janeiro 17, 2004

DOS PALÍNDROMOS, TROCADILHOS E DA LÍNGUA

Faço adrede e amiúde os palíndromos. Trocadilhos quando surgem, faço mas não corro atrás, é bom não esquecer que Nosso Senhor Jesus Cristo também lançou mão do trocadilho ao dizer que Pedro seria a pedra onde Ele basearia a Igreja, o que fez o Barão de Itararé dizer que era um seguidor do Nazareno pois também era trocadilhista. São divertidos os dois casos - trocadilho e palíndromo - porque só em português fazem sentido e eu adoro nossa língua. Os palíndromos são uma espécie de engenharia prosódica ou arquitetura léxica como preferirem. Com esse exercício há um contato com a língua que a mera mecânica prosaica da escrita não nos dá. Quase não nos relacionamos de verdade com o nosso idioma, o utilizamos meramente para exprimir nossas idéias e nesta hora o importante são as idéias e não o idioma, que vira simples instrumento. Eu, que sou meio zen, adoro os instrumentos em si além de adorar o que eles nos dão. Meu violão é para mim tão precioso quanto a música que tiro dele. A língua é esse tal instrumento quando escrevemos. É fundamental assinalar que ninguém “faz” um palíndromo, este é sim, “descoberto”. Qualquer um que fuçar vai descobrir que uma palavra de trás pra frente é a mesma, que uma palavra juntada à outra forma uma frase que lida de trás pra frente é a mesma, etc. Há um livro em português de palíndromos, não conheço nem quero conhecer tal livro porque me atrapalharia em descobrir os meus, isto é, se alguém já viu tal livro e encontrar algum palíndromo igual aqui não significa nada, não é difícil chegar ao mesmo palíndromo, basta testar a mesma palavra. “Luz azul”, por exemplo é um dos primeiros palíndromos que se chega, quem quer que se dedique à coisa. Ao exercer a palindromia você tem que mergulhar realmente fundo no desenho das palavras e no sentido das frases, decompondo cada sílaba, não basta ser lido de trás para frente, tem que fazer algum sentido, então, há ali idéia e idioma presentes e unidos como se fossem um só. Gosto de expressões artísticas que imponham regras rígidas, coisas que a arte moderna nos roubou matando a rima entre outros crimes. Com isto perdeu-se também a importância que a palavra já teve. O idioma se tornou um instrumento descartável. Que importa em o idioma se ao soneto não é necessário rimas mesmo?! Assim para fazer poesia hoje, é só escrever frases a esmo e não ir até o fim da linha. Mole, mole!! Para terminar, eis um palíndromo que surgiu ao escrever este texto: "AMO IDIOMA".

Posted by César Miranda at janeiro 17, 2004 05:28 PM
Comments

Parabéns pelo blog é muito interessante. Só para constar meu aniversário já foi numa data palindrômica, qual seja, 20.02.2002. Bjos.

Posted by: Fabianna at dezembro 23, 2005 06:45 AM

nada a vê

Posted by: yy at fevereiro 17, 2004 11:47 AM

Caríssimo César,
Fiz uma conexão deste seu courier com minha série "Saudades de..." - neste caso do IDIOMA.
Abraço e boas férias.
BetoQ.

Posted by: Zadig at janeiro 22, 2004 09:28 AM

é suficiente.

Posted by: Flora at janeiro 18, 2004 08:27 PM

"você tem mergulhar realmente fundo no desenho das palavras"
lindo. mágico. eu não havia enxergado isso antes, obrigada pelo post.

Posted by: safiri at janeiro 18, 2004 03:06 PM

O Phillipe Barcisnki tem um curta-metragem chamado "Palíndromo", e volta e meia ele passa no Canal Brasil. Assisti anteontem, e é muito bom. Meio meta-filme, uma ótima idéia e bem executada. Outra referência à palíndromo, também do cinema, vem do filme "Os Amantes do Círculo Polar", do espanhol Julio Medem. Os protagonistas se chamam Otto e Ana, e várias vezes eles falam sobre essa relação com as letras.

Posted by: Rodrigo at janeiro 18, 2004 02:17 PM

Gostei muito do texto!!!
Além de tudo, que alívio ler "Assim para fazer poesia hoje, é só escrever frases a esmo e não ir até o fim da linha". Já estava achando que o problema era comigo...

Posted by: Cláudio at janeiro 17, 2004 06:08 PM
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