fevereiro 12, 2004

DESIGUALDADES I - OS FIÉIS DE DARWIN

Nosso Senhor não fez nenhum átomo no universo igual ao outro. Há as orquídeas e o capim colonhão. Nós seres humanos somos um tipo diferente de ser, aquele que pode ascender, passar de um nível ontológico para outro. Trata-se de um milagre, coisa que só acontece a nós, por mais que os fiéis da igreja de Darwin tentem provar o contrário. Como indivíduos somos desiguais, uma dessas desigualdades é a desigualdade financeira, reflexo das compensações do trabalho realizado por alguém a outrem, de acordo com a raridade e valor que cada um dá ao serviço ou mercadoria adquiridos. A “injustiça social” (querem dizer econômica quando dizem “social”) é, pois, natural como qualquer outra desigualdade. “Pobre sempre os tereis” e “mercado” significa apenas “gosto do público”.

Posted by César Miranda at fevereiro 12, 2004 08:48 PM
Comments

Parece a música do Alceu Valença “Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais”.
O cara certo não é deste mundo, nem seu reino o é. Pena que no presente caso não dá para fazer como Mae West que dizia que enquanto o homem certo não aparecia ela ia se divertindo com os errados. Neste caso, o homem errado faz com o país a mesma coisa que os homens errados faziam com Mae West, o que não é nada divertido...

Posted by: César Miranda at fevereiro 18, 2004 09:09 PM

Frederico, então puxa uma cadeira bem confortável e durável pois ela servirá para você e os seus descendentes. Quando o cara certo vier, ou melhor voltar, essas questões serão irrelevantes.

Posted by: Claudio at fevereiro 17, 2004 12:01 PM

Vocês estão além de serem liberais, já viraram anarquistas. Caro Claúdio, eu prefiro esperar o cara certo. Em um Brasil sem desenvolvimento e com o capital humano ridiculamente baixo junto com uma desigualdade estrondosa, não creio que o mercado vai lá ser tão gentil. Não adianta vender soja e comprar computador. Temos que ter valor agregado nos produtos daqui. Aí sim eu prefiro o mercado ao cara "certo".

Posted by: Frederico at fevereiro 17, 2004 11:17 AM

Verdade, César. Se estou com fome e me apresentam dois pratos de comida pelo mesmo preço, certamente optarei pelo que mais gosto.

Abraços!

Posted by: Claudio at fevereiro 17, 2004 10:52 AM

Cláudio, me ocorreu que gosto e necessidade são duas coisas diferentes sim mas, quando duas necessidade iguais se apresentam quem julga é o gosto. Ou quando uma necessidade só é atendida com mais de uma coisa, quem escolhe é o gosto de novo.
Sobre o que você disse sobre o Estado e os políticos, nada a acrescentar, está irretocável.

Posted by: César Miranda at fevereiro 16, 2004 10:24 PM

Do mesmo modo que não existe mercado ideal, muito menos existe Estado ideal, pois no fundo, lá na pontinha tá um ser humano com seus defeitos e virtudes. Quando se dá poderes para o Estado interferir no mercado a ponto de fazer a balança pender para um lado ou para o outro, é provável que os mais poderosos se esforcem para botar as mãos numa ferramenta com tamanho poderio. Por isso vemos o governo emprestando, digo dando, quantias absurdas de dinheiro para empresas enquanto inúmeras pessoas morrem de fome. Por isso o governo manipula o sistema monetário, favorecendo banqueiros e tudo mais.

O livre mercado não garante igualdade e pode até mesmo ser severo às vezes, mas o Brasil é prova de que o Estado também não é a solução.

A razão pela qual eu creio que o mercado funciona melhor que o Estado é porque o mercado não necessita qeu seus agentes sejam virtuosos. Se assim forem, melhor. Mas não é condição para existência do mercado.

Já o Estado requer sempre que "a pessoa certa assuma o poder", alguém "comprometido com o bem estar das pessoas" ou "alguém que defenda os interesses do povo". Só que este ser perfeito não existe e ninguém coloca na minha cabeça que alguém gasta mais de 20 milhões em campanha para "trazer o bem-estar ao povo".

Posted by: Cláudio at fevereiro 16, 2004 09:56 PM

E quanto aos monopólios naturais? Eles existem não tem jeito, a diferença é a atuação do Estado, ele tem que regular os naturais e impedir os que não tem necessidade de ser.

o arroz não é tão inelástico mas os produtores podem aumentar seu preço e maximizar ganhos, eu não falei em aumentar os preços indefinidamente.

A minha crítica é mais voltada para a questão de gosto e necessidade, gosto é uma coisa distinta e varia entre as pessoas e necessidade é mais geral, todos precisam de água por exemplo, é lógico que existe a necessidade pessoal também, como o diabético precisa de insulina. A questão é que o gosto é mais maleável e pode ser sugerido por marketing, as necessidades não, e ambos lideram estão na curva de demanda. Por isso não gostei de sintetizar mercado como "gosto do público". E também fazemos parte de uma curva de oferta q é a curva de oferta de trabalho, então as firmas também podem utilizar de seu "gosto" se o mercado fosse somente definido pela demanda. No entanto, nós , ofertantes de mão-de-obra inventamos sindicatos, leis, etc para nos deefender.

Posted by: Frederico at fevereiro 16, 2004 08:25 PM

O monopólio não é ficção, tanto que eu o citei sempre. Mas ele não é gerado pelo mercado e sim por fatores externos, como o Estado por exemplo.

Quanto ao arroz, discordo de você. Se o preço do arroz superar o valor atribuído pelos consumidores, ele será substituído por outro produto. A curva de demanda do arroz não é tão inelástica assim.

Quanto à aspirina, uma vez que sua dor de cabeça tenha passado, o valor que você atribui ao remédio cai (valor marginal, o valor atribuído a uma unidade adicional de um produto) e você irá usar seu dinheiro para comprar outra coisa que no momento seja mais interessante.

Gosto e necessidade são coisas distintas (por isso eu coloquei que um ou outro pode direcionar a demanda).

Posted by: Claudio at fevereiro 16, 2004 12:54 PM

Cláudio, você está considerando concorrência perfeita assim como eu citei. A concorrência perfeita é muito rara! Ela pode ser muito útil quando você tenta explicar algum fenomêno ecônomico mas é fictícia. Você mesmo para fazer o seu argumento teve que isolar a presença de monópolio em um dos meus argumentos. Só falta dizer que essa coisa de monópolio é ficção.
Imagine o arroz que é um bem básico na economia brasileira. Mesmo se o preço do arroz aumentar eu duvido que o seu consumo vai diminuir muito. O consumidor vai deixar de consumir outros produtos mais supérfulos para comprar arroz. E se não tem uma regulação o preço do arroz vai aumentar porque os beneficiadores de arroz sabem que podem ganhar mais se aumentarem o preço. Logo o preço do arroz é definido pelos produtores de arroz e pela regulação governamental. O mesmo ocorre com o mercado farmacêutico e você sabe que sim, por isso a campanha governamental pelos genéricos.
Eu nunca neguei que o "gosto do consumidor" é uma importante variável no mercado, mas não é a única.. A informação é importante sim, ou você tem certeza de em qual loja da cidade tem o preço melhor para cada tipo específico de produto que você quer?
A situação da dor de cabeça é extrema demais e tendenciosa, lógico que ocorre mas é um caso de necessidade pois na hora da dor de cabeça seu preço de reserva para comprar uma aspirina é muito alto, mas se você sabe que tem dores de cabeça recorrentes e resolve fazer um estoque, vc compra menos no momento da dor e depois espera até amanhã para comprar mais caxas, tem várias interpretações possíveis. E se fosse um aparelho de televisão ou invés de uma aspirina?
Sobre os recursos escassos, não é sobre gosto e sim necessidade. Se você acha que gosto e necessidade são coisas iguais. Quem sou eu para discutir.

Posted by: Frederico at fevereiro 16, 2004 12:41 AM

Eu creio a definição de mercado do César foi correta. Frederico todas as explicações, corretas diga-se de passagem, que você deu acabam no "gosto (ou necessidade) do público". Vamos analisá-las uma por uma:

(A) Além do gosto do cliente, o mercado também se define pelas firmas que geram a oferta.

Claudio: nenhuma empresa cria oferta se não houver uma demanda. A demanda nada mais é do que a manifestação do gosto dos consumidores.

(B) O preço de mercado não é definido apenas pelo gosto do público.

Claudio: Se não houver um monopólio, o preço de mercado sempre será definido pelo cruzamento das curvas de oferta e demanda, sendo que esta última nada mais é do que a representação gráfica do gosto do público.

(C) Existem coisas como ganhos de escala de firmas muito grandes que geram barreiras de mercado para que outras possam entrar.

Claudio: o ganho de escala faz com que empresas reduzam o custo de produção dos seus produtos mas não afetam o valor que os consumidores estão dispostos a pagar por eles. Imagine uma empresa que, graças a produção em escala, consiga produzir sachê com cheiro de cocô a 1 centavo cada. Duvido que essa produçã oem escala venha a ser útil.

Se não houver monopólio e a empresa estiver praticando preços muito acima do custo de produção, é provável que outras empresas entrem na briga pelos consumidores. Além disso, se o produto tiver uma curva de demanda muito elástica, os consumidores desviarão seus recursos para outros segmentos.

(D) Somente em "concorrência perfeita" o mercado pode ser definido pelo gosto do cliente e mesmo assim há restrições, porque também dependemos de recusos naturais não renováveis.

Claudio: Sim, os recursos são escassos. Por isso a tendência é que eles sejam alocados para a produção de bens pelos quais os consumidores estejam dispostos a pagar mais, aumentando assim o excedente de produção. Novamente o gosto do consumidor definiu as regras do jogo.

(E) Dentro de um mercado existe também as expectativas q vão além do "gosto" e que formam as decisões entre poupar e consumir, ou consumir agora ou consumir depois. Se você espera que o arroz vai mudar ficar mais barato você compra menos agora para comprar mais depois. Ou seja acaba que o mercado é definido também pela informação.

Claudio: Exato, a decisão de comprar agora ou poupar para comprar depois é uma decisão do....consumidor. Mesmo sabendo que o preço do arroz vai baixar semana que vem, você ainda assim poderia querer comprá-lo hoje pois está com vontade (ou necessidade) de comê-lo agora. Usemos outro exemplo: se você estiver com uma terrível dor de cabeça vai comprar o remédio agora mesmo sabendo que amanhã vai entrar em promoção.

Como percebemos, você e o César disseram a mesma coisa!

Abraços!

Posted by: Cláudio at fevereiro 15, 2004 09:36 PM

Marcus, a resposta para sua pergunta é "não". Darwin entrou neste post como Pilatos no credo...

Posted by: César Miranda at fevereiro 15, 2004 08:31 PM

OK, agora entendi. Não tinha captado o sentido da frase por achar impossível que você estivesse tentando refutar teses científicas com convicções religiosas.

Ainda mais porque a crença em Deus, em milagres, na transcendência da alma, não é incompatível com a teoria evolutiva.

O fato do homem ser "um tipo diferente de ser" em relação aos símios em nada invalida a teoria darwiniana. Sempre haveria a hipótese dessa mudança de "nível ontológico" ter ocorrido em um salto evolutivo. Como é que você pode dizer que isso não é o plano de Deus? Pelas escrituras? Tenha dó.

Darwin não refutou milagre nenhum. Não era esse o seu objeto de estudo. Seu objeto era a biologia. Simples assim.

É uma tese científica coerente, que tem resistido há muito tempo porque não se apresentou outra melhor. Não é uma igreja e nem os que concordam com ela são fanáticos. Acho risível ter que reafirmar coisas assim.

Será que você pretende reeditar um embate criacionismo x evolucionismo? Espero que não.

Posted by: Marcus Pessoa at fevereiro 15, 2004 07:38 PM

Mas aí você está generalizando demasiada e forçosamente o significado de gosto e de público.Pelo menos a meu ver.

Posted by: Frederico at fevereiro 15, 2004 03:13 PM

Marcus e Frederico,
A frase [que fala de Darwin] é “Trata-se de um milagre, coisa que só acontece a nós, por mais que os fiéis da igreja de Darwin tentem provar o contrário.”
Explicação da frase:
[O fato de apenas o ser humano poder evoluir e alcançar a eternidade] Trata-se de um milagre, coisa que só acontece a nós, [e não ao outros animais] por mais que os fiéis da igreja de Darwin tentem provar o contrário [ao afirmarem que os animais evoluem e se transformam em outro que não aquele que feito por Deus inicialmente]. [Deus fez todos os animais e por mais que um macaco melhore, será apenas um macaco melhorado. O homem, porém foi feito criatura de Deus mas, pelo sacrifício de Cristo na cruz, poderá ser chamado, como Cristo, filho de Deus, basta buscar a santidade]. Espero que tenha entendido.
Quanto ao mercado, a explicação não é ingênua nem simplória, é apenas sintética..
Seria importante que se lesse Von Mises e também Bastiat para continuarmos essa prosa.
Prossigo hoje com a série. Obrigado pelos comentários. Um grande abraço, CLáudio.

Posted by: César Miranda at fevereiro 15, 2004 01:32 PM

Caro César, o mercado é mais complicado que o gosto do público sim. Além do gosto do cliente, o mercado também se define pelas firmas que geram a oferta. O preço de mercado não é definido apenas pelo gosto do público. Existem coisas como ganhos de escala de firmas muito grandes que geram barreiras de mercado para que outras possam entrar. Somente em "concorrência perfeita" o mercado pode ser definido pelo gosto do cliente e mesmo assim há restrições, porque também dependemos de recusos naturais não renováveis. Dentro de um mercado existe também as expectativas q vão além do "gosto" e que formam as decisões entre poupar e consumir, ou consumir agora ou consumir depois. Se você espera que o arroz vai mudar ficar mais barato você compra menos agora para comprar mais depois. Ou seja acaba que o mercado é definido também pela informação. Eu não estou definindo aqui o mercado mas apenas lhe mostrando porque acho muito ingênuo de sua parte falar que ele é apenas "gosto do público".

Posted by: Frederico at fevereiro 15, 2004 11:47 AM

Não acho que a teoria de Darwin seja uma doutrina religiosa. Se existem os "fiéis de Darwin", existe uma maioria que a vê apenas como uma explicação científica, restrita à biologia.

Explicação, aliás, que não chancela a existência de "milagres" que aconteceriam a todas as espécies, como você deu a entender. Com certeza você sabe que as mutações gênicas são descritas como um processo natural e até corriqueiro.

Continuo não vendo qualquer relação entre as duas partes do texto. Espero que a continuação da série explique melhor, mas me dê o direito de duvidar.

E essa definição simplória de mercado só é óbvia para fundamentalistas liberais. Depois acusam os outros de não enxergar a complexidade do mundo...

Posted by: Marcus Pessoa at fevereiro 15, 2004 01:06 AM

Essa série promete.

Só lamento que conceitos tão básicos com esse de mercado ainda precisem ser debatidos. Mas se é necessário, "vamulá"!

Abraços

Posted by: Cláudio at fevereiro 14, 2004 04:28 PM

Frederico, mercado é só isto mesmo, “gosto do público”, defina mercado para mim, vai, não se limite a dizer “não concordo”. O grande rei do mercado é o cliente e o que ele quer comprar. No dia em que o Brasil entender isto, seremos outro país pois foi percebendo essa obviedade que os países ricos ficaram ricos. Faça algo que o público queira e veja se não ficará rico. Esqueça do dinheiro, concentre-se em agradar uma boa quantidade de gente, (e cobre por isto, claro) e o dinheiro jorrará.
Carol, existem os pobres, é natural que existam e sempre existirão. Miséria e fome não. Existem os pobres, os miseráveis e pior, abaixo desses, há os desvalidos. A intenção do post, que é o primeiro de uma série de cinco, virá brevemente quando todos forem publicados.
Marcos, leia de novo o post, quando citei Darwin eu estava falando de religião, não de desigualdade econômica (eu quis dizer que só o ser humano evolui pois pode ascender à dividande, os animais serão sempre aquilo que foram feitos). Longe de mim querer montar polêmica... Sou péssimo de montaria.

Posted by: César Miranda at fevereiro 14, 2004 10:55 AM

Realmente, desigualdade financeira não tem nada a ver com Darwin e por isso é difícil achar alguém que monte uma polêmica em cima. Então, fica prejudicado o principal motivo do post existir.

Posted by: Marcus Pessoa at fevereiro 13, 2004 11:56 PM

Entender a desigualdade entre as pessoas e como conseqüência seu reflexo financeiro é sinal de maturidade e de maior entendimento das coisas. Aceitar a miséria, a pobreza e a fome como algo natural é algo totalmente diverso, e quero crer que não foi a sua intenção com o post.

Posted by: Carol at fevereiro 13, 2004 04:16 PM

Desigualdade financeira tá muito além do darwin para os crentes desta igreja poderem retrucar algo.
E falar que o mercado e apenas "gosto do público" forçou um pouquinho a barra.Não concordo.
Mas acho que o seu blog é para isso mesmo senão não chamaria pró-tensão. Deve ser por isso q eu descobri ele pelo link da página do alexandre e gostei tanto dele. É bom discutir, melhora o nosso argumento.

Posted by: Frederico at fevereiro 12, 2004 11:33 PM
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