novembro 28, 2003

PAPAI NOEL ROSA

Noel Rosa (uma página boa sobre ele, clique aqui)é o pai de todos nós que amamos a boa música brasileira. Ele é o grande nome do afluente que gerou o samba-canção, a bossa nova e a geração seguinte de Chico Buarque e Paulinho da Viola. Sua música é negra, branca e índia, mas é, sobretudo excelente. Noel morreu mais cedo do que qualquer ser humano deveria, nem o Cristo viveu tão pouco, Noel não tinha 27 anos quando o Criador entendeu que sua missão estava terminada. Mas no pouco que viveu fez uma revolução. Sucesso de público e crítica enquanto viveu, hoje e sempre continuará sendo amado, lembrado, regravado. É ele, e não aquele senhor mítico de barbas brancas que voa em um trenó puxado por viados, o nosso Noel. É possível - e até aconselhável - fazer uma rádio que só toque canções de Noel Rosa. Há delas para todos os gostos. Ele era muito bem humorado, muito culto, harmonicamente à frente de seu tempo e poeticamente perfeito. Costumava dizer que como não tinha queixo, "não tinha do que se queixar". Com a música de Noel ninguém tem do que se queixar. Sua obra, apesar de razoavelmente gravada, é insuficiente em quantidade e pobre é o cuidado das gravações existentes. Imagino quantos CDs dedicados exclusivamente a Chico Buarque saíram na década passada, pois bem, isto já deveria ter sido feito com a obra de Noel há tempos. Chico, inclusive, é chamado, mui justamente, o herdeiro musical de Noel. No caso de Noel e Chico poder-se-ia dizer que a máxima marxista funciona às avessas porque Noel era um humorista, um brincalhão, mesmo falando sério notava-se uma ironia onipresente. Chico não tem quase senso de humor, desta forma, a farsa teria ocorrido primeiramente em Noel para depois a tragédia surgir em Chico (farsa e tragédia aqui no sentido teatral do termo). Há, da década de 70, um disco de Nelson Gonçalves, depois só no começo dos anos 90, o MPB4 fez um muito bom com um “Quem dá mais” de tirar o chapéu, Almir Chediak produziu um songbook com partituras e um CD onde Tom Jobim canta duas canções de Noel - João Ninguém e Três Apitos - em interpretações de arrepiar. Em 1997 Ivan Lins lançou o CD triplo Vivanoel - Tributo a Noel Rosa (Velas), façanha louvável vinda de alguém que não é propriamente nem intérprete (sim um consagrado compositor) nem sambista. Houve também os dois CDs de Henrique Cazes e Cristina Buarque cantando Noel, um do Johnny Alf com o pianista Leandro Braga o CD do Zé Renato, interpretando justamente Noel e Chico (o CD chama-se Filosofia que é o nome de um samba de Noel gravado por Chico Buarque em seu disco Sinal Fechado), o grupo Garganta Profunda lançou um CD também chamado "Chico e Noel em revista" mas não ouvi ainda, os outros citados, posso dizer, são obras mais do que recomendáveis, porém é muito pouco. Atribuo essa escassez de Noel no nosso mercado fonográfico a apenas um componente importante da cultura nacional, a burrice. Omar Jubran, um paulista professor de biologia organizou a caixa Noel Pela Primeira Vez (Velas), de sete CDs duplos com 229 faixas, documento fundamental para quem quiser ir fundo – ou simplesmente se divertir bastante - na obra do sambista da Vila Isabel. A preciosidade pode ser vista e adquirida, clique aqui. A página traz links para um panorama sobre Noel sua música e sua época, uma beleza. Duas obras bibliográficas fundamentais sobre Noel Rosa é o monumental - "Noel Rosa - Uma Biografia", de João Máximo e Carlos Didier - biografia, Editora UnB, 1990 (clique aqui para ver a capa) e o - "Songbook Noel Rosa", Lumiar Editora, 1991 (clique aqui para ver a capa) Mais dois livros importantes sobre Noel Rosa são “Noel Rosa - Língua E Estilo” Castelar de Carvalho e Antonio Martins de Araujo, Thex Editora (detalhes aqui) e O Jovem Noel , de Guca Domenico, Editora Nova Alexandria (detalhes aqui) Se eu fosse a Maria Bethânia gravaria um CD só com Noel Rosa (com arranjos de Francis Hime). Se eu fosse o João Gilberto também. Nei Matogrosso, Mônica Salmaso, Olívia Hime, Olivia Byington, Nana Caymmi, Doris Monteiro, João Bosco, Zeca Pagodinho, Wando, Falcão, Reginaldo Rossi, todos, todos, gravem Noel, todos vão adorar porque Noel é o que há. Posted by César Miranda at novembro 28, 2003 10:59 AM
Comments

Nelson, esse disco que você cita é realmente excelente, felizmente já existe em CD. Onde você mora?
Nesse disco, a interpretação de Nelson de
"só pode ser você" é uma maravilha.

Posted by: César Miranda at abril 30, 2004 07:35 PM

Nos idos dos anos 80, ao descer do meu carro na marques de Olinda, no Botafogo RJ, no que coloquei o pe´pra fora, vi uma fita K7 caida, apanheia e a deixei sobre o banco. Ao retornar a coloquei no aparelho, e começou as mais linads musicas que ouvi até hoje. A fita chama-se Nelson Gonçalves Interpretando Noel Rosa. Por anos seguidos a ouvi, seguidamente, mas infelizmente, ela não tinha que ser minha, um dia após deixar o carro na rua, me levaram o Toca-Fitas, mas oque me deixou profundamente triste, não foi o aparelho e sim a minha, sim, minha, pois achado não é roubado, fita do Nelson Gonçalves Interpretando Noel Rosa, que nunca mais eu encontrei em loja nenhuma, e procuro até hoje....

Posted by: Nelson O Barata at abril 30, 2004 02:48 PM

Noel Rosa é um mestre, definitivamente. Uma das melhores regravações que conheço é de "Pra Que Mentir", na voz e violão de Paulinho da Viola. Além de Maria Bethânia, Chico Buarque também deveria gravar um álbum-tributo ao gênio da Vila Isabel, que em sua curta vida foi tão bem assessorado por letristas do porte de Vadico, João de Barro e Orestes Barbosa.

Posted by: Inagaki at dezembro 1, 2003 11:27 PM

Nelson,

Esse do Ivan é triplo e não duplo. O terceiro volume saiu para clientes do Banco do Brasil. Feliz de mim que tenho amigos lá que vez por outra me fornecem essas jóias :-) qualquer coisa, faço uma cópia do bem pra vc.

Cesar,

Não se esqueça de ir me ver amanhã com o Grupo Vocal CELACANTO PROVOCA MAREMOTO, na Escola de Música de Brasília, às 19 horas !!!

adalBErTO

Posted by: adalBErTO at dezembro 1, 2003 09:15 AM

Obrigado a todos pelos comentários. Infelizmente estou sem tempo para falar a cada um particularmente. Agradeço a inestimável ajuda da
Juliana e do Marcelo para o post ficar como ficou.
Voltem sempre.

Posted by: César Miranda at dezembro 1, 2003 08:58 AM

Concordo que 3 apitos com Betnahea é divino...
Tenho uma coletânea de Noel... mas vou procurar esses outros que voce citou no post...

Posted by: nora at novembro 30, 2003 02:52 PM

Mon cher ami,
Eu e o Nélson somos privilegiados, porque vimos nascer este courier, lá na tabacaria Blend (o Milton vai morrer mil mortes de ciúmes!).
E que bom pensar que o Brasil merece um monte de talentos assim.
Às vezes, pensam que eu sou um francófono cruel que não sabe de nada do que se passa no Brasil, então, eu venho aqui e digo tudo isso para não parecer tão cruel. Só por isso. C´est déjà ça.
Meu caro, Noel é uma dádiva.
O Criador quis que ele só produzisse até os 27! É um real e aventurado texto. As pessoas as vezes não se dão conta de quão importante é observar. A observação é nosso dom. Você é um observador, poderia ser romancista, se não fosse poeta. Mas romancista é trabalhoso demais.
Ah, sim.! Chesterton falando de S. Francis é pontual: 'toda o nosso conhecimento de alguns períodos históricos ... fundamenta-se em certas crônicas"... Os jornalistas brasileiros tornaram as crônicas de nosso passado alguma coisa sem ligação (link) com o passado abrangente e por isso, talvez, talvez, Noel seja um passado desconhecido para a maioria.
É só uma hipótese.
Abraço fraterno,
BetoQ.

Posted by: Zadig at novembro 29, 2003 03:45 PM

Caraca, Romulo - não é que tá lá mesmo, no texto, a citação ao Ivan? Juro que da primeira vez eu não vi! Acho que são as prestidigitações literárias do César... ;>)

Amplexos

Posted by: Nelson da Praia at novembro 29, 2003 11:06 AM

Ué, Nélson, ele falou sobre o cd do Ivan Lins sim. Só que falou pouco: esse cd triplo, sim é triplo não duplo, é fundamental para quem quiser conhecer o Noel em interpretações primorosas, a gravação de Ivan para Com Que Roupa? ou O Orvalho Vem Caindo com a participação do Fundo de Quintal é o que há - e eu sou mais um dos que não suportam Ivan Lins de jeito algum, mas nesse cd ele está irreconhecível, graças a Deus - grande post Cesar;

Posted by: ROmulo at novembro 28, 2003 08:46 PM

adorei os links
:o)))

Posted by: Dani at novembro 28, 2003 05:40 PM

César, só pra incluir na lista, faltou o CD duplo do Ivan Lins, "Viva Noel", também pela Velas.
E do songbook do Almir, concordo com o Milton sobre a Bethânia e ainda incluiria o baticum insuperável que o Gil mandou em "Com Que Roupa?"
(e ainda esticando o tópico: inesquecível também o CD da Cristina cantando Wilson Batista -- "A Gente Ganha Pouco Mas Se Diverte" --, justamente pelo Wilson ter sido o "rival" do Noel em um dos embates musicais mais criativos que a MPB já presenciou)

Amplexos praianos

Posted by: Nelson da Praia at novembro 28, 2003 03:04 PM

Tens razão. A Bethania fez a maior gravação que ouvi de Três Apitos. Noel merece ser mais revisitado mesmo. O grupo Rumo, nos anos 80, fez gravações memoráveis de suas músicas cômicas. Grande abraço.

Posted by: Milton Ribeiro at novembro 28, 2003 11:12 AM
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