OBSERVAÇÕES SOBRE AS HISTÓRIAS DE DETETIVE
A típica seqüência de fatos numa história de detetive é esta: um homem que todos consideram como respeitável e incapaz de qualquer atitude indigna comete um crime abominável. Ninguém suspeita dele. Mas o esperto detetive não pode ser enganado. Sabe tudo sobre esses santarrões hipócritas. Reúne todas as provas para condenar o culpado. Graças a ele, a boa causa finalmente triunfa.
O desmascaramento do trapaceiro que se faz passar por cidadão respeitável era, com implícita tendência antiburguesa, um tópico muitas vezes tratado até em alto nível literário como, por exemplo, por Ibsen em The Pillars of Society. A história de detetive desvenda a trama e nela introduz o caráter desprezível do investigador farisaico que se compraz em humilhar um homem que todos consideravam cidadão impecável. O que motiva o detetive é o ódio subconsciente que tem do "burguês" bem-sucedido. Do lado oposto ao detetive estão os inspetores da força policial do governo. São por demais tolos e parciais para resolver o mistério. Fica às vezes subentendido que eles estão inconscientemente inclinados a favor do culpado, cuja posição social muito os impressiona. O detetive supera os obstáculos que a morosidade dos inspetores coloca em seu caminho. O triunfo dele corresponde ao fracasso das autoridades do governo burguês que escolheram tais policiais. Isso explica por que a história de detetive tem popularidade junto às pessoas que sofrem de ambição frustrada. (É claro que também existem outros leitores de história de detetive.) Sonham dia e noite em despejar sua vingança sobre os competidores bem-sucedidos. Sonham como o momento em que seu rival “de pulsos algemados é levado pela polícia”. Esta satisfação lhes é indiretamente fornecida através do clímax da história na qual se identificam com o detetive e vêem no criminoso apanhado o rival que os sobrepujou.
Ludwig Von Mises (A Mentalidade Anticapitalista)
Pelo jeito o Professor Mises era um analfa em matéria de livro de detetives. Não ter lido Chesterton torna qualquer um meio analfabeto mesmo.
Posted by: César Miranda at novembro 19, 2003 10:59 AMCésar, esse trecho do Mises é bem interessante. Mas ele parece jamais ter lido as histórias do Padre Brown, escritas pelo Chesterton. Sozinhas, elas desmentem ponto por ponto o que Mises diz aí: Padre Brown, detetive e conhecedor dos desvãos da alma humana, é tudo menos um "investigador farisaico", de "caráter desprezível". Os cidadãos que ele investiga nem sempre são considerados impecáveis (aliás, Flambeau, o primeiro deles, regenera-se e passa a ser seu aliado). Afinal, nas palavras de Chesterton/Brown, "every conceivable kind of man has been a saint, and every conceivable kind of man has been a murderer". E quem não gosta de tentar resolver um mistério simplesmente pelo que nele há de jogo, sem que se faça, nem subliminarmente, essa identificação do "cidadão acima de qualquer suspeita" com o "burguês desprezível"? Além disso, o detetive genial pode ser visto como um indivíduo cujas soluções são mais inteligentes que as da mediocridade estatal. Mas já escrevi demais. Abraços.
Posted by: Ruy at novembro 18, 2003 04:18 PMIsso pode ser verdade para a história popular de detetive. Mas não para as histórias de Edgar Allan Poe. No conto "Tu és o Homem!", o que se mostra é um demagogo que maneja as massas populares sendo desmoralizado pelo detetive.
Posted by: Flamarion at novembro 18, 2003 04:15 PM