
“(...)a ficção, para ser purificadora, precisa ser atroz. O personagem é vil para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós. A partir do momento em que Ana Karenina, ou Bovary, trai, muitas senhoras da vida real deixarão de fazê-lo. No "Crime e castigo", Raskolnikov mata uma velha e, no mesmo instante, o ódio social que fermenta em nós está diminuído, aplacado. Ele matou por todos. E, no teatro, que é mais plástico, direto e de um impacto tão mais puro, esse fenômeno de transferência torna-se mais válido. Para salvar a platéia, é preciso encher o palco de assassinos, de adúlteros, de insanos e, em suma, de uma rajada de monstros. São os nossos monstros, dos quais eventualmente nos libertamos, para depois recriá-los” (Nelson Rodrigues, O remador de Ben-Hur, Cia das Letras)
O texto do Nelson Rodrigues é muito bom, o livro é delicioso. São crônicas selecionadas sobre artes em geral. Lê-se de uma vez. Altamente recomendável. Mas já não sei mais se concordo com o cerne da questão. Esta é apenas o argumento que o Nelson usa para fazer peças com conteúdos grotescos como as dele. Fico imaginando um texto desses escrito por algum diretor de filme pornô como o Stagliano justificando a pornografia. Ou de compositores de música ruim. Eu por exemplo não faço personagens engraçados para que as outras pessoas tenham seu senso de humor aplacado... Nem jamais faria um bandido na esperança de que aquele bandido salvasse alguém da bandidagem, seria muita pretensão. É uma boa discussão.
Posted by: César Miranda at dezembro 17, 2003 10:16 AMAve César,
Tem certo sentido, mas não me parece muito de acordo com o "senso comum".
Repito o que disse em nosso último encontro: só não consigo explicar "Gang(u)es de Nova York" - com aquele rio de sangue ;-)
Haja ódio social para ser aplacado com tamanha selvageria (ou seria barbárie?).
Abraço fraterno,
BetoQ.
Ops, péssimo momento para confessar a leitura de Lolita.
Posted by: DGR at dezembro 16, 2003 03:23 PMAh, sempre que eu ficava puto com o meu velho corria pra ler "Os Irmãos Karamázov".
;>)
Nelson Rodrigues leu Rene Girard ?
Posted by: André S at dezembro 16, 2003 03:06 PMEssa história é tão antiga quanto o Ari da Macedônia, mas ficou bem boa na versão do tarado de pijama. Abraços, César.
Posted by: Ruy at dezembro 16, 2003 03:05 PMEssa é a tal da transferência de que tanto se falava nos anos 60 e 70?
;O)
Freud foi muito ishperto. Em vez de montar uma companhia teatral, resolveu ser diretor de almas, delivery.
Ele mesmo poderia dizer que o aburguesamento é uma acomodação, uma domesticação.
Resta o comentário Buarque: Maldita Geni.
Posted by: DGR at dezembro 16, 2003 03:00 PMÓtimo trecho, César. Espero que ajude a salvar esta platéia. Um abraço.
Posted by: Chico at dezembro 16, 2003 02:41 PMExcelente.
Posted by: FDR at dezembro 16, 2003 02:37 PMO Nelson tem a coragem de mostrar as nossas faces que ficam escondidas em mantos de hipocrisia.
Posted by: Chico Sena at dezembro 16, 2003 10:44 AM