Capítulo I
Só tem uma coisa pior que o barulho. É o silêncio. São duas da manhã e a cidade está mortinha da silva, nada se ouve, que coisa terrível, esse maldito silêncio. De repente ouve-se um latido, que diabo, não se pode pensar em paz que vem um maldito cachorro latir a quilômetros de distância nos cafundós do Judas?!?! Claro, só o ouço a essa distância por causa do maldito silêncio absoluto. Se a cidade estivesse viva e pudesse eu ouvir os barulhos normais, a desgraça desse cachorro passaria despercebido. Mas isto também é terrível. Achar normais os barulhos da rotina a ponto de não ouvirmos um cachorro latindo a alguns quilômetros. O silêncio é deprimente. O barulho por sua vez me deixa realmente de mau humor, eu fico louco com muito barulho a minha volta. Não sei o que é pior. Parece que é o silêncio. Talvez por ser meu drama atual. Amanhã terei saudade de hoje. Isto se eu dormir porque enquanto você não dorme ainda é hoje. É justamente por isto que dormimos para termos a vã ilusão de que estamos começando algo novo no dia seguinte. Conversa fiada, não há nada de novo nunca. É sempre a mesma realidade de sempre. De dar náuseas. Mas algum idiota metido a esperto deu para dividir a vida em espaços distintos para evitar a loucura. Uma vida sem o sono diário (ou noturno) e a sanidade iria muito cedo. Diabos, agora é a porcaria de um grilo. Os grilos também só são ouvidos nas noites silenciosas. O dia cala os grilos. Será que o grilo se emudece durante o dia? Pouco provável. Certamente os cães os ouvem. Que diferença fará o silêncio ou o barulho para um cão? Os cachorros devem preferir a noite e a tristeza. Quando se tem muita alegria, tem-se muito barulho. É som alto (caixa com mil decibéis que deixa o mundo parecendo a Bahia com seus malditos trios elétricos, invenção do cão), foguete, eu sou como um cachorro, odeio esses barulhos. Aqueles que os soltam deveriam ser empalados com seus foguetes. Os pobres cachorros entram debaixo das camas com medo dos barulhos. Os cachorros merecem tal castigo de vez em quando, afinal é um tipo de animal realmente insuportável, mas eu, o que fiz, para ficar agüentando os tiros de canhão dos tais foguetes? Tem que ser muito débil mental para associar isto com alegria. O correto seria usá-los para a tristeza. “Vejam, corram, venham aqui me ajudar, estou triste, me alegrem, por favor, por isto soltei o foguete”. Mas significa justamente o contrário: “estou feliz e você não tá, toma um tiro em seus tímpanos, seu maldito infeliz”. Ô chatice! Imagine um dentista em seu trabalho insuportável de olhar para a boca das pessoas com instrumentos perfuro-cortantes nas mãos, no auge daquela carnificina bucal, um infeliz, só porque tá feliz, solta um foguete? O problema é que um som não avisa quando vai chegar, ele chega primeiro. Você não tem escolha, se tivéssemos seria melhor. Será que chegaremos a esse ponto? Você recebe um telefone que lhe pergunta, “você quer ouvir um estrondo descomunal daqui a dez segundos?” Você responde “claro, não vejo a hora”, estão o estrondo se dá. Agora são três horas, estou quase desmaiando, vou dormir muito tarde hoje, o que significa que amanhã ficarei todo o dia com um sono atroz e não há nada mais ruim que o sono irrealizável. Não adianta tomar porcarias como café com coca-cola, comigo isto não funciona. Jamais funcionou, apenas adiciona-se ao sono o arroto, o mau hálito e uma possível gastrite. Por isto, não tomo qualquer excitante para o meu sono, quer coisa mais nojenta que guaraná em pó, oh, coisa ruim!. E comigo funciona tanto quanto musse de maracujá, isto é, nada, quando não piora o sono porque eu fico na maior expectativa de que ficarei cem por cento esperto e como a esperteza não vem, soma-se ao sono a frustração e a sensação da perda de tempo e dinheiro por ter caído no conto das gororobas acordativas. Assim viro apenas um otário sonolento.
Posted by César Miranda at novembro 21, 2003 08:11 AMObrigado a todos pelos comentários. Inclusive ao Nelson da Praia do Nelson que me parabenizou pessoalmente pelo texto em nosso excelente encontro no sábado em Goiânia.
É bom que se diga, jamais tenho insônia. Durmo muito bem. A única coisa que me impede de dormir é falta de sono. Jamais virei a noite por qualquer motivo. O texto é pura ficção. O estilo é uma caricatura do jeito de escrever de Hermes Pinto. Não conhece Hermes Pinto? Pois conheça!
A última notícia que eu soube, ele escrevia para o jornal A Notícia de Joinville - http://www.an.com.br/ Quem souber por onde anda, me conte.
Muito barulho é uma praga e soltar foguetes uma forma de baixar porrada nos outros sem cair nas garras da justiça. Muito silêncio pode ser bom, cachorro ao longe (bem longe) pode ser poético, grilo muito insistente é muito chato, mas se for um grilo contido tem seus encantos. Moral: tudo demais neurotiza e atenaza. Mas de insônia não gosto não. Conheço bem e não gosto. Prazer em conhecê-lo. Uma maldita semana bem legal.
Posted by: adade at novembro 23, 2003 11:30 PMCésar, vi uma indicaçao de seu blogger na Praia do Nelson e vim te visitar... Estou gostando do que leio... e vou escarafunchar mais por aqui.
Gosto de ler devagar e várias vezes.
Quanto ao silêncio do seu post, posso acrescentar uma experiência interessante... ele incomoda nas primeiras horas... mas depois é uma delícia.
Fiz um exercício de silêncio com um grupo de pessoas, por 4 dias inteiros. Tinhamos que fazer tarefas juntos, mas ninguém podia falar nem Mú.
Assim, nas primeiras horas fiquei incômoda, como se tivesse um coisa entalada na garganta... um nao dito de última hora. Depois fiquei rindo por dentro do ridículo, meu e dos outros.
No dia seguinte fui entrando em contado com os ruídos do silêncio, o ladrido de um cao, um grilo, um sapo... e depois foi entrando uma paz tao grande... Um dia eu conto no meu blogger.
Foi bom ter lido voce... assim me lembrei disso, tanto tempo esquecido em mim.
Rapaz, depois de ter extraído ontem toda a bile e a fel do meu fígado com esse meu hateful comment, eu dormi como uma pedra! Acordei agora há pouco e sinto-me ótimo. Oh, eu estava precisando disso. Obrigado, meu caro César, e um grande abraço.
:-))
Posted by: Felipe Ortiz at novembro 22, 2003 11:25 AMPois a insônia rendeu um bom texto.
Eu tenho a suma desgraça de morar há vários anos perto de bares, boates e danceterias freqüentadas por infelizes que estão lá todas as noites, rindo, berrando embriagados pelas ruas e ouvindo música nos alto-falantes de seus carros, ligados no último volume e com as portas abertas, às três, quatro, cinco horas da manhã, inclusive durante os dias de semana.
Muito da misantropia e do pessimismo que compõem o meu caráter se deve a essa casualidade, imagino. Hoje odeio tudo o que se associa com diversão noturna. Odeio bares, bebidas, músicas de sucesso. Odeio gente que ainda está em bar durante a madrugada ("é-tudo-vagabundo", dizem todos os velhinhos de todas as épocas, e com eterna razão). Odeio a associação barulho & escuridão noturna que tantas e tantas vezes me roubou o sono - o único bem dos dias mais duros, a única consolação nos meses de abismo, covardemente arrancada de mim.
Tudo o que eu queria desesperadamente era poder dormir no meio do mais completo silêncio, a quilômetros de qualquer ser humano desperto - digo, de qualquer ser humano (não quero ouvir-lhe o ronco).
Mas essa é a cruz de cada dia, ou de cada noite, César.
Posted by: Felipe Ortiz at novembro 21, 2003 10:46 PMBoa, César. Fiquei neurastênico só de ler esse texto. Agora não consigo parar de cantar aquela musiquinha:
Brrrrrr
Ai, que nervoso estou
Brrrrrr
Sou neurastêni-cô
Brrrrrr
Preciso me tratar
Senão eu vou pra Jacaré-paguá
Nunca entendi o que Jacarepaguá tinha a ver com a neurastenia, mas tudo bem. Abraços.
Posted by: Ruy at novembro 21, 2003 10:19 PMÔ textinho bom...
Posted by: Dr.P at novembro 21, 2003 12:11 PMCésar, excelente texto. Eu quase parei a leitura pelo meio, com medo de ter insônia hoje...
Posted by: flaviogodinho at novembro 21, 2003 10:03 AMOnde se lê insurpotáveis, leia-de insuportáveis.
Posted by: Chico Sena at novembro 21, 2003 09:44 AMCésar, os "sons" do silêncio são realmente insurpotáveis. Nossos ouvidos são tão acostumados ao barulho, que o silêncio absoluto nos incomoda. Boa sacada a sua.
Posted by: Chico Sena at novembro 21, 2003 09:42 AM