novembro 25, 2003

ABAIXO AS CRECHES

Escolas têm sido nada mais do que creches para jovens e adultos. Ser estudante é um estado de espírito. Nas salas de aula, estuda quem quer, quem não quer cola, compra trabalhos feitos (tenho uma amiga que vive de fazer trabalhos), além disto, aos professores é proibido reprovar alunos. Meu pai sabe ler, escrever e matemática e jamais pisou em sala de aula. Nossos maiores filósofos - Miguel Reale, Tobias Barreto, Millôr Fernandes (é filósofo sim), Mário Ferreira dos Santos, etc - jamais fizeram o curso de filosofia (os filósofos que fizeram são meros professores de história da filosofia, como pensadores são lamentáveis), aliás não são só os brasileiros, tal dado se aplica aos grandes filósofos do mundo (os bons não são bacharéis, os bacharéis não são bons). Se eu tivesse um filho, primeiramente tentaria não mandá-lo para escola alguma antes da maioridade, se isto fosse absolutamente impossível, uma vez que o Estado obriga os pais a mandarem os filhos para as escolas, mandaria para uma escola pública onde os professores dificilmente aparecem e quando aparecem, as aulas terminam mais cedo. Só deveriam existir escolas técnicas. Isto é, se você quer aprender tocar violão, fazer móveis ou uma língua estrangeira, um professor lhe ajudará a ganhar tempo, fora isto, quem quiser aprender cidadania, filosofia, literatura, teorias em geral, que vá atrás por conta própria. Após a alfabetização, que pode ser feita em casa (pena que não dá para fazer um teste real mas tenho certeza que uma criança de seis anos deixada sozinha com TV, Internet e um computador aprende a ler e escrever sozinha, como ficará sua moral são outros quinhentos...), o único livro obrigatória deveria ser “Como ler um livro” de Mortimer J. Adler, todos os outros viriam em conseqüência deste. Economizaríamos horrores com um sistema simples assim. Mesmo que você não concorde com nada disso que escrevei, guarde apenas essa verdade, estudar não tem nada a ver com sala de aula! Todos concordam que devemos estudar sempre mas quando ouvem alguém dizer “estuda, rapaz!”, o rapaz imagina logo que deve matricular-se em uma instituição de ensino qualquer e gastar quinhentos reais por mês e então desiste da idéia. Bobagem, essa é justamente uma das formas de não aprender nada. Reitero, leia o livro do professor Adler (há uma tradução também chamada “A Arte de Ler” que é a mesma coisa) e economize seu dinheiro com a pletora de cursos vagabundos que existem por aí.

Posted by César Miranda at novembro 25, 2003 08:00 AM
Comments

Gente,
Desculpe meu aparente descaso, tenho estado atarefado. O assunto tomou um rumo muito interessante nos comentários. Haverá outros posts sobre o tema certamente. Principalmente sobre o Professor Adler a quem nunca é demais elogiar e recomendar que leiam, leiam, leiam. Porfiro, gostei da idéia de um curso sobre autodidatismo, pode ser levada a sério ou não, dá um post satírico, do tipo, “faça nosso curso sobre autodidatismo em nossas amplas instalação em apenas cinco anos a 850 reais por mês.”
Parece que quase todo mundo tem uma experiência na família de alguém que aprendeu sozinho muito mais do que o que hoje se gasta rios de dinheiro e muito tempo. A história de meu pai (em que seu irmão mais velho aprendeu a ler e aritmética e ensinou para os irmãos mais novos) é comum a quase todos da geração dele, pobres (de dinheiro) como eles eram. Felipe, bem lembrado o Olavo de Carvalho, os césares de daqui a 200 anos, quando fizerem um post como este, certamente o citarão em primeiro lugar. Francamente, em caso de pindaíba, eu não me recusaria a viver de fazer monografias. O problema do fazedor profissional de monografias é que se trata de um gost-writer por excelência, se adquirir fama (e puder cobrar mais caro pelo trabalho), levaria tudo a perder, logo um professor diria, “conheço este estilo, foi o César quem fez seu trabalho, não foi?!”. Investigar o assunto do “homeschooling” é um assunto perfeito para o Super Felipe, vou cobrar, hein!. Poderíamos também encaminhar sugestões para políticos a fim de que isto se viabilize legalmente pois, pelo que sei, no Brasil, somos obrigados a mandar nossas crianças à escola sob pena de irmos para o xadrex.
Quanto aos livros da Agir e qualquer livro fora de catálogo, trata-se do que se pode chamar “latifúndio cultural”. Alguém é dono de uma riqueza imensa, fora de catálogo, em alguns casos impossíveis de ser adquirido e se eu possuir uma obra dessas e mandar uma cópia xerocada para você, sou um criminoso. Deveríamos fazer o MSLR – Movimento dos Sem Livros Raros – mas sem invasões, por favor.
Quanto aos preços de livros nos sebos, já comprei livro de 10 reais em Goiânia que em Salvador achei de 45. Em casos graves devemos, antes de adquirir algum livro, recorrer aos amigos, há donos de sebos e donos de sebos por este país. Esse Brandão, por exemplo, nem passarei na porta para não passar raiva.
Marcelo, muito boa a indicação do livro de Ivan Illich. Cláudio, Beto, Nora, Paulo, Rodrigo e Nelson obrigado pelos comentários.
cesar

Posted by: César Miranda at novembro 27, 2003 10:03 AM

Achei na Web o livro de Ivan Illich que o Marcelo recomendou:

http://web.archive.org/web/20030402035147/philosophy.la.psu.edu/illich/deschool/intro.html

Posted by: Felipe Ortiz at novembro 27, 2003 12:27 AM

Adalberto e Nelson: Bem lembrado o imenso enxugamento de gelo que é o pré-escolar. Fiz um ano de jardim quando já sabia ler, quer dizer, já estava de olho em algo mais elevado quando meus colegas só queriam saber de massinha e brincadeira de roda (tenho que ser justo: para fazer o que criança faz naturalmente, o jardim era bom. Mas brincar e brigar não se aprendem na escola.).

No ano seguinte, aos cinco anos, já em outro bairro e outra escola, fui escalado para uma certa classe de "adaptação". Fiquei uma semana, se tanto, cobrindo pontinhos para formar caracoizinhos estúpidos enquanto meus colegas faziam cocô nas calças.

Fui promovido à turma de alfabetização. Se fosse nos caça-níqueis escolares de hoje, eu teria mofado um ano inteiro na adaptação aprendendo o que eu já sabia: segurar o lápis como gente.

Posted by: Paulo C. Barreto at novembro 26, 2003 03:25 PM

Rodrigo, meu caro,

Muito obrigado pela informação. Vou ficar de olho. A Agir tinha tantos livros bons que já esgotaram, não?... Torço para que um dia algum editor de visão assuma o comando por ali e decida desenterrar os muitos tesouros ocultos do catálogo daquela editora.

Ah, o Brandão, o Brandão. Quando eu leio alguma coisa sobre o comportamento de empresas monopolísticas, sempre me lembro do Brandão. :-)

Forte abraço,

Posted by: Felipe Ortiz at novembro 26, 2003 12:01 PM

Beto, você esqueceu o Massinha I, Massinha II e a pós-graduação em Casinha com Sol pra Colorir: uma Revisão à Luz Kantiana.
;>)

Posted by: Nelson da Praia at novembro 26, 2003 11:42 AM

Caro Filipe,
A tradução "A arte de ler" foi publicada a tempos pela Agir. Creio que seja melhor que a da UniverCidade (na qual verifiquei alguns erros de tradução). Uma vez encontrei um exemplar no Sebo Brandão (Rua Xavier de Toledo, centro de São Paulo), mas o cara, como de costume, me pediu os olhos da cara pelo livro. Não sei se ainda está lá.
Um abraço fraterno,
Rodrigo R. Pedroso.

Posted by: Rodrigo R. Pedroso at novembro 26, 2003 10:13 AM

Cesar,

Lembro que minha mãe, professora particular, me ensinou a ler quando eu tinha 5 anos. Entrei na alfabetização por bobagem. Hoje em dia, os bebês (sim, bebês) entram na creche e enfrentam uma verdadeira universidade: Maternal, Jardim I, Jardim II, Pré isso Pré aquilo até chegar, finalmente à alfabetização.

Beto

Posted by: adalBErTO at novembro 26, 2003 09:14 AM

Eu aprendi a ler e escrever em casa. Aprendi muitíssimo bem e muitíssimo mais cedo que a maioria. Aos quatro anos, pisei num jardim de infância pela primeira vez e já sabia. E para quem pensa que boa educação corresponde a títulos acadêmicos: minha mãe, que me ensinou, só tinha a quarta série primária.

Mas nossa intelligentsia não admite furos em sua doutrina "vai pra escola, menino". Outro dia o farsante "Cidade dos Homens" faz mais uma das suas: traficante regenerado vai tentar se inscrever num concurso para gari. Tem ensino fundamental completo? Não. Sabe ler e escrever? Não. Mentira; em cidade grande analfabeto não consegue nem pegar um ônibus. Traficante de alguma importância, como era o caso, aprenderia a ler nem que fosse por esperteza. E, em outro episódio, outro traficante encarcerado armava para conseguir um laptop. Para jogar Space Invaders?

Posted by: Paulo C. Barreto at novembro 26, 2003 07:48 AM

Aprendi a ler e escrever em casa. Meus irmaos estudaram em um grupo escolar público, pequeno e simples.
Mas as coisas mudaram demais. Nao há mais maes em casa para educarem seus filhos.
E as escolas perderam sua funçao de ajudar na educaçao da sociedade. Agora é pura empresa para ganhar dinheiro.
Mas concordo com voce, quando diz que estudar nao significa sala de aula. Até hoje estudo... e creio que nao vou parar jamais.
Quanto mais estudo, mas descubro o pouco que sei.

Posted by: nora at novembro 25, 2003 05:32 PM

Outro livro interessante sobre isso é o "Deschooling Society", do Ivan Illich, que saiu aqui como "Sociedade sem Escolas". O autor é meio doidão, mas neste ele acertou a mão.

Posted by: Marcelo at novembro 25, 2003 03:02 PM

Pra ter idéia de como a coisa é forte por lá, entrem na Amazon.com e façam uma busca por "home schooling". Ou vão direto para este link: http://www.amazon.com/exec/obidos/search-handle-form/104-9061859-2464725

Posted by: Claudio at novembro 25, 2003 11:31 AM

P.S.: Que tradução é essa, "A Arte de Ler"? A tradução da UniverCidade, "Como Ler um Livro", eu conheço, mas eu não sabia que havia alguma outra... Abraços.

Posted by: Felipe Ortiz at novembro 25, 2003 11:08 AM

Boa, César.

Há uns dois anos, um formando em Direito me propôs que eu elaborasse a monografia de conclusão de curso dele, em troca de uma bom dinheiro. Recusei, é lógico, mas fiquei sabendo que existe por aí uma verdadeira indústria clandestina de monografias, dissertações e até teses de doutorado. Uma boa parte das pesquisas produzidas por nossos alunos é puro charlatanismo.

Além dos filósofos que você citou, inclua também Olavo de Carvalho, Vicente Ferreira da Silva, Newton da Costa... e pronto, acho que acabou. Talvez dê para redigir uma história essencial da Filosofia brasileira sem mencionar nenhum bacharel em Filosofia.

Existe nos EUA um vigoroso movimento de educação doméstica ("homeschooling"), que conta com várias organizações, publicações de livros e revistas, eventos, seminários, grupos de estudo e troca de experiências, sites e listas de discussão. Centenas de milhares de norte-americanos são educados em casa, com a assistência de especialistas experientes. Claro, nada disso chega ao Brasil, e aqui a idéia de educar um filho em casa soa como uma nostálgica extravagância do tempo do Antigo Regime. Vou tentar investigar esse assunto a fundo e, à medida que for me informando, tratar disso lá no "Alexandrinas". É uma das minhas preocupações favoritas.

Abraços.

Posted by: Felipe Ortiz at novembro 25, 2003 11:05 AM

Não posso garantir que uma criança possa aprender a ler e escrever sozinha, mas eu fui alfabetizado em casa. Tinha uns 2 anos quando meu pai me ensinou a ler (e olha que ele não era nenhum doutor, só tinha a 2a série do primário, como se dizia na época). Meu pai conta que aprendeu a ler, escrever e a contar em casa, só frequentou escola por dois anos, e depois meu avô o tirou de lá porque já havia aprendido o suficiente. Com onze anos, foi ele parar num balcão de venda de estrada. Ministrar o ensino de seus filhos em casa é um direito decorrente da lei divina e natural que assiste a qualquer pai. Só mesmo um vagabundo se preocupa em dar uma boa escola para seus filhos, o homem de caráter procura fazer de sua própria casa essa boa escola.

PS - Quem estuda não precisa de escola boa. Eu estudei num colégio público bem fuleiro, em que no 3o Colegial noturno o prof. de Química praticamente abandonou a classe durante um semestre para me dar reforço em exercícios para o Vestibular. Se não fosse por ele, talvez não teria obtido os 10 pontos na prova de Química na Fuvest (nunca fui bom de exatas).

Posted by: Rodrigo R. Pedroso at novembro 25, 2003 10:44 AM

César:

Verdade, verdade. Estudar não tem nada a ver com sala de aula. De obrigatório, só deveriam ensinar português e matemática, as línguas oficiais do Brasil e do raciocínio, respectivamente. O resto é resto. Depois de ler seu texto comecei a pensar em montar um curso de autodidatismo. "Aprenda a aprender: essa é a última vez que você vai ter um professor!" seria um bom slogan. Você aceita dar umas aulas?

Posted by: Porfirio Caetano das Neves at novembro 25, 2003 10:22 AM
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