janeiro 21, 2004

EPÍSTOLA

Carta de Paulo aos Romanos, Capítulo 12
“Irmãos, assim nós, embora sejamos muitos, formamos um só corpo em Cristo, e cada um de nós é membro um do outro. Temos dons diferentes, conforme a graça que nos foi conferida. Aquele que tem o dom da profecia exerça-o conforme a fé. Aquele que é chamado ao ministério dedique-se ao ministério. Se tem o dom de ensinar, que ensine; o dom de exortar, que exorte; aquele que distribui as esmolas, faça-o com simplicidade; aquele que preside, presida com zelo; aquele que exerce a misericórdia, que o faça com afabilidade. Que vossa caridade não seja fingida. Aborrecei o mal, apegai-vos solidamente ao bem. Amai-vos mutuamente com afeição terna e fraternal. Adiantai-vos em honrar uns aos outros. Não relaxeis o vosso zelo. Sede fervorosos de espírito. Servi ao Senhor. Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação e perseverantes na oração. Socorrei às necessidades dos fiéis. Esmerai-vos na prática da hospitalidade. Abençoai os que vos perseguem; abençoai-os, e não os praguejeis. Alegrai-vos com os que se alegram; chorai com os que choram. Vivei em boa harmonia uns com os outros. Não vos deixeis levar pelo gosto das grandezas; afeiçoai-vos com as coisas modestas. Não sejais sábios aos vossos próprios olhos.”

PS - Terei curtas férias. Uma ou duas semanas só. Enquanto não volto, continue a leitura disto aqui.

Posted by César Miranda at janeiro 21, 2004 08:05 AM
Comments

Boas férias, meu amigo. Quantas férias tiras por ano? Pará revisited? Abraço.

Posted by: Milton Ribeiro at janeiro 28, 2004 11:51 AM

18.1.04
Começa hoje a semana de oração pela unidade dos cristãos.
Penso que a unidade dos cristãos não é uma coisa que tenha que depender de políticas, acordos ou muito menos negociações ou exigências. Não é uma coisa de estratégias ou análises geo-estratégicas.
Contudo é, de facto, uma urgência, como diz o Papa. Mas não a qualquer preço.
Pelo que vou sentindo, acho que nesta questão do entendimento entre cristãos precisamos, antes de mais, de saber bem em que é acreditamos, as nossas próprias histórias de luzes e sombras e distinguir o essencial do acessório e, depois, é necessário conhecer os outros, perceber-lhes as razões históricas e doutrinais.
Os ferverosos do ecumenismo insistem com persistência na valorização daquilo que nos une, nos encontros apaixonados e de partilha absoluta.
As precipitações geram equívocos e novos e mais graves problemas.
Sou pela prudência. Os entusiasmos precipitados podem-nos levar à confusão. Às tantas, com tanta partilha e suposta unidade podemos ficar sem saber o que é importante e o que não é. A relativização dos valores religiosos adquiridos ao longo de uma vida pode ser fatal. Não faz sentido abdicar de valores que sempre se tiveram como certos apenas por uma questão de mero entendimento momentâneo.
Acho importantíssimos os apelos do Papa para que os católicos, em comunidade ou individualmente, estabeleçam contacto com comunidades ou indivíduos de outras tradições cristãs, sobretudo através da oração e da leitura do Evangelho, mas creio que também o distanciamento prudente é essencial para estabelecer uma unidade. Há uma certa distância propícia à melhor contemplação e percepção. Além disso, é necessário assumirmos que somos diferentes, que temos concepções e ideias distintas de uma fé que decerto radica no mesmo Senhor, Jesus Cristo. A unidade a ser feita só pode ser aquela que o Espírito, que sopra onde (...e como ...e quando) quer, permitir.
Parece-me mais importante para a unidade dos cristãos ir almoçar com um protestante e conversarmos acerca dos penalties da última jornada, do que aventurarmo-nos em considerações teológicas. (eu, que nem ligo a futebol...)
- posted by rui @ 18.1.04
Tirei daqui http://ruialme.blogspot.com
Muitas vezes, no afã de uma união, esquecemos que não podemos abrir mão daquilo mesmo que nos fazem o que somos. Sabemos do "essencial", mas o "acidental" faz parte inalienável do patrimonio espiritual do cristianismo universal, posto que é católico - não é adjetivo, mas a substância mesma.

Posted by: Pimenta at janeiro 22, 2004 01:08 PM

Amém, amigo César! Curta as suas curtas férias.
Um abraço.

Posted by: Chico Sena at janeiro 21, 2004 04:33 PM

Peço desculpas ao Cesar por colocar aqui este longo comentário (3!). Creio que o motivo do post foi que estamos na semana de oração pela unidade dos cristãos. Achei que seria conveniente meditarmos nas palavras de Sto Agostinho, com o maravilhoso fecho de Étienne Gilson e um pequeno "lembrete". Mais uma vez peço desculpas a ti, caro Cesar.

Posted by: Pimenta at janeiro 21, 2004 01:32 PM

Pimenta,
obrigado pelos belos textos!

Posted by: Rodrigo R. Pedroso at janeiro 21, 2004 11:34 AM

“Nós, seres humanos, somos muito propensos a buscar a verdade, mas muito contrários a aceitá-la. Não nos agrada que a evidência racional nos encurrale... Achar a verdade não é difícil, difícil é não fugir dela quando foi encontrada.” (Étienne Gilson)
Antes que possa parecer algo diluente por perversa inclusão que abdica dos princípios eternos e imutáveis, digo o que a Igreja, na sua condição inalienável de preceptora prega, a mensagem confiada a si pelo Cristo, anunciando-a sem escamoteá-la: repreender os turbulentos, apoiar os fracos, instruir os ignorantes, estimular os remissos, reprimir os desordeiros, pacificar os litigantes, socorrer os pobres, defender os oprimidos, aprovar os bons, castigar os opressores e amar a todos.

Posted by: Pimenta at janeiro 21, 2004 10:42 AM

A COMUNHÃO DO AMOR
Uma vez por todas, fique atento a este princípio: Ama, e faze
o que quiseres! Se calares, cala por amor. Se falares, fala
por amor. Se poupares, poupa por amor. Esteja em teu coração
a raiz do amor; dessa raiz só pode brotar coisa boa... Muitos
se abstêm do vinho, por causa dos irmãos mais fracos e por
causa da liberdade própria. Mas tudo deve ser feito conforme
o amor: o modo de viver, a palavra, a atitude externa, os
gestos. Dê cada um aquilo que tem. Um tem dinheiro: que
alimente os pobres, vista os nus, construa igrejas e faça com
o seu dinheiro todo o bem que puder. Outro possui o dom do
conselho: que seja um guia para o próximo, afugente com luz
amena as sombras da dúvida. Outro, ainda, tem inteligência e
erudição: que sirva do celeiro as iguarias do Senhor e
ofereça as refeições a seus semelhantes, fortaleça os
crentes, reconduza os errantes, vá em busca dos extraviados e
faça tudo o que estiver em seu poder. Também os pobres podem
prestar benefícios. Dificilmente se encontrará alguém que não
possa prestar socorro as ninguém. O último, porém não o
menor, vem nesta palavra do Apóstolo: "Suportai o fardo um do
outro, e assim cumprireis a lei do Cristo".
Se estenderes a mão, mas fechares o coração, nada fizeste.
Mas, se abrires o coração, ainda que nada tenhas a estender a
outrem, Deus aceita a tua esmola. Não é da bolsa que se tira
o amor.
O amor dentro de nós não sofre solução de continuidade, ao passo que os
deveres externos da caridade têm seu tempo e sua oportunidade. Deve a
caridade assemelhar-se ao fogo, apoderando-se primeiro do que fica mais
próximo, para depois estender-se ao mais distante. Teus irmãos te são mais
próximos do que todos os teus amigos. Um desconhecido é mais próximo do que
teu inimigo. São, pois, em primeiro lugar, os teus parentes, aqueles a quem
deves estender o teu amor... Dar com amor, nunca quer dizer perder. Dar é
lucro. Não se perde o que se dá, mas possui-se ainda mais intensamente. E
assim como não se pode dar amor quando não se tem, só se tem amor quando se
dá. Cresce todas as vezes que se dá, e tanto mais amor se adquire, quanto
mais homens se tornam felizes por ele.
Assim é o amor: só ele conhece o segredo de enriquecer cada vez mais a si
mesmo dando aos outros.
Sto Agostinho

Posted by: Pimenta at janeiro 21, 2004 10:37 AM

Sermão de Santo Agostinho.
Uma vez que ignoramos quais sejam os que pertencem ao número dos eleitos, devemos encher-nos de tanta força de amor, que a cada um desejemos a eterna felicidade, e ajudá-lo para que a alcance. O que nos leva a compreender os homens, é unicamente a carinhosa participação da sua vida. É o amor que nos dá conhecimento mais perfeito.
Nossos pais tinham o excelente costume de não rejeitar, mas reconhecer o que de bom e divino encontrassem, não contaminado, em alguma heresia, ao passo que expunham e retificavam devidamente que o erro ou o cisma contivesse de estranho e peculiar. Aos dissidentes devemos nós, os cristãos, demonstrar benevolência católica. Trata-se de curá-los. Estão com os olhos inflamados; só muito de leve podemos tocá-los. Ninguém arme controvérsias com eles. Ninguém se meta a polemizar, nem mesmo para defender sua fé, para que não venha acender alguma faísca, e para que, aos que procuram uma oportunidade, seja dada essa oportunidade. "Antes de tudo, procurai a paz e a santificação; porque sem elas ninguém pode contemplar a Deus " (Heb. 12, 14)...
A piedade procura Deus pela fé; a vaidade procura-o pela controvérsia. São dignos de louvor os que procuram a paz. Os que a odeiam, devem ser antes apaziguados por meio da doutrina e do silêncio do que irritados pela censura. Quem ama a paz, ama também os inimigos da paz. Quem ama a luz, não se irrita contra o cego, mas tem pena dele. Antes de condenares o cego, procura curar o infeliz que estiver ao teu alcance. Ouves uma injúria? Tolera, cala, esquece. Lembra-te de que deves curar. Mas injuriam a Deus? Tu o percebes; e Deus não perceberia? Tu o sabes; e Deus não saberia? E, no entanto, "Ele deixa o seu sol nascer sobre bons e maus, e chover sobre justos e injustos".
Mas o que farei? Eu te direi: fora com toda contenda! Entrega-te à oração. Não refutes com injúrias o injuriador. Não digo que te cales, mas que reflitas: falarás com ele no silêncio, de lábios fechados. Deixa falar o coração. Mas se alguém fizer questão cerrada de não aceitar a paz, se a todo o custo quiser brigar, responda-lhe pacientemente: "Dize o que quiseres; odeia o quanto quiseres; despreza à vontade: nem por isso deixas de ser meu irmão; irmão mau, irmão briguento, sim, mas sempre irmão..."
Andam por aí muitos faladores, mas corretos na fé. Nada mais fácil do que afirmar ou persuadir-se a si mesmo de haver encontrado a verdade: isto é dificílimo, na realidade! Queira Deus conceder-nos sentimentos de paz e um espírito tranqüilo, que antes procure sanar do que aniquilar! Vociferar contra homens de outro credo é próprio daqueles que não sabem o quanto é trabalhoso encontrar a verdade e o quanto é difícil preservar-se do erro.
Vociferem contra eles os que ignoram como é raro e penoso suplantar as complicadas imaginações humanas pela clareza de uma mente piedosa. Vociferem contra eles os que desconhecem a dificuldade que há em purificar a vista do homem interior, para que se capacite a ver o seu sol, o sol da justiça. Vociferem contra eles os que não sabem quantos gemidos e suspiros custa apanhar ao menos um tênue clarão do conhecimento divino. E, finalmente, vociferem contra eles os que nunca sucumbiram à ilusão do erro! Eu, francamente, sou incapaz disso.
"Forçoso é que haja dissensões", diz o apóstolo. Com demasiada indolência procuraríamos a verdade, se ela não tivesse adversários. Muitas coisas que fazem parte da fé católica devem primeiramente ser impugnadas pelas paixões irrequietas dos hereges, para que, depois, sejam apreendidas com maior clareza e realçadas com maior precisão. A questão tratada pelo adversário, torna-se estímulo para uma compreensão mais profunda. Assim, os hereges, por sua atitude hostil, trazem proveito aos membros verdadeiros católicos do corpo do Cristo. Deus se serve também dos maus. Por isso, a Igreja deve trilhar o seu caminho até o fim, entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus. O aguilhão do temor, o tormento da dores, o peso dos trabalhos, o perigo das tentações: tudo isso, para ela, redunda, no mundo presente, em educação e purificação".
Sto Agostinho.
Sermões, 357, 240, 51

Posted by: Pimenta at janeiro 21, 2004 10:36 AM
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