julho 21, 2008
A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER VII
Já cavei muito poço. É um trabalho pesado, mas divertido. Gosto de ver como tudo se dá. É como fazer uma casa. É um prazer ver que onde não tinha nada passa a ter uma coisa importante para a vida das pessoas. Pois é, uns parentes meus se mudaram recentemente para uma chácara e eu me ofereci para ajudar no que precisassem. E precisavam. Cavar uma cisterna é simples. Com uma picareta se faz um círculo e se cava o buraco. No começo duas pessoas fazem a coisa, uma com a picareta para cavar e a outra com a pá para retirar a terra. A partir dos 30 centímetros de fundura do buraco, se acertam as paredes para ficarem retinhas. E continua a cavação, retirando-se a terra com balde em uma roldana. No fim do dia se chega ao lençol de água. Cava-se mais um pouco e dentro do buraco só cabe uma pessoa, que fica lá, torcendo para a corda não arrebentar, pois um balde daqueles, cheio de terra, na cabeça do cristão pode fazê-lo se encontrar com o Cristo antes da hora. Uma vez o balde caiu quando eu estava no poço, por sorte caiu ao meu lado. Bom, depois disso, se colocam os tijolos como fosse uma casa, até acima da borda. Reboca-se, pronto. Tá pronta a cisterna. Mas não foi assim daquela vez. Daquela vez, quando chegamos a uns nove metros de profundidade, chegamos a uma rocha maciça que não tinha picareta que conseguisse furar. A saída foi sair, devolver a terra ao buraco e tentar em outro lugar. No fim do dia, cheguei em casa moído do esforço que fiz e nem toquei no computador para continuar a história. No outro dia, tentamos em outro lugar e, dessa vez, chegamos à água depois de cavar dez metros, mas a água era salobra, imprópria para o consumo. Tem isso também, às vezes, a água não presta. Jogamos a terra no buraco novamente e tentamos em outro lugar no outro dia, quando, enfim, deu certo. Nunca vi um poço dar tanto trabalho. Antes de voltar à história, uns quatro dias depois, pensava no que teria acontecido e como o tempo teria passado lá. E mais: o que aconteceria se eu abandonasse aquela história e voltasse a lê-la daqui a vinte anos? E mais: e se eu deletasse e me livrasse daquela maluquice? O que aconteceria com aquela gente que tinha vontade própria? Mas, se eles tinham vontade própria, existiam de fato e seria genocídio deletar aquele arquivo. Mais do que genocídio. Eu estaria destruindo um universo. Que enrascada. E, se eu não mexesse nunca mais, a história continuaria sozinha sem ter fim? Os personagens morreriam quando eu morresse? Baseados em que esperança eles viviam? Será que têm um deus? Ou vivem na tenebrosa esperança dos ateus? E se fosse EU o deus deles? Quem sou eu para desobscurecer o futuro de alguém? O que eu poderia fazer para salvá-los? Como eu poderia levar uma boa nova a eles? Eu estava curioso a respeito deles. Mas, que droga, fui eu quem os inventou! Para as coisas acontecerem como eu havia planejado, eu teria que dedicar todo o meu tempo para eles. Ora, eu não poderia ficar por conta deles para sempre, eu tinha minha vida. Nem poderia, como Cristo, me tornar um deles. De pensar nisso, me senti no fundo de um poço. (Continua...)
PS – O Pró Tensão lamenta a morte prematura de Dercy Gonçalves.
julho 17, 2008
A RAZÃO É A LUZ QUE ILUMINA O OBSCURANTISMO DA FÉ. E VICE-VERSA
A ciência é um ramo da árvore. O sobrenatural é de onde veio a força da semente. Ciência e sobrenatural não são incompatíveis e se tocam mais do que muitos imaginam. A própria natureza está cheia de incompatibilidades aos olhos da ciência. Se tudo fosse simétrico na natureza como parece à primeira vista, teríamos dois corações como temos dois braços, duas pernas, dois pulmões (Chesterton nos lembra disso em seu livro Ortodoxia). A ciência nos mostra uma verificação feita à primeira vista. Em seguida nos mostra uma verificação à segunda, à terceira, à quarta, à quinta vista, e todas elas podem se contradizer e se desmentir mutuamente, pois a neve de longe é branca e de pertinho é meio cinza. A ciência é um método de medir. As leis da natureza têm um legislador. Esse legislador pode burlá-las, pois tais leis não se aplicam a Ele. É da ciência buscar a origem das coisas e ela sabe que a origem da coisa não está na coisa, assim como a energia que move a coisa não é produzida por ela. De onde veio a energia que faz o universo girar? De dentro dele? Não seria científico acreditar nisso. O problema é que o cientista ateu busca a causa das coisas até onde lhe convém. A Causa (maiúscula) ele descarta de cara e, nessa hora, se mostra não científico. A ciência é muito útil para desmascarar falsos milagres. Deveria ser útil também para reconhecer os verdadeiros. Nenhum cristão sério apoiaria o reconhecimento como milagre de algo falso. Ora, seguindo o raciocínio da causa, só podemos dizer que a causa da existência do universo é sobrenatural, pois antes de existir o universo, não se poderia falar em natureza. Se algo está além da razão, esse algo a engloba. Se o sobrenatural existe, ele vê e controla o natural, pois está acima dele. Pode inclusive fazer-se de invisível ao natural. Nada pode o natural afirmar a respeito do sobrenatural sem autorização deste. Só o agnosticismo seria respeitável em tal caso, pois o ateu se coloca na mesma posição anticientífica que ele tanto critica no crente. O crente, porém, não pretende mesmo ser científico. Se a ciência ainda não explica um evento, nós não o podemos atribuí-lo ao sobrenatural? Nesse ponto a ciência toma para si a divindade a se colocar como instância última que tudo sabe ou tudo saberá. É justamente o contrário, tudo deve ser atribuído a seres divinos, até que a ciência prove que não é. A ciência é um instrumento, não O saber. Além disso, existindo o mundo sobrenatural, ele pode muito bem entrar no mundo natural e usá-lo como instrumento. E a chuva, por exemplo, mesmo sendo explicada pela ciência, será uma chuva causada pela vontade de Deus (ou acontecerá algo que Ele não queira?). Vivemos em uma era científica, os cientistas acham isso, mas quão científica essa era é? Usando um raciocínio realmente científico, só podemos responder que não sabemos e que amanhã a ciência pode negar tudo o que afirma hoje. Outra coisa é a falsa dicotomia entre religião e ciência. A religião não é anticientífica e a ciência não deve ser anti-religiosa, pois, assim como a ciência desmascara falsos milagres, a religião também desmascara falsas ciências. A ciência é falsa justamente quando quer se travestir de religião. As verdades religiosas são eternas. As científicas são passageiras. Sempre que uma verdade científica se pretender eterna, deverá ser rechaçada, primeiramente pelos cientistas honestos e pela própria religião. Algumas teorias de Darwin, por exemplo, estão nessa classe de verdades científicas que se pretendem eternas e que a própria ciência já tratou de demonstrar a falta de um método científico ali e colocar tais teorias na caixa das meras hipóteses, apenas uma possibilidade no reino imensurável das possibilidades. Com a verdade religiosa se dá o contrário, pois seria muito estranho se o Papa aparecesse com a notícia de que o sexto mandamento foi revogado (apesar de que muitos gostariam que isso acontecesse). E quando as duas verdades se estranharam, há casos em que a Igreja recuou e há casos em que não recuou e só o tempo disse quem estava certo, mas nada tira a validade das verdades religiosas, pois ninguém discorda que não devamos matar o próximo e que devamos honrar nossos pais. Não foi um extremista religioso quem inventou a bomba atômica e, além disso, os maiores assassinos na humanidade eram ateus. Não posso afirmar que Mao Tse-Tung e Stalin mataram milhões de pessoas por serem ateus, como não posso afirmar que foi o islamismo de Bin Laden que o fez terrorista. O mal existe em qualquer coração. Cristo disse que “só Deus é bom”. A diferença é que um verdadeiro crente sabe que seus atos serão cobrados por Deus. As razões para atos moralmente aprovados de um ateu podem ser bem parcas, têm o limite de seus medos (ou de seu estômago). Talvez por isso, um ateu com muito poder seja mais perigoso do que um verdadeiro cristão com muito poder terreno (há vários exemplos de santos que foram reis e rainhas, mas não me lembro de ateus poderosos e bondosos, o que não significa que não existam). A maldade feita por quem se diz religioso é um desvio em sua religiosidade (o “extremismo religioso” é o que há de menos religioso, extremismo religioso era o de Cristo). Quem mata em nome de Deus desobedece a Deus. Mate a fé dessa pessoa e ela matará muito mais (imagina a bizarrice deste testemunho de um ex-crente: “eu tinha fé e matava, mas hoje, depois que me tornei ateu, sou um homem bom”). Um ateu não pode abrir sua científica boca para culpar a religião pelas violências do mundo e dizer em seguida que Stalin e Mao não foram genocidas por serem ateus, pois não é científica tal análise. Mesmo cientificamente, a fé não é algo que se deva combater, pois já se provou cientificamente que a fé faz bem para a saúde.
julho 12, 2008
OS TRÊS CUBOS
Três cubos entram em um bar que só atende militares. O barman se recusa a servi-los, então um dos cubos sai, pega um pincel e faz uma pinta em um de seus lados, duas no outro lado, três em outro, quatro, cinco e seis pintas no seu sexto lado e volta a entrar no bar. O barman pergunta: “peraí, você é militar?”. O cubo responde: “sou dado”.
*Piada com trocadilho, que fiz a pedido de Juliana Lemos (trocadilho bom é trocadilho ruim, né Jules?)
julho 09, 2008
A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER - VI
Na volta ao romance, a situação estava satisfatoriamente desordenada, isto é, se a idéia era tumultuar uma história, estava tudo ótimo. O menino insistia que tinha ouvido vozes, que toda sua vida era uma história e que eles eram personagens e deveriam ficar quietos e deixarem que o autor escrevesse em paz. Contou o sonho do tio para ele, o que fez muita diferença, pois Eurico estremeceu ao ouvir os detalhes. O pai de Eurico, avô do garoto, deu o diagnóstico: o garoto estava louco e deveria ser internado. O problema é que o menino realmente insistiu na história, não dormia de noite, não prestava atenção na aula, contava a história para todo mundo. A avó dizia: “que autor mais idiota! Se ele acha que deveríamos ficar quietos e deixar que ele escrevesse em paz, por que foi contar logo para esse menino linguarudo? E por que diabos esse menino fala feito um papagaio se está convicto de que deveria ficar quieto? Tem coisa errada aí. Além disso, como eu vou saber se estou falando e fazendo o que quero ou o que o autor quer? Não tem quem me governe não, meu filho. Está para nascer um filho duma égua que mande em mim. Se ele é autor e me fez ser deste jeito, com essas dores nas pernas, quero que ele se dane...”. A senhora me disse uns impropérios, usando palavras que me fizeram ir ao dicionário. Era uma senhora muito enraivecida e doutora em questões de esculacho, coisa surpreendente para mim. Talvez a idéia dela fosse que eu lhe retirasse as dores das pernas, única reclamação específica que fez. Fiquei de pensar no caso. A criança estava mesmo doente, pois depois que ouviu minha voz e passou a propagar essa história, a família se reuniu e achou melhor levá-lo a um psiquiatra que receitou pesadas drogas. O tio, que acreditava no sobrinho, fingia que não acreditava para não ser visto também como doido. Fez questão de estar presente na consulta e furtava comprimidos da criança, pois sabia que sofria do mesmo mal. Não exatamente do mesmo mal, pois a criança, além de ter passado, ela mesma, pela experiência de ouvir a voz do autor, era uma pessoa introvertida que se vira obrigada a agir de modo extrovertido. Enfim, ocorrera um trauma àquela criança. Ao tio nem tanto, pois ele era um pouco parecido comigo, por ser o protagonista do livro. Não se assustava muito com coisas absurdas, mas aquela revelação abriu mil possibilidades em sua cabeça. Embora passasse naquele momento por uma fase de agnosticismo, ele sempre desconfiara da existência de um “autor de tudo”. Agora, às vezes acreditava firmemente que era um mero personagem de livro e, nessas horas, furtava um dos remédios do garoto. Absorvido na história, sem ter escrito nada, pois uma hora ou outra eu esquecia que era o dono daquilo lá, meu telefone tocou. Era um primo pedindo que eu fosse cavar uma cisterna. Vocês acreditam?!
