. Mas isto não é o fim do mundo, ninguém é obrigado a ser romântico e é até melhor mesmo que sejamos poucos. O pior é que tudo, absolutamente tudo, que é produzido, inclusive este texto, estará disponível a todas as gerações futuras para sempre ou até o apocalipse (espero que Deus dê uma deletada em tudo o que não presta depois do fim dos tempos). Antes, quando a memória era no máximo de papel, o tempo se encarregava de fazer uma depuração e sobrava o que prestava (tenho que crer nisto). É bem provável que existissem poetas bregas no tempo de Homero. Hordas de Amados Batistas gregos que se perderam porque não há jabá nas rádios da memória cerebral. Mas Homero chegou até nós porque Homero, bem, Homero era homérico.
Posted by César Miranda at maio 24, 2004 07:42 PMSou Poeta, Músico e Artista Plástico e sei e o que significa trabalhar com três artes que tem uma semelhança mas para realizar uma bela obra de arte tem que se aprofundar no assunto e ter muita fé em Deus.
Posted by: Jose Alves Santos at julho 21, 2008 11:10 AMCaso não tenha feito me entender, esclareço aqui que concordo que a prosa e a poesia são igualmente importantes e tb concordo com o comment do Naldinho "A prosa tem propósitos diferentes da poesia, apesar dos pontos em que convergem, e nada melhor que a prosa para estes propósitos". Foi exatamente neste sentido que fiz a comparação futebolística e chula, ao estilo do nosso Presidente, entre Dunga e Garrincha. Ora, ambos foram igualmente importantes para nosso futebol, trazendo títulos mundiais para o País. Ocorre que enquanto o Dunga focou-se, gloriosamente, no objetivo de trazer o caneco, o Garrincha alcançou este mesmo objetivo de forma oblíqua, pois o seu foco principal era o espetáculo. Portanto, os dois foram igualmente importantes, mas cada um a seu estilo ( e, para mim, a trajetória do Garrincha, embora igualmente importante, ostentou mais nobreza, mais glamour, daí ter ficado gravada mais fundo em nossa memória, tal como o verso "A Chegada de Lampião no Inferno", citado no post.).
Posted by: 0!/\@|£ at maio 26, 2004 08:56 AMNão há que se falar em superioridade. Cada coisa serve para um propósito. Por exemplo, a escrita musical só existe porque não existia gravador. Acho que no futuro a escrita nossa mesma vai se tornar irrelevante. Será um tipo de arte, como os ideogramas. Com a memória de papel, a poesia pôde se libertar de alguns formalismos, assim como a pintura se libertou quando surgiu a fotografia. A tecnologia facilita a comunicação e poda a criativadade humana outrora necessária para que ela ocorresse. Por outro lado, nosso cérebro deixa de fazer rimas e cuida de fazer outra coisa. Não devemos ser tecnófobos e muito menos devemos parar de escrever sonetos em decassílabo, é tão bonitinho...
Veja como as coisas acontecem, veja como Deus é maravilhoso, a poesia nasceu para transmitir conhecimento. Nem se podia chamá-la de arte.
Arte, nos diz Wilde, é algo inútil. Arte não serve para nada (no mesmo sentido que Deus não serve para nada, isto é, não dá lucro algum, mas é o que de mais importante existe). A poesia nasceu com um objetivo específico, superior e necessário: o de transmitir fatos. Um dia tornou-se arte e essa mudança de status é um engrandecimento, uma promoção, um reconhecimento do quão sublime é a poesia. Tudo que é belo não precisa nem deve ter função alguma além da de existir. Quando a prosa se tornar desnecessária,
aparecerão os artistas da prosa e se revelará a beleza que ela tem e que hoje não vemos nela porque ainda retiramos dela algum lucro - um
informação, por exemplo. A poesia não, como ela serve apenas para nos embalar, nós vemos nela uma beleza que nos escapa na prosa, provavelmente
como faziam os primeiros consumidores de poesia, que ouviam os versos para saber de algo e nem percebiam a beleza e a arte subjacente. Putz,
isto daria outro post.
Flávio, Igor, Rodrigo e André, um grande abraço, obrigado pelos comentários.
Naldinho, volte sempre.
César, vi que em nenhum momento você coloca a poesia acima da prosa, inclusive coloca-se como desconhecedor de qualquer superioridade, o que demais seria uma grande bobagem. A prosa tem propósitos diferentes da poesia, apesar dos pontos em que convergem, e nada melhor que a prosa para estes propósitos. Mas voltando à poesia, é interessante a idéia de uma seleção natural na cultura. O que não era bom, fica perdido no tempo, e a produção de qualidade segue de geração em geração, se transforma, evolui, se sintetiza. É daí que são tiradas as idéias universais que formam as grandes obras (o detalhamento se perde no tempo? É uma idéia estranha). Mas a nossa realidade também não está definida. O que será de todo lixo virtual de nossa era? Serão as mentiras de amanhã?
Posted by: Naldinho at maio 25, 2004 12:51 PMTenho tb para mim que a poesia teria inerentemente algo de mais nobre que a prosa. Esta última, geralmente tem por fim cumprir o dever de casa (passar a mensagem proposta) enquanto a poesia tem em mira dar espetáculo (até mesmo destituído de mensagem maior alguma). Bom, seria como comparar, no geral, o Dunga com o Garrincha.
Posted by: O!/\@|£ at maio 25, 2004 08:58 AMA ironia é que eu gosto de poesia com rima e métrica, mesmo sendo um mau poeta. Mas eu rimo e meço, rimo e meço! Abração.
Posted by: Igor at maio 25, 2004 08:34 AMCésar, estou contigo e o André: enquanto forma literária, a poesia é mesmo superior. Aliás, arriscaria dizer que a prosa só é forma literária quando tem algo de poesia. Parafraseando Platão, a boa prosa "participa" da poesia. Para fazer uma frase memorável, não basta apenas que ela seja de significado profundo, mas também que soe bem -- esta é uma das razões por que tanta besteira se espalha pelo mundo: frases ocas com um efeito poético maravilhoso. Deixando pra lá as besteiras, digo que também sou um memorizador compulsivo: o seu "Quem morre não tem futuro / quem nasce não tem passado" ficou martelando na minha cabeça por dias...
Um grande abraço,
Na verdade, se formos rigorosos, o verso é mesmo superior à prosa.
Posted by: André at maio 24, 2004 08:18 PM