Sônia e Elisabete moravam juntas. Sônia era filha de um viúvo, fabricante de botões e pentes, feitos de chifre de vaca, que culpava o plástico por sua falência. Talvez por isso ela tivesse aquele ar aristocrático: foram muito ricos e quebraram, mantendo apenas o bem de família, desproporcionalmente marmóreo para aquele bairro classe média-baixa da zona leste. Lá, ela morou com o pai, até que um câncer lento, e cheio de impropérios contra a baquelite, a deixasse infinitamente sozinha.
Foi pouco depois da morte do pai que convidou a Bete, para dividir despesas – não tinha como mudar-se, e os silêncios da casa imitavam os últimos gemidos do moribundo, à noite. Bete morava só, depois de um casamento sem filhos, e aceitou sem pensar. Acabaram compartilhando mais que a casa: na hormonal imaginação dos seus aluninhos, dividiam a cama, a pia do banheiro, os tapetes da sala...
No começo, havia algum constrangimento no convívio: uma sentia-se um pouco como anfitriã, responsável pelo bem-estar da outra. A outra, meio-visita, meio-pagante, morria de medo que a outra achasse que incomodava, que passava de limites. E nenhuma das duas estava realmente à vontade nos encontrões pelos corredores, nos flagrantes dos ataques noturnos à geladeira. Mas a natureza dócil, meiga mesmo, das duas, causava mais gentilezas, escusas murmuradas e rubores incontrolados que efetivo mal-estar. Davam-se bem, enfim.
Numa noite de bom calor, Sônia abria um pote de sorvete de creme, quando Bete, de calcinha e camiseta, apareceu na cozinha, pensando no mesmo pote, que haviam comprado para dividirem.
A doce conversa começou pela depressão que o desejo noturno pelo sorvete denunciava; passou pelo Portinho, o professor de Educação Física cujos agasalhos justos causavam métricos comentários na sala das professoras; andou pelo desempenho de alguns alunos, inversamente proporcional ao número de espinhas que exibiam, e terminou em risadas cúmplices, que pontuavam os comentários maldosinhos sobre os alunos, as alunas, as outras professoras e as freiras do colégio.
A hora, anunciada pelo velho carrilhão da sala em três gongadas, fez com que se forçassem a ir para a cama. E Sônia, quase sem perceber, foi beijar o rosto de Bete. Só quando estava perto demais para voltar para trás, lembrou-se que a outra estava semi-nua. Naquela noite, em camas separadas, nenhuma delas dormiu.




