março 25, 2004

NOTAS MUSICAIS II

"Música não é aquela coisa que faz barulho?", pergunta o Millôr. Quanto a seu estudo e interpretação (no sentido de decifrar) a música é como uma pintura abstrata. O que significa um prelúdio bachiano, um frevo pernambucano, um choro de Pixinguinha? O que melhor lhes parecer. A música erudita contemporânea é o abstrato do abstrato. A música está sempre à frente das outras artes na liberdade que dá ao usuário de ver-se nela ou de não ver nada, caso queira, ou não queira. É a matéria mais bruta das artes ou a menos explicativa. Se a leitura de música caisse no vestibular, o mundo ficaria mais agradável. Os taxistas ouviriam Vivaldi. Quem tem um grupo de RAP hoje, teria um quarteto de cordas. Para tocar uma música há centenas de instrumentos e para contar uma história há tão poucos, por quê? Porque a maioria de nós é analfabeta musical. Se todos fôssemos alfabetizados musicalmente os instrumentos musicais seriam irrelevantes. Acontece que os instrumentos existem e existindo seus timbres até inspiraram a criação de novas melodias. O instrumento, que nasceu evidentemente depois e por causa da música, tornou-se sinônimo dela. Um instrumento só existe como, ora, ora, instrumento. E um instrumento só existe porque facilita a vida do homem. E para quê o ser humano quer facilidade? Porque não consegue ou acha difícil fazer a empreitada prescindindo de instrumentos. Somos limitados e preguiçosos. A escrita musical como é hoje data do século X de nossa era, é, pois, recentíssima. No fim das contas, música é para ser ouvida mesmo e não lida, por isto Dilermando Reis começou a compor para violão porque não sabia ler partitura e sua virtuosidade ao violão demandava um repertório. Termino com a anedota daquele músico (algumas versões dizem que foi Mozart) que ao entrar em uma sala avistou num relance uma partitura, que leu instantaneamente, e virou a cara, decepcionado, “que música horrível”, disse, como se a tivesse ouvido. E ouviu mesmo. Com os olhos.

Link relacional - Notas musicais

Posted by César Miranda at março 25, 2004 08:42 PM
Comments

Sim, foi Mozart. Acho que vi num filme sobre a vida dele. E quanto a preguiça do ser humano, o que posso dizer... A carapuça serviu!! Ganhei um violino aos 15 anos. Tenho 19, faltando pouco para os 20, e ainda não sei tocar. Burrice? Não,preguiça mesmo... Não cheguei a completar um ano de estudo...Outras coisas, mais fáceis, tomaram o meu tempo. Coisas que hoje, olhando para trás, de nada me serviram. Que injustiça, a filosofia ainda me causa prazer! Bom, deixa pra lá... Gostei do post. E confesso que adoraria andar num táxi que tocasse Vivaldi, ao invés de pagode dor-de-cotovelo... Ah,obrigado pelas dicas do Filho Pródigo!! Bjs... Fica com Deus.

Posted by: Maria Alice at março 27, 2004 12:26 PM

Meu professor de teoria musical costumava dizer o seguinte: uma partitura é apenas uma tentativa de registrar e tornar tangível o conceito de música.

Música seria, a grosso modo, algo que ocorre no momento em que um som harmonioso, vindo de um rádio, de uma tv mostrando um show, um violão sendo dedilhado, etc., chega ao ouvido de alguém, provocando uma determinada sensação baseada na emoção.

Daí eu complementei e ele até que concordou: música seria como a luz. Para ser percebida, precisa refletir num determinado objeto para que, através das cores e formas que ele possui, possamos notar sua existência.

Abraços!

Posted by: Zé Carlos at março 26, 2004 12:30 PM

Caríssimo Amigo,
Eu que sou um analfabeto musical (com um ouvido abençoado pelo que tenho ouvido ao longo desses 49 anos) digo-vos: a anedota está no Doutor Fausto do Th.Mann, que não posso citar desde o cibercafé (em São Carlos, onde ouço o ruído do rock atual), onde componho esta nota.
Há outro interessante episódio na vida do músico norte-americano Wes Montgomery, em que ele recebe de seu produtor um presente de ter ao seu lado os melhores alunos de uma escola de música em NY. Ao chegar ao estúdio, ele chama o produtor de lado e diz: não é possível! Ao que este retruca:
- Como não é possível. O que aconteceu? Você está ao lado dos melhores alunos da escola X etc. etc.
E Wes Montgomery finaliza com um lacônico:
- Amigo, eu não leio música.
Ele produzia belíssima música. Aliás, em minha estrada para São Carlos, convivemos (eu e S.) com essa beleza.
Um dia te mostro.
Abraço fraterno,
BetoQ.

Posted by: Zadig at março 26, 2004 11:14 AM

ixe ! hoje eu falei em você e em Millôr.
Bom fim de semana :o))

Posted by: Dani at março 26, 2004 10:35 AM
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